Modernização é sinônimo de ocidentalização?

13jan08
Trabalho apresentado na disciplina Globalização e Fragmentação em Perspactiva Histórica ministrada pelo professor Peter Demant
Leonardo Fontes

Introdução

 

A história da humanidade é a história da constante tentativa do homem em melhorar sua qualidade de vida através da aplicação de seus conhecimentos ao cotidiano. Isso tem se tornado mais freqüente na medida em que avança o conhecimento humano em relação ao mundo que o cerca. Entretanto, o uso deste conhecimento é potencialmente destrutivo para a própria humanidade, não apenas em termos estritamente militares, mas também em termo ambientais e, principalmente, sociais e psicológicos. Assim a aplicação da técnica e da ciência moderna aos problemas enfrentados pela humanidade pode melhorar muito o padrão de vida humano, mas também pode trazer uma destruição sem precedentes. É justamente deste impacto ambíguo da modernização na vida humana que vai tratar este trabalho, ou seja, pretende-se analisar como a expansão da modernidade, sobretudo em seu aspecto econômico, afeta as sociedades nas quais este processo não se dá de forma “natural” para que, então, se possa fazer uma discussão de até que ponto a modernização é ou não sinônimo de ocidentalização e em que medida ela abre espaços para se pensar criticamente uma teoria da emancipação humana.

O trabalho será dividido em seis partes. Na primeira parte faremos uma análise do conceito de modernização em seus mais amplos aspectos e seus problemas e contradições. A segunda parte consistirá na análise do conceito desenvolvido por Eisenstadt de “modernização cindida”, e como a modernização se processa, por diversas vezes, de forma parcial em sociedades de modernização retardatária. Na terceira parte faremos uma revisão da idéia desenvolvida por Huntington da continuidade de existência de várias civilizações e como modernização não é sinônimo de ocidentalização. Na quarta parte, nosso foco serão os diferentes padrões de modernização cindida com especial atenção para os casos do Brasil e do Japão. A quinta parte, buscará, por meio de uma crítica às teorias da modernização mostrar como a modernização pode não ser sinônimo de ocidentalização, mas é indubitavelmente sinônimo de aceitação da hegemonia ocidental. Por fim, a sexta e última parte terá como horizonte a busca de um caminho emancipatório dentro do quadro de expansão da racionalidade que caracteriza a modernidade ocidental.

A idéia central que permeia este trabalho é que estamos diante de um quadro de crescente fortalecimento da hegemonia ocidental que se expressa pelo desejo de praticamente todos os países por se tornarem modernos (como os países do ocidente). Entretanto, partimos de uma perspectiva crítica que acredita que o abandono da luta política é a pior saída para a resolução do impasse da modernização.

 

A Modernização e Suas Contradições

 

Para que a discussão presente esteja bem fundamentada é essencial que partamos da conceitualização do termo modernização. Neste primeiro momento, vamos nos concentrar em procurar entender os impactos e contradições que a modernização trouxe para os países em que ela ocorreu de forma espontânea como uma resposta a demandas internas, isto é, Europa Ocidental e Estados Unidos. Desta forma, entendendo o que significa ser moderno no ocidente será mais fácil entender em que medida a modernização se traduz em sinônimo de ocidentalização.

Em meados do século passado, o termo “modernidade” era usado para descrever características comuns aos países mais avançados nos campos político, tecnológico, econômico e social, e “modernização”, para qualificar o processo de aquisição dessas características, isto é, “o processo de mudança para os tipos de sistema social, econômico e político que se desenvolveram na Europa Ocidental e América do Norte[1]”. Dessa forma, “Europeização” e “ocidentalização” também eram empregadas nesse sentido genérico, principalmente para descrever o impacto de países mais avançados em outros menos favorecidos[2]. Portanto, claramente não havia distinção entre ser moderno e ser ocidental ou seguir o padrão Europeu. No entanto, entender a modernização e o ocidente nesses termos estritos parece demasiado empobrecedor e bastante simplista, na medida em que ignora uma diversidade enorme de aspectos que está abrangida por um processo extremamente complexo. Tal visão advém da adoção de uma imagem liberal de progresso que foi projetada no mundo inteiro, que partia de uma concepção de evolução erroneamente atribuída às sociedades da Europa Ocidental e do mundo de língua inglesa[3]. Assim, Black afirma que,

“Modernização… se refere ao dinamismo adotado pelo processo de inovação através da proliferação explosiva de conhecimentos, nos últimos séculos” que pode ser definida como “o processo de adaptação das instituições historicamente evoluídas, às funções, decorrentes da expansão , nunca vista dos conhecimentos humanos, possibilitando o controle do meio-ambiente que acompanhou a revolução científica[4]

 

Da mesma forma, tanto Eisenstadt quanto Black buscam desenvolver critérios mais amplos de modernização. Essa ampliação do conceito é fundamental para nosso propósito de relacionar a modernização e a ocidentalização, pois somente partindo de um entendimento amplo deste complexo processo poderemos compreender como os ele se desenvolve originalmente no oriente e como se dá sua expansão para o resto do mundo.

Eisenstadt entende que, socialmente, as sociedades modernizadas são altamente diferenciadas e especializadas e dentro de cada esfera institucional (econômica, política e cultural) desenvolvem-se unidades distintas. Na esfera econômica, a grande marca da modernidade é o alto grau de desenvolvimento tecnológico e a especialização das funções com aumento da participação dos setores secundários (indústria e economia) e terciário (serviços) na economia. No âmbito político, há uma forte intensificação do poder nas entidades legais, administrativas e políticas da sociedade, uma extensão da possibilidade de participação política (em última instância a todo indivíduo adulto), há uma consolidação de regimes democrático (ou pelo menos populistas) e conseqüentemente uma decadência da legitimação tradicional dos governantes com o surgimento de uma responsabilidade ideológica dos governantes. Culturalmente, a modernidade é marcada por uma diferenciação crescente dos principais elementos dos sistemas culturais e de valores, com uma mudança fundamental na relação entre filosofia e cultura e pela disseminação da alfabetização e da educação secular. Assim, abre-se uma nova perspectiva cultural com ênfase na idéia de progresso, de melhoramento pessoal, na felicidade, na expressão espontânea e no entendimento da individualidade como valor moral, com acentuação da dignidade do indivíduo e da eficiência[5].

