Comentario de “O Existencialismo é um Humanismo” de J. P. Sartre

28nov07

Comentário de “O Existencialismo é um Humanismo”, de J. P. Sartre

A conferência pronunciada por Sartre em 20 de outubro de 1945, ´´O Existência é um Humanismo´´ sai em defesa do existencialismo contra de uma série de críticas lançadas durante todo o desenrolar da Segunda Guerra Mundial. De maneira geral, elas afirmam que Sartre, ao negar a vinculação necessária da subjetividade a valores transcendentais e históricos, passa a adotar uma postura solipcista, fruto de uma visão burguesa, atéia e não-histórica de mundo. Cerceado pela precariedade e pelo desamparo ontológicos, vítima do desespero e da angústia, o sujeito sartreano não poderia escapar à total liberdade e, conseqüentemente, à absoluta gratuidade de suas ações. Deste modo, a crítica a seus escritos recai sobre a niilização do sujeito, o que de forma alguma se aproxima dos enaltecedores pressupostos clássicos do humanismo. Evidentemente, Sartre busca uma revisão do próprio conceito em voga. Sendo assim, o filósofo procura deliberadamente distanciar-se das noções tradicionais relacionadas tanto à vertente cristã quanto ao de viés marxista, negando uma metafísica em ambos os casos.
Se as afirmações motrizes do pensamento existencial ‘’A existência precede a essência’’ e ‘’É preciso partir da subjetividade’’ forem tomadas em toda sua força, se faz necessário levar a noção de liberdade até as últimas conseqüências. A partir da concepção de um homem capaz de fazer-se a si próprio, negando qualquer forma de natureza essencialista a priori, a natureza humana e a liberdade passam a identificar-se plenamente. O homem não seria nada além do que projeta ser, num constante e infinito movimento de transcendência horizontal, de lançamento e encontro de si mesmo. Uma concepção tão radical de liberdade trás obviamente uma série de conseqüências que geraram polêmica. Como afirma Sartre ‘’(…) se realmente a existência precede a essência, o homem é responsável pelo que é. Desse modo, o primeiro passo do existencialismo é o de pôr todo homem na posse do que ele é de submete-lo à responsabilidade total de sua existência.’’. Esta noção de responsabilidade, entretanto, não fica restrita apenas à escolha individual, pois ao escolher o que julgo correto, o que considero ser a maneira mais sensata de agir, imprimo ao ato valor universal. Cada escolha que faço está revestida de total relevância, pois é através dela que demonstro o que julgo o mais correto para toda humanidade. ‘’Ao escolher-me, escolho o homem´´. Sartre atribui à desproporção entre o homem finito e a escolha universal as noções comumente relacionadas ao existencialismo, como a angústia, o desamparo e o desespero. O homem encontra-se acuado ao deparar-se com o peso de sua escolha individual e só lhe é possível falsear tal assombro através de uma conduta de má-fé, uma ilusão que mascara a absoluta importância da escolha individual. ‘’Aquele que mente e que se desculpa dizendo: nem todo mundo faria o mesmo, é alguém que não está em paz com sua consciência, pois o fato de mentir implica um valor universal à mentira.´´. Se o homem não possui uma essência, a idéia de Deus, fonte eterna de valores universais a priori, cai por terra, e isso é antes de tudo, para o existencialista, uma grande perda. Lançado ao mundo e tomado pelo desamparo, o homem é obrigado a fazer uma escolha solitária , sem nenhuma garantia ou esperança de que sua opção é correta ou que gerará frutos positivos tanto na esfera individual quanto coletiva ao ser lançada na contingência. Dirá Sartre ´´O homem está condenado a ser livre´´. Através do exemplo de seu aluno, indeciso sobre a escolha entre lutar pela nação e cuidar da mãe doente, o filósofo ilustra como tanto a moral histórica marxista quanto a moral cristã não dariam conta de orientar absolutamente a conduta do rapaz. No entanto, é preciso engajar-se e agir sem esperança.