Black, por sua vez, faz uma análise ainda mais completa ao entender que a atividade humana pode ser discutida em termos de cinco aspectos centrais: intelectual, político, econômico, social e psicológico. No campo intelectual a mais profunda mudança provocada pelo homem em sua percepção da realidade foi provocada pela revolução científica do século XVI que provocou uma “ânsia por conhecimento” e uma “atitude científica” com aplicação da ciência a assunto práticos, sob a forma de tecnologia, que também veio a influenciar critérios de valor. Na política a modernização veio a ser sentida pela consolidação das decisões legais nas áreas pública e privada, ou seja, houve uma crescente aceitação como legítima das decisões tomadas com base na administração racional-legal. Paralelamente, ocorreu uma centralização dos órgãos administrativos do Estado, que passou a funcionar como autoridade central mais forte. Em termos econômicos, a modernização se caracterizou pela criação de excedentes que puderam ser reinvestidos para a expansão do sistema. O surgimento deste excedente está intimamente ligado a especialização das atividades que permitiu imensos ganhos em produtividade, além de depender sensivelmente dos aspectos intelectuais e políticos pela necessidade de expansão do conhecimento e da mobilização de recursos ligada à habilidade de líderes políticos. No âmbito social, a modernização é acompanhada de um forte êxodo rural (crescimento da urbanização), da extensão da alfabetização, da modificação das relações de gênero, da ampliação das possibilidades de informação, do ensejo para melhor distribuição de renda e da mobilização social. Por fim, na visão de Black, o aspecto psicológico da modernização, que trata da percepção individual do ser humano, é caracterizado pela valorização do individualismo e o abandono de valores e critérios tradicionais, já que esses valores passam a ter maior fluidez e maior flexibilidade[6].

Fica claro, portanto, que no ocidente, a modernização econômica, entendida como o desenvolvimento das forças produtivas dentro do sistema capitalista, está nitidamente incompleta se não entendermos como esse desenvolvimento se deu nas diversas áreas que afetam o ser humano. Porém, para termos uma visão ainda mais abrangente da dinâmica da modernização é necessário que compreendamos suas contradições e seu processo de desenvolvimento.

Dessa forma, Black descreve o que ele denomina de “agonia da modernização” para mostrar como se trata de um processo que ao mesmo tempo é extremamente criativo, mas também pode revelar-se extremamente destrutivo, “ensejando novas oportunidades e perspectivas a um elevado preço de deslocamento e sofrimento humanos[7]”. Outra contradição inerente ao processo de modernização é a tendência à concentração de autoridade e ao mesmo tempo à integração da maioria dos aspectos da atividade humana dentro de uma estrutura bem mais ampla chegando a abranger toda a humanidade, essa crescente e evidente contradição entre independência e interdependência tem ganhado importância e é tido, para muitos autores, como centro de uma crise internacional contemporânea.

Do mesmo modo, a modernidade se vê diante do dilema de como manter a qualidade de vida da população em termos econômicos, políticos e sociais e, ao mesmo tempo, ser capaz de incorporar grandes quantidades de pessoas nesses processos. Assim, não se podem deixar de lado os efeitos que o processo modernizador tem sobre a estabilidade e a identidade da personalidade dos indivíduos, essas incertezas sobre as normas e valores que se tornam mais fluidos na Era Moderna podem levar o homem a renunciar à sua liberdade em momentos de grave conflito para uma liderança mais enérgica, dada a falta de segurança em relação a seus objetivos[8].

Por fim, não podemos nos esquecer dos danos causados pela valorização do individualismo moral, que acaba por atomizar a sociedade, despojando o indivíduo de seu senso de comunidade e integração. O impersonalismo crescente de nossos dias tende a tratar a vida do homem como um número, uma entidade abstrata sem entendê-lo em suas particularidades.

O processo de modernização deve assim, partir do âmbito intelectual para, após a criação de uma base política organizacional, se estender para as demais esferas de atividade humana. Assim, Black identifica quatro fases ou processos pelos quais um país em modernização deve passar. A primeira fase é o período que ele denomina de “desafio da modernidade” e trata-se do período de conflito entre as idéias e instituições modernas com as tradicionais, período em que surgem os primeiro defensores da modernidade, neste momento o processo ainda se encontra restrito ao âmbito intelectual. A segunda fase é a “consolidação da liderança modernista”, em que conflitos revolucionários transferem o poder político para lideranças modernizadoras, é um período de consolidação política da uma nova estrutura organizacional que vai criar as bases para a continuidade do processo modernizador. A terceira fase é a “transformação econômica e social”, com forte crescimento e desenvolvimento econômico capazes de transformar a sociedade agrária para uma sociedade predominantemente rural. Por fim, a “integração da sociedade” é a fase em que a transformação econômica e social provoca uma reorganização fundamental da estrutura social[9].

Não é difícil perceber que este processo não passa de uma visão genérica e bastante centrada nos países com processos de modernização avançada. As contradições do processo, apresentadas acima, e a não complementação do processo por diversos países do globo nos leva a analisar um outro conceito fundamental para este trabalho, a idéia de “modernização cindida[10]” de Eisenstadt que será desenvolvida a seguir.

Modernização Cindida

 

Como vimos anteriormente, o processo de modernização de uma sociedade não é algo unilinear, que leva indistintamente ao progresso e à integração social, trata-se de um processo extremamente conturbado e contraditório, dessa forma, cabe agora analisar, de forma breve, os impacto que de tal processo em sociedade que se viram obrigadas a modernizar-se por pressões externa diretas ou indiretas.

Os únicos casos de modernização que independeram completamente de impulsos externos são os países da Europa ocidental e seu descendentes diretos, os Estados Unidos e alguns domínios de língua inglesa. Nesses países a modernização se deu por desenvolvimentos internos à sociedade e não por forças estranhas a ela. Diferentemente, países com modernização posterior, este primeiro avanço modernizante se deu em larga medida por influências exógenas, o resultados desse processo são os mais diversos, mas cabe uma análise geral que servirá de pano de fundo para análises mais específicas posteriores.

A extensão da modernização atingiu sociedades com características bastante diversas, embora algumas características fossem minimamente parecidas. Em termos gerais, o nível de diferenciação social e desenvolvimento tecnológico era muito mais baixo em praticamente todas essas sociedades, a base do campesinato era maior e mais distanciada dos outros grupos, os agrupamentos urbanos, rurais, religiosos ou profissionais autônomos eram menos numerosos e mais fracos e os governos eram mais autocráticos. O resultado geral foi o desenvolvimento de um padrão de modernização diferente nessas sociedades.

Dessa forma, “o impulso para a modernização dividiu-se entre grupos diferentes ou focos institucionais na sociedade[11]”, o que gerou um elevado grau de conflito e incompatibilidade entre as tendências modernizantes. Assim, duas elites modernizadoras se confrontavam, de um lado, governos autocrático tradicionais ou semi-tradicionais decididos a promover uma modernização controlada e limitada às esferas técnicas com algumas econômicas e administrativas, sem atingir o campo da participação política; enquanto de outro lado estavam intelectuais e empresários com raízes sociais débeis e falta de coesão interna, um tipo especial de intelligentsia com pouca influência política e econômica[12].

A parti deste confronto e da necessidade eminente da modernização por parte desta elite política autocrática que corria riscos de perder sua posição de prestígio social, desenvolveu-se a “modernização cindida”. No campo político, este tipo de modernização resultou em uma baixa capacidade de absorção da participação geral da população pelos órgão centrais criados pela elite autocrática, demonstrando uma pequena possibilidade de transformação simbólica, ou seja, diferente do ocorrido na Europa ocidental e nos Estados Unidos, a relação entre governantes e governados não sofreu grandes mudanças. Economicamente, os regimes eram caracterizados por um ritmo de desenvolvimento relativamente lento que sofreu forte impulso na construção de ferrovias e na industrialização, com concentração na indústria pesada em unidades de grande porte e altamente dependente do governo. O ritmo desse desenvolvimento econômico, em geral, se encontrava em atraso em relação às aspirações políticas e ideológicas de pequenos grupos de intelectuais, mas em avanço em relação a grupos mais amplo que não tinham se modernizado em termos políticos e culturais, o que permitia a sustentação política desses regimes. Por fim, em termos sociais, a ênfase desses governos na manutenção de estruturas sociais vigentes, garantindo o predomínio da burocracia executiva e tradicional. Diante disso, os direitos econômicos e sociais de camadas mais amplas eram considerados dádivas e não direitos plenamente adquiridos, mais um item que permitia a manutenção da legitimidade desses governos tradicionais[13].

De modo geral, pode-se notar uma forte tensão, nesses países, entre a tentativa de forjar novos símbolos de unidade nacional e o Estado existente (em certa medida o repositório dos símbolos de unidade mais tradicionais). Assim, há que se dá a devida importância a essa divisão fundamental que ocorreu entre a esfera simbólica e as instituições centrais.

Barrington Moore ao buscar as “origens sociais da ditadura e da democracia” descreve três caminhos percorridos pelos países em direção ao mundo moderno. O primeiro caminho percorrido pelos primeiros países a se modernizar foi o das revoluções burguesas (Revolução Puritana, Revolução Francesa e Guerra Civil Americana), em que a característica chave é o desenvolvimento de um grupo na sociedade com uma base econômica independente, o qual ataca os obstáculos a uma versão democrática do capitalismo herdados do passado. O resultado deste típico modelo ocidental é a combinação de capitalismo com democracia. A segunda trilha rumo à modernização, que tem Alemanha e Japão como principais exemplos seria a da “revolução conservadora”, que não deixa de ser capitalista, mas acabou por culminar no fascismo. Tal saída ocorreria pelo fraco impulso burguês, sendo necessária uma revolução vinde de cima para baixo. Por fim, o terceiro caminho descrito por Moore é o caminho do comunismo, em que grandes burocracias agrárias serviram para inibir os impulsos comerciais e mais tarde industriais, é o caminho percorrido por Rússia e China. O caminho democrático, definitivamente não é o caminho necessário e obrigatório para a modernização como comprova Moore[14].

Está claro, portanto, que o padrão e a forma de desenvolvimento da modernização fora do núcleo central dos pioneiros desse desenvolvimento teve características extremamente peculiares. A questão agora é discutir se essa diferenciação é suficiente para se dizer que a modernização não significou uma ocidentalização, ou seja, se houve espaço dentro das mudanças tecnológicas, simbólicas e institucionais, que estão extremamente associadas, para a manutenção de valores e padrões nacionais. A seguir, apresentaremos as idéias de Samuel Huntington, autor que dá forte peso aos aspectos culturais das “civilizações” e que servirá de embasamento para nossa análise seguinte.

 

Huntington e a Diversidade de “Civilizações”

 

Samuel P. Huntington, em seu famoso “Choque de Civilizações” indaga até que ponto podemos afirmar a existência de uma civilização universal. A resposta do autor é clara e categórica: “O conceito de civilização universal é um nítido produto da civilização ocidental.[15]” Ou seja, para o autor, assim como o “fardo do homem branco” justificou o imperialismo no século XIX, a idéia de uma civilização ocidental ajuda a justificar a hegemonia cultural do ocidente e a necessidade das sociedades não ocidentais em imitarem as práticas e as instituições ocidentais. Portanto, segundo Huntington, nem o que ele chama de “cultura de Davos” (o a adoção de hábitos de consumo típicos dos padrões culturais ocidentais), nem o controle da mídia pelo ocidente são capazes de transformar as diversas culturas em ocidentais[16].