Alvo da crítica marxista, que lhe acusava de adotar uma postura contemplativa e, conseqüentemente, burguesa, pois a contemplação é um luxo, Sartre afirma que escolher não é uma escolha, ‘’Aí estamos’’ e a escolha pela alienação também constitui uma forma de engajamento. ‘’Cada homem escolhe seu engajamento e o seu projeto com toda a sinceridade e toda a lucidez’’. O existencialismo é fundamentalmente oposto ao quietismo. Como assumir uma postura contemplativa quando se proclama que nada existe além do real e da ação? Projetos não realizados, ações não trazidas à efetividade, o livro que não escrevi, os filhos que não tive, a esfera política da qual estive alheio, nada disto justificaria uma postura indiferente a não ser através de uma conduta de má-fé, delegando às circunstâncias projetos inacabados.
Mas como entender o engajamento através de uma visão desesperançada sem entregar-se ao pessimismo e a inação? Primeiramente, é preciso tomar consciência de que o destino da ação individual depende fundamentalmente da postura do outro, que por sua vez também escolhe livremente. O indivíduo não possui qualquer controle da contingência. Qualquer outra perspectiva que fixe um horizonte comum constitui falso otimismo e agride a liberdade. Agir sem esperança é a única postura conciliável com a concepção de liberdade radical. ‘’O que o existencialismo faz questão de mostrar é a ligação existente entre caráter absoluto do engajamento livre – pelo qual cada homem se realiza, realizando um tipo de humanidade – engajamento sempre compreensível em qualquer época e por qualquer pessoa, e a relatividade do conjunto cultural que pode resultar dessa escolha.’’. Dessa maneira, a antropologia filosófica a qual Sartre busca é inevitavelmente encontrada através da compreensão da ação humana no processo histórico, dentro do qual o indivíduo exerce sua liberdade defrontando-se com os limites que o definem.
A condição humana, a contingência que nos cerca e permeia, é o único limite a priori universal que podemos tomar como traço ontológico. Mesmo variando a condição histórica individual, ‘’(…) não muda o fato de que para ele, é sempre necessário estar no mundo, trabalhar, conviver com os outros, ser mortal.´´. O projeto humano constitui-se, portanto, na direção da negação, adaptação ou superação dos limites que o cercam e é através dessa universalidade da condição que conhecerei o outro. Se me conheço tomando consciência de meus limites, é partir dos limites do outro que o conhecerei, não através de uma abordagem essencialista, um olhar objetivante, o que me daria apenas um flash momentâneo, mas através do seu desenvolvimento na temporalidade, num contraste entre o que se apresenta a mim de maneira clara e o que se oculta, o que é e o que ainda virá a ser, sempre subordinado a relatividade do meu olhar. Surge então outro ponto bastante criticado em Sartre, que diz respeito à gratuidade do projeto. Sendo toda escolhe livre, o que a impede de também ser absolutamente arbitrária? Mais uma vez nos deparamos com luxo, o capricho e a fantasia do exercício ilimitado e abstrato da liberdade. Sartre defende-se afirmando que sendo a existência definida por limites concretos, o exercício da liberdade deve guiar-se no sentido de supera-los. Além do mais, escolher é imprimir valor universal à escolha e considera-la a melhor opção para toda a humanidade, tornando o sujeito responsável por ela. Sartre introduz então a noção de autenticidade da escolha, traçada em contra-ponto com a idéia de má-fé. Para que uma escolha seja verdadeiramente autêntica, ela não deve nem dissimular a liberdade, fazendo preponderar determinações de qualquer natureza (seja ela psicológica, histórica, social ou biológica), nem ocultar o vazio constitutivo da existência, negar seu caráter dramático, afirmando a necessidade. O humanismo existencialista caracteriza-se justamente por não buscar estabelecer nenhuma forma de juízo a respeito da humanidade, nenhuma tábua de valores transcendentais através dos quais seria possível julgar todo ato uniformemente segundo um determinado fim. Através do constante lançar-se em busca de si, num movimento infinito em direção à totalidade, de transcendência horizontal, o existencialismo afasta o próprio homem de seu eixo e afirma. ´´(…)não é voltando-se para si mesmo mas procurando sempre uma meta fora de si – determinada libertação, determinada realização particular – que o homem se realizará precisamente como ser humano´´

Caio M. R. Favaretto

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5 Responses to “Comentario de “O Existencialismo é um Humanismo” de J. P. Sartre”

  1. 1 caio

    Bom mesmo!

  2. 2 vik

    muito bom !

  3. 4 aaa

    Texto MUITO bem elaborado! Parabéns!

  4. 5 joyce

    muito bom mesmo, está bem explicado


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