Não há dúvidas de que a afirma cão de Huntington é certeira, de fato a idéia de universalização do ocidente serve aos propósitos ocidentais de garantir sua hegemonia cultural ao redor do mundo. No entanto, o que Huntington não percebe é que o processo de modernização e sua imperatividade também servem exatamente ao mesmo propósito.

Na visão do autor, a modernização envolve industrialização, urbanização, aumento da alfabetização, educação, riqueza e mobilidade social e ma estruturação ocupacional complexa e diversificada. Na condição de primeira civilização a se modernizar, o Ocidente lidera a aquisição da cultura da modernidade, isto é, quando outras sociedades adquirem os padrões do ocidente essa moderna cultura ocidental se transforma na cultura universal do mundo. Entretanto, Huntington encontra a saída para esse dilema afirmando que o ocidente emerge nos séculos VIII e IX , portanto, muito antes de ser moderno, assim, as características fundamentais do ocidente antecedem a modernização do ocidente. Tais características poderiam ser resumida, segundo Huntington, da seguinte forma: o legado clássico (filosofia e racionalismo grego, Direito Romano, o latim e o cristianismo), o catolicismo e o protestantismo, os idiomas europeus, a separação entre autoridade espiritual e temporal, o império da lei, o pluralismo social, os corpos representativos e o individualismo[17].

“A expansão do Ocidente promoveu a modernização e a ocidentalização das sociedades não-ocidentais[18]” No entanto, reações diferentes foram provocadas por essa expansão que Huntington classifica em três grupos distintos. A primeira forma de reação é “rejeicionismo”, caracterizado pela atitude japonesa entre 1542 e 1854 com a abertura forçada deste país e com a Restauração Meiji em 1868[19]. O mesmo ocorreu com a China até a Guerra do Ópio (1839-1842). No entanto, como ficou claro em ambos os casos, o poderio militar do ocidente impede posturas “exclusionistas” o que fica ainda mais difícil com o avanço das comunicações e transportes no século XX. A segunda postura adotada frente o avanço ocidental é o “Kemalismo[20], que consiste em “abraçar tanto a modernização quanto a ocidentalização” e parte da idéia de que modernizar é preciso e a melhor forma para tanto é abandonar a cultura autóctone. Por fim, a terceira postura anotada por Huntington é o “reformismo”, que consiste em tentar combinar a modernização com a preservação dos valores, práticas e instituições centrais da cultura autóctone dessa sociedade[21].

Porém, Huntington identifica um padrão geral entre essas sociedades, mostrando que, no princípio, modernização e ocidentalização caminham juntas. Mas, com o aumento do ritmo de modernização, a taxa de ocidentalização diminui e a cultura autóctone passa por um renascimento. A modernização adicional altera o equilíbrio de poder civilizacional entre o ocidente e a sociedade não-ocidental, revigora o poder e a autoconfiança dessas sociedades e reforça o compromisso com a cultura autóctone.

 

“Assim sendo, nas fases iniciais da mudança, a ocidentalização promove a modernização. Nas fases posteriores, a modernização promove a desocidentalização e o ressurgimento da cultua autóctone de duas maneiras. No nível societário, a modernização amplia o poder econômico, militar e política da sociedade como um todo e incentiva as pessoas dessa sociedade a terem confiança na sua cultura e se tornarem culturalmente afirmativas. No nível individual, a modernização gera sentimentos de alienação e anomia, à medida que laços tradicionais e relações sociais são rompidos, e conduz a crises de identidade, para as quais a religião dá uma resposta.[22]

 

As figuras 1 e 2 a seguir buscam ilustra o pensamento de Huntington esboçado acima.

Figura 1: Reações Alternativas ao Impacto do Ocidente

  • Ponto A – Rejeicionismo
  • Ponto A-B – Kemalismo
  • Ponto C – Reformismo
  • Ponto A-D – processo de ocidentalização cultural sem a modernização técnica
  • Ponto A-E – existência de um padrão generalizado de modernização e reação nas sociedades não-ocidentais ao Ocidente.

Fonte: HUNTINGTON (1997), p. 90.

 

Figura 2: Modernização e Ressurgimento Cultural

Fonte: HUNTINGTON (1997), p. 91.

Dessa forma, para Huntington, além do Japão, Singapura, Taiwan, Arábia Saudita e em menor grau, o Irã, se tornaram modernos sem se tornarem ocidentais. Portanto, modernização não quer dizer ocidentalização, os obstáculos à modernização são insignificantes quando comparados aos obstáculos à ocidentalização. A modernização estaria, assim, reforçando as demais culturas e reduzindo o poder relativo do ocidente. Segundo o autor, “de modos fundamentais, o mundo está ficando mais moderno e menos ocidental.[23]

Assim, nosso próximo passo, será analisar os padrões de modernização verificados na realidade a fim de verificar em que medida a análise de Huntington se aplica ou não.

Padrões de Modernização:

entre o reforço da identidade e a manutenção da desigualdade.

 

 

Nesta parte do trabalho, será analisado o significado do desafio de ser moderno para países com modernização tardia. Para tanto, partiremos da definição tipológica dos padrões de modernização feita por Black, para posteriormente analisarmos dois casos específicos de modernização não original, o Brasil e o Japão.

Carlos Rangel, ao fazer sua análise da relação entre o Terceiro Mundo e o Ocidente mostra a necessidade que estes países têm em se modernizarem para que possam superar sua condição de subdesenvolvimento social, econômico e político. No entanto, o autor não deixa de mostrar o duplo caráter que tem esse processo, implicando em mudanças profundas do que poderia ser visto a primeira vista.

 

“A modernização a qual aspiram (os países atrasados) pressupõe que admitam uma transformação profunda de suas sociedade, isto é, no sentido do essencial: a introdução da racionalidade econômica, a adoção de instituições modernas acompanhada da vontade de aprender a respeitá-las, a se submeter às leis e a sujeitar-se a uma certa disciplina social.[24]

 

Portanto, ao contrário do que tenta provar Huntington, a modernização implica em mudanças culturais profundas nas sociedades, em termos de conduta intelectual e social, a questão a ser discutida adiante é até que ponto há espaço para a manutenção de uma identidade não ocidentalizada.

Black, a partir de cinco critérios comparativos busca definir padrões modernizantes para as diversas partes do globo. Os critérios usados por Black são: (1) se a transferência de poder político dos líderes tradicionais para os modernistas teve lugar antes ou depois do que em outras sociedades; (2) se o desafio político da modernização adveio de fontes externas ou internas à sociedade; (3) se houve manutenção ou não das terras e povos na Idade Média; (4) se a sociedade inicialmente se constituía em uma sociedade autônoma ou um domínio colonial; (5) se as instituições desenvolvidas ou subdesenvolvidas precisariam ser substituídas por instituições importadas de outras sociedades[25].

A partir desses critérios Black identifica sete padrões de modernização, analisa-los pormenorizadamente foge do escopo deste trabalho, por isso iremos nos concentrar em dois padrões que nos ajudaram a fundamentar a continuidade de nosso estudo.

Dessa forma, o referido autor descreve um padrão comum á toda América Latina, ou seja, as ramificações coloniais de sociedade que não fizeram parte do padrão original de modernização (Portugal e Espanha). Nessas sociedades não há firmação de lideranças modernistas no período imediatamente pós-independência, assim, elas se desenvolvem de forma neocolonial que tende a perpetuar a vida tradicional. Apesar de seguirem o modelo liberal europeu com uma retórica que se assemelhava a da Revolução Francesa, não há nestes países instituições política que se assemelhem às européias, capazes de garantir maior participação popular na vida política. A consolidação de lideranças modernistas só vem a ocorrer em meados do século XX, quando a maioria destas sociedades passa rápidas transformações econômicas.

O outro padrão de modernização de Black que nos interessa é o padrão que inclui Rússia Japão, China, Irã, Turquia, entre outros. Nesse caso, a modernização ocorreu sem uma direta intervenção externa, mas sob uma forte influência indireta dos processos anteriores. Portanto, a modernização ocorreu por iniciativa própria e com significativa continuidade populacional e territorial. Os governos tradicionais dessas sociedades se viram diante de um duplo desafio: externamente corria-se o risco da subjugação por países avançados do oriente enquanto internamente o aumento dos adeptos às idéias modernas podia significar perda de autoridade por esses governos. Assim, os programas de modernização desenvolvidos por estas sociedades tinham um caráter bastante restrito e defensivo com intenções claras de fortalecimento externo e interno contra mudanças mais drásticas e pela preservação de tradições. Diante da conclusão da inevitabilidade da modernização pela ameaça de desastres militares ou da percepção geral das vantagens da modernidade a opção dos governantes foi tentar um modernização econômica acelerada a fim de sanar tais demandas, evitando a perda de legitimidade.

Analisaremos, agora, em mais detalhas, esses padrões de modernização por meio de dois exemplos bastante característicos, o Brasil e o Japão, para que fique mais claro como a modernização econômica foi a forma encontrado pelos governos de diversos países de modernização tardia para evitar mudanças políticas e sociais mais profundas.

 

O Caso Brasileiro

 

“A economia brasileira constitui exemplo interessante de quanto um país pode avançar no processo de industrialização sem abandonar suas principais características de subdesenvolvimento: grande disparidade na produtividade entre áreas rurais e urbanas, uma grande maioria da população vivendo em um nível de subsistência fisiológica, massas crescentes de pessoas subempregadas nas zonas urbanas, etc.[26]

 

Dessa maneira, Celso Furtado deixa claro como é possível que a modernização econômica não seja estendida para outros campos, como o político e o social. O processo de modernização brasileiro é característico por excluir do processo a grande maioria da população e por ser altamente dependente do governo, principalmente de governos autoritários para garantir estabilidade social.

 

“A característica mais significativa do modelo brasileiro é a sua tendência estrutural para excluir a massa da população dos benefícios da acumulação e do progresso técnico. Assim, a durabilidade do sistema baseia-se grandemente na capacidade dos grupos dirigentes em suprimir todas as formas de oposição que seu caráter anti-social tende a estimular.[27]

 

Do mesmo modo, Jessé Souza demonstra a “seletividade” do processo modernizador brasileiro indicando três instituições fundamentais da modernidade: o Estado, o mercado e a esfera pública[28].

A ruptura fundamental da sociedade brasileira teria ocorrido, segundo Souza, em 1808, com a abertura dos portos (primeiro passo para a constituição de um mercado capitalista) e a vinda da família real (primeiro passo para a constituição de um aparelho de Estado tendencialmente racional e interessado em atender os interesses da população local). Entretanto, como afirma Souza, “valores não se transplantam como a roupa do corpo”, mas “dependem de condições propícias de institucionalização para adquirirem eficácia social[29]”.

É apenas com o fim da escravidão e o crescimento da urbanização que ocorre uma revolução valorativa em que o “individualismo moral ocidental” vence o personalismo e a modernidade passa a ser o “elemento galvanizador da sociedade como um todo em todas as suas esferas[30]”. Tal mudança nos valores é pressuposto da constituição de instituições como o mercado baseado em liberdades econômicas protegidas e a democracia moderna baseada na proteção dos direitos subjetivos intransferíveis. Vale ressaltar que isso não significa que a sociedade efetivamente se moderniza em todas as suas esferas, mas somente que o discurso modernizador passa a ser o único legítimo capaz de unir as vontades dos indivíduos.

Desse modo, Jessé Souza parte do conceito de Wanderley Guilherme dos Santos de “cidadania regulada[31]”, em que as raízes da cidadania não estão inscritas em um código de valores políticos, mas em um sistema de estratificação ocupacional, assim, a extensão da cidadania se daria pela sua função na sociedade e não por ser membro da comunidade, para construir sua tese sobre a seletividade da modernização brasileira, na qual ocorreria uma inversão da tendência equalizante que foi predominante nos países centrais.

Assim, esse processo que é em grande medida exterior e artificial para a sociedade brasileira traz consigo marcas profundas no padrão de dominação social e na configuração da sociedade, em que a desigualdade passa a ser vista como resultado natural, muitas vezes como fracasso próprio. Acabamos por nos configurar como um país moderno e não moderno, ocidental e não ocidental.

 

“O Brasil não é um país moderno e ocidental no sentido comparativo de afluência material e desenvolvimento das instituições democráticas. Mas o Brasil é certamente um país moderno no sentido ocidental do termo, se levarmos em conta que os valores modernos e ocidentais são os únicos aceitos como legítimos. Esses são os nossos valores dominantes e é isso que explica o fascínio do tema da modernização entre nós.[32]

 

O Estado e o mercado são vistos por governo e sociedade como os únicos pontos da pauta de discussão política. A terceira instituição fundamental das sociedades modernas, a esfera pública, ironicamente, não é objeto de discussão pública. “A concessão de canais de rádio, televisão, por exemplo, é vista como matéria de negociação política e de barganha partidária.[33]

Seja pelo seu caráter incompleto em relação ao modelo original, seja pela exclusão de grande parte da população, o modelo de modernização econômica do Brasil está longe de seguir à risca o padrão europeu ocidental tradicional. Ao mesmo tempo em que transitamos entre as maiores economias mundiais temos a maior desigualdade social do mundo e um regime democrático frágil e extremamente recente. A possível tendência ocidental à democratização política e à diminuição de desigualdades não se verificam no Brasil, os valores e as instituições necessária para o bom funcionamento do capitalismo (Estado e mercado) são os únicos copiados quase que integralmente dos padrões ocidentais.

 

O Caso Japonês

Antes de partirmos para as considerações finas deste trabalho vale a pena fazer uma breve análise do desenvolvimento da modernização econômica japonesa. Assim como no Brasil, o processo modernizador japonês sofreu uma forte influência externa. Apesar de não ter sido colônia européia, o Japão passava pela ameaça de ser submetido ao domínio colonial ao mesmo tempo em que crescia a pressão interna por mudanças modernizantes.

A especificidade da modernização japonesa, como já foi dito acima, foi o fato de a condução do processo ter ficado nas mãos de uma elite oligárquica que provocou uma revolução “de cima para baixo”. A Revolução Meiji, como ficou conhecida, após a derrubada do regime Tokugawa em 1868 inicia um processo de acelerada modernização econômica em ritmo muito mais intenso do que na Europa. O regime absolutista que se instaura a partir de então marca o início da preponderância das relações capitalistas contra as precedentes feudais e se baseava no equilíbrio entre a nobreza proprietária de terras e a burguesia[34], ou seja, como já havia sido exposto acima, o desenvolvimento do capitalismo se dá ao lado do fortalecimento de um regime autocrático.

Ao lado de um intenso processo de modernização econômica e administrativa há uma tentativa de fortalecimento dos símbolos tradicionais imperiais em torno dos quais girava o foco da nova identidade nacional. Assim, o controle social era efetuado pelo programa educacional e pela propagação de valores nacionais a fim de se criar um consenso em torno de tais símbolos tradicionais[35].

Assim como no modelo brasileiro, o caso japonês se mostra fortemente dependente do Estado. Desde forma como eram organizados os tributos, capazes de gerar uma “acumulação primitiva”, até subsídios à indústria privada e a doação de bônus públicos a ex-guerreiros que se transformariam em capital bancário, passando pela construção de empresas estatais, principalmente na indústria bélica, o capitalismo japonês certamente não teria obtido o mesmo êxito e a mesma velocidade de crescimento, aliado a um forte controle social, sem a forte intervenção estatal[36].

Segundo Okabe, o salto qualitativo fundamental do capitalismo japonês se dá com a vitória na Guerra Sino-Japonesa (1895-6) e o fim dos tratados de comércio com o ocidente, que permitiram o fornecimento de matérias-primas industriais, mas, sobretudo, com o Código Civil de 1898 que reconhece categoricamente como direito fundamental a propriedade privada, marcando uma profunda mudança cultural no Japão[37].

O resultado deste desenvolvimento vindo de cima foi o estabelecimento do capitalismo sem que se tenha liquidado, ou tendo reforçado as formas feudais de exploração ou as relações de poder feudais, sobretudo na agricultura. Os focos de luta interna passaram a se centrar no problema de acesso ao centro político, nas possibilidades de redefinição da comunidade nacional e seus símbolos.

Em ambos os casos, é evidente o caso de uma “modernização cindida” como define Eisenstadt, em que a seletividade dos aspectos adotados por cada sociedade depende de uma gama complexa de fatores circunstanciais e dos arranjos sociais de cada país.

 

“As relações entre desenvolvimento econômico e político mostraram-se complicadas e paradoxais. Contrariamente à hipótese mais ou menos intuitiva frequentemente existente na literatura antiga, de que essas duas características são sempre concomitantes e se reforçam uma há outra, há provas mais recentes de que, pelo menos em estágios mais adiantados da modernização, elas podem às vezes opor-se uma à outra. As contradições principais podem ser vistas no fato de a crescente modernização política criar exigências e pressões para a obtenção de vários benefícios, que podem solapar o desenvolvimento econômico, enquanto o rápido desenvolvimento econômico pode acentuar o poder de vários grupos tradicionais ou neotradicionais que podem opor-se ao quadro político moderno.[38]

 

Portanto, em termos políticos econômicos e sociais as sociedades que se modernizaram tardiamente tendem a se diferenciarem das pioneiras na modernização. Resta analisar, agora, como esse processo se dá em termos intelectuais e psicológicos, tendo em que vista que as mudanças nestes aspectos são essenciais para qualquer outro tipo de alteração mais profunda na sociedade. Faremos isso através de uma crítica das teorias da modernização, no nosso entendimento, as verdadeiras responsáveis pela hegemonia ocidental no mundo moderno.

As Teorias da Modernização e a Hegemonia Ocidental

 

Como já foi dito anteriormente, Black afirma que a atividade humana deve ser discutida em termos de cinco aspectos centrais: o intelectual, o político, o econômico, o social e o psicológico. Por isso, para termos uma real noção dos impactos da modernização devemos fazê-lo abrangendo todos estes aspectos. Tal análise será feita através de uma crítica às chamadas teorias da modernização.

Segundo mostra Immanuel Wallerstein, a idéia de “modernização” tem inicio com os processos de mudança pós-Segunda Guerra Mundial e a mudança do eixo central do mundo que se desloca para fora da Europa, se tratando, assim, de uma tentativa dos intelectuais ocidentais em compensar esse fato. A questão central deixa, então, de ser biológica ou racial para ser meramente cultural, oferecendo, assim, esperança às sociedades atrasadas[39]. No entanto, como ficou claro na exposição acima, o ideário da modernização, sobretudo econômica, e a noção ocidental de progresso já estava presente no imaginário da maioria das sociedades que tinham qualquer tipo de relação com a Europa.

A teoria da modernização analisa a questão do desenvolvimento a partir de uma “reconstituição de um modelo abstrato”, atribuindo a um fenômeno singular uma capacidade de generalização que não condiz com os contrastantes sistemas econômicos que coexistem temporalmente, mas que possuem momentos históricos distintos. Celso Furtado, assim como Wallerstein, contesta o caráter isolado que a economia assume nesse argumento, sobretudo no que tange a sua falta de historicidade[40].

“Nós não vivemos em um mundo modernizado, mas em um mundo capitalista[41]”, assim, devemos entender a modernização como a expansão capitalista – extensiva para cobrir todo o globo e, intensiva via constante acumulação de capital – via constante pressão por mecanização do trabalho a fim de expandir a produção, e pela tendência de facilitar e otimizar a rápida resposta às mudanças do mercado mundial pela proletarização do trabalho e a comercialização da terra, dentro da lógica da busca incessante pelo máximo lucro[42]. Ou, resumidamente, como afirma Furtado, “o subdesenvolvimento é um aspecto do modo pelo qual o capitalismo… vem crescendo e se difundindo desde o seu surgimento.[43]

Portanto, aceitar a possibilidade ou a necessidade de modernização, mesmo que ela não se realize plenamente em todos os seus aspectos, implica na aceitação do Wallerstein chama de “geocultura”. Dois aspectos dessa geocultura são de fundamental importância, o primeiro é o liberalismo, que consiste na aceitação de que a forma organizacional do Sistema-Mundo Moderno é a mais racional e a única concebível para a sociedade mundial. Em segundo lugar, a geocultura inclui na aceitação do “cientificismo”, extremamente importante tanto para o desenvolvimento tecnológico, portanto, da acumulação de capital, quanto para uma aproximação acrítica das ciências sociais. Assim, a geocultura acabe por ser um item de extrema importância para a legitimação do Sistema-Mundo Moderno. Diante disso, fica claro que, em termos intelectuais e em termos psicológicos, a modernização econômica implica e ao mesmo tempo depende da ocidentalização destes aspectos do ser humano, justamente os aspectos, ou seja, a cultura, que Huntington tenta enfatizar como excluídos do processo de modernização.

Dessa forma, pode-se afirmar que a modernização econômica não é necessariamente sinônimo de ocidentalização, na medida em que não implica em mudanças diretas em todas os termos da atividade humana. No entanto, não há dúvidas que a modernização econômica implica em aceitação (mesmo que tácito) e, portanto, no fortalecimento da hegemonia ocidental[44]. É correto afirmar que dentro deste quadro de mudanças psicológicas e intelectuais existe espaço para a manutenção de certos valores tradicionais culturais, como foi o caso japonês que analisamos acima, desde que tais valores não entrem em conflito com as idéias centrais pelas quais o capitalismo se expande e se fortalece como o individualismo moral, o racionalismo, a defesa da propriedade privada, etc.

Através de uma ideologia modernizante há uma disseminação das qualidades da modernidade sem se considerar seus aspectos históricos e suas contradições, o que contribui para a consolidação da hegemonia ocidental, ocultando os problemas políticos, sociais e culturais da implantação da modernidade em sociedades de forma artificial e muitas vezes autoritária. Assim, cabe na próxima sessão fazer uma analise de quais possibilidades emancipatórias estão dispostas dentre deste quadro de hegemonia da modernidade ocidental.

 

Modernidade e Emancipação

 

Diante do diagnóstico esboçado acima fica evidente a necessidade de se buscar uma saída que nos permita construir uma outra modernidade que seja capaz de abrigar os avanços tecnológicos e científicos do mundo atual, mas que ao mesmo tempo dê espaço para aceitação da diversidade e da individualidade do ser humano.

Wallerstein mostra como o entendimento de que atualmente existem muitas civilizações (como defende Huntington) ou se existe apenas uma civilização mundial revela-se em um grande dilema daqueles que se propõe resistentes à economia-mundo capitalista, pois se, por um lado, aceitar a existência uma civilização, no singular é reconhecer a inferioridade de uma cultura perante a outra, por outro, rejeitando-se essa civilização em nome de uma civilização, no plural corre-se o risco de cair em arcaísmos, que não levariam a nada[45]. A saída para tal dilema está na apreensão das diversas culturas dentro de uma dialética entre o universal e o particular, que permita a diversidade e a unidade sem que sejam excludentes ou opostas, em que a diversidade do particular leva a uma unidade intercultural dentro do universal.

Hegel projeta a razão a priori como um poder que não apenas diferencia e fragmenta o sistema das relações humanas, mas que também o reunifica. Assim, o “filho racional da modernidade” traz dentro de si seu senhor, ao mesmo tempo em que é seu próprio servo. Hegel também identifica o espírito da modernidade na subjetividade, o que é explicitado pela Reforma, pelo Iluminismo e pela Revolução Francesa[46]. Ao exportar a cultura moderna ocidental, o ocidente está, também exportando a reflexividade moderna que é o resultado dialético entre a subjetividade e a racionalidade identificadas por Hegel como característico dos novos tempo.

“A modernidade é universalizante não apenas me termos de seu impacto global, mas em termos do conhecimento reflexivo fundamental a seu caráter dinâmico. [...] A mudança radical da tradição intrínseca para a reflexividade da modernidade cria uma ruptura… que repousa sobre o compromisso cultural (e o poder). [47]

 

Habermas mostra como a modernidade tem de “extrair de si mesma a sua normatividade[48]”, ou seja precisa se auto-certificar. O caminho para tal auto-certificação é a racionalidade e seu meio para tanto é a argumentação discursiva, o que permite a supressão de diferenças culturais. Portanto, a radicalização do princípio da reflexividade permite a plena realização da dialética entre o universal e o particular. A partir do momento em que as diferentes culturas se aceitam como incompletas e assumem o compromisso da dúvida como seu caráter central abre-se um espaço para uma construção coletiva intersubjetiva com forte potencial emancipatório. Seguindo, portanto, na contramão do “choque de civilizações” de Samuel Huntington.

 

Conclusão

 

O avanço da modernidade e de suas aspirações filosóficas, por meio do processo de modernização econômica e política, é um processo irreversível. Como ficou claro no decorrer deste trabalho não existe nenhuma garantia de que a modernização econômica irá se traduzir em mais democracia, maior igualdade social, segurança de mais direitos, nem sequer está posta a possibilidade de cópia exata do modelo europeu ou norte americano de modernização, isso seria ignorar a história.

Dessa forma há que se operar uma crítica às chamadas teorias da modernização, que buscam de forma ideológica exportar um ideário ocidental de mundo moderno que garante a manutenção da hegemonia do ocidente sobre todo o planeta. Huntington, ao afirmar a existência de uma diversidade de civilizações, se concentra em aspectos culturais de difícil mutação em curtos períodos de tempo, como a religião ou o idioma e acaba por não perceber como os valores ocidentais da valorização da ciência, da economia de mercado e da democracia burguesa estão sendo exportados para todo o mundo em ritmo cada vez mais acelerado.

Porém, a perspectiva crítica que permeia este trabalho é capaz de perceber que o processo de expansão da modernidade ocidental não é simplesmente destrutivo em si. Além dos óbvios avanços técnicos e científicos que o mundo moderno nos oferece, a valorização do diálogo racional e do respeito à subjetividade que acompanham esse processo abrem uma brecha emancipatória inédita na história da humanidade.

Por meio da aceitação de que todo conjunto de valores culturais é incompleto fica aberto um espaço para o diálogo intercultural. A permanente valorização da dúvida e da reflexividade com a constante aceitação de que se pode estar errado deve estar sempre em pauta para a construção de um mundo livre da opressão e da dominação cultural. Dessa forma, a radicalização dos processos democráticos e a construção de espaços que permitam diálogos intersubjetivos parece ser a única saída emancipatória para a humanidade.

Bibliografia

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[1] EISENSTADT (1969), p.11.

[2] BLACK (1971).

[3] Idem.

[4] Idem, p.16.

[5] EISENSTADT, (1969).

[6] BLACK, (1971).

[7] Idem, p.35.

[8] Idem.

[9] Idem, pp. 73-93.

[10] EISENSTADT (1969)

[11] Idem, p. 100.

[12] Idem.

[13] Idem, pp. 99-110.

[14] MOORE JUNIOR (1983).

[15] HUNTINGTON (1997), p. 78.

[16] Idem.

[17] Idem, pp. 81-86. Nossas discordâncias em relação a essa visão da cultura ocidental serão apresentadas mais adiante ao longo do trabalho.

[18] Idem, p. 86.

[19] O processo de modernização japonês será fruto de uma análise mais aprofundada adiante.

[20] Kemalismo é uma referência ao no me de Mustafá Kemal Ataturk que “criou uma nova Turquia das ruínas do Império Otomano e desencadeou um esforço maciço tanto pra ocidentalízá-la como para modernizá-la .” HUNTINGTON (1997), p. 88.

[21] Idem, p. 86-90.

[22] Idem, p. 91.

[23] Idem, p. 94.

[24] RANGEL (1984).

[25] BLACK (1971), pp. 99-109

[26] FURTADO (1974), p. 95.

[27] Idem, p. 109.

[28] SOUZA (2000).

[29] Idem, p. 253.

[30] Idem, p. 255.

[31] SANTOS (1998), apud. SOUZA (2000).

[32] SOUZA (2000).

[33] Idem, p. 269.

[34] OKABE (1974).

[35] EISENSTADT (1969).

[36] OKABE (1974).

[37] Idem.

[38] EINSENSTADT (1969), p. 205.

[39] WALLERSTEIN (1983).

[40] FURTADO (1961).

[41] WALLERSTEIN (1983).

[42] Idem.

[43] FURTADO (1974).

[44] Usamos hegemonia aqui no sentido Gramsciano do termo para quem hegemonia é a “capacidade de unificar através da ideologia e de conservar unido um bloco social que não é homogêneo, mas sim marcado por profundas contradições de classe”. GRUPPI, Luciano (1978), p. 70.

[45] WALLERSTEIN (1991).

[46] HABERMAS (2002).

[47] GUIDDENS (), p. 174.

[48] HABERMAS (2002).

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One Response to “Modernização é sinônimo de ocidentalização?”

  1. 1 leonice de souza mello

    adooooorei este trabalhoi yte,m tudo o q eu preciso


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