A Era dos Impérios – História Econômica do Imperialismo

08mar08

A Era dos Impérios – História Econômica do Imperialismo

Julho, 2005

Felipe Teixeira Gonçalves

Introdução

 

A palavra Imperialismo já foi utilizada de várias maneiras diferentes ao longo da história. No presente trabalho, trataremos do imperialismo como um fenômeno histórico ocorrido no período entre 1880 e 1914. Nesse período o mundo, com exceção da Europa e da América, foi dividido entre as potências imperiais: Grã-Bretanha, França, Alemanha, Holanda, Bélgica, Itália, EUA, Japão e Rússia. Mais de um quarto do mundo estava sob o controle direto, ou como área de influência de pouco mais de uma dúzia de países.

O fenômeno do Imperialismo possui diversas dimensões, entre elas a econômica, a política, a cultural, a ideológica e a psicológica. Pretendemos fazer uma análise da história e da teoria econômica do Imperialismo, de acordo com a tradição marxista que se ocupou do tema. Também procuraremos explicitar as principais contribuições dos principais pensadores que deram uma contribuição inigualável à compreensão do modo de funcionamento da economia capitalista a partir do Imperialismo.

Portanto, adotaremos o Imperialismo como conceito da Economia Política, considerado-o, portanto, “como uma séria de estruturas e relações políticas e econômicas que constituem um marco doutrinal ou um modelo que nos ajuda a compreender o que os homens denominam impérios1”.

Para termos um panorama mais geral e mais histórico, retomamos os aspectos histórico-econômicos importantes que servem para explicar porque ocorreu o Imperialismo2.

Em primeiro lugar, temos a criação, pela primeira vez de uma verdadeira economia mundial. O capitalismo atinge até as regiões mais remotas do planeta e qualquer espaço do mundo passou a ser de interesse para as potências capitalistas.

Em segundo lugar, o acesso às fontes de matéria prima – como alumínio, cobre, estanho, petróleo, borracha, etc. – passou a ser cada vez mais importante após a chamada Segunda Revolução Industrial.

Outro fator importante, nesta época, foi o surgimento do consumo em massa de alimentos nas grandes potências. O consumo de alimentos como cereais, chá, café, açúcar e cacau foi muito maior do que em qualquer outra época. Como esses alimentos eram provenientes das colônias, foram garantidos grandes lucros a quem as controlava.

Todos esses aspectos levaram a uma competição no plano internacional entre os países industrializados, dando origem, assim ao Imperialismo.

Outro aspecto importante a ser ressaltado é o de que se viu, como nunca antes uma convergência muito grande entre economia e política, ou seja, o Estado defendendo diretamente os interesses das empresas.

 

 

Desenvolvimento Econômico do Imperialismo

 

De acordo com Lênin, o Imperialismo não passa de uma das fases do capitalismo: a sua fase monopolista. Seria a tendência do capitalismo a eliminar a concorrência em direção ao monopólio, descrita por Marx, que teria levado ao Imperialismo. O que pretendemos aqui é explicitar os mecanismos econômicos que explicam como uma economia monopólica leva ao Imperialismo.

Para tanto, construiremos um modelo simplificado do modo de funcionamento de um sistema de indústria capitalista com alto grau de monopólio3.

Neste modelo, haveria uma grande diferença entre custo e preço, o que significaria uma alta taxa de lucro e salários muito baixos.

Em caso de queda da demanda, os monopolistas tenderiam a reduzir a produção e não os preços, de modo a maximizar seus lucros.

Isso levaria a uma situação permanente em que a capacidade produtiva, ou seja, as fábricas e os equipamentos, ficará subutilizada, criando uma grande capacidade excedente. Além disso, também haverá um grande aumento no exército industrial de reserva.

Em quarto lugar, tenderia a haver uma redução na taxa de novos investimentos, pois os monopólios já estabelecidos relutariam em expandir a capacidade produtiva e não haveria novas firmas entrando nessas áreas. Isto levaria a uma grande contradição. Por um lado, a concentração da riqueza provinda dos monopólios tende a aumentar a vontade de investir. Por outro lado, as oportunidades de investimentos são reduzidas elo próprio monopólio.

Essa taxa decrescente de investimento levaria a um estreitamento do mercado da indústria pesada, enquanto o desemprego em massa diminuiria o consumo. Assim, o capitalismo monopolista levaria a uma queda dos mercados e uma deficiência crônica da demanda, o que agravaria ainda mias o problema da capacidade excedente e do desemprego. A indústria pesada teria seus mercados retraídos.

Finalmente a tendência seria o congelamento da configuração existente de cada ramo da indústria.

Porém, há uma maneira de resolver a contradição: a exportação do capital. Há uma busca intensificada por saídas externas para o investimento, um impulso por penetrar ou anexar esferas que se apresentam em relação à metrópole da indústria monopolista como colônias. Isso evita que o capitalismo monopolista chegue às condições acima acentuadas. É a concorrência entre os diversos monopólios nacionais das potências que causam o Imperialismo.

O monopólio traz, como conseqüência para desenvolvimento do sistema econômico, a mudança do foco de interesse de considerações de produção e custos produtivos para outras de supremacia financeira e comercial. Os ganhos nas manobras destinadas a melhorar a posição estratégica própria passam a ser mais atraentes do que quaisquer outros lucros de uma iniciativa na esfera da produção. O sistema industrial fica dependendo da concorrência monopolista.

Esse modelo de explicação econômico serve para entendermos um pouco melhor quais são as reais conseqüências derivadas de uma economia monopolista. Porém não explica em que consistiu o fenômeno do imperialismo. Para isso, o melhor caminho é recorrer aos principais autores marxistas que escreveram sobre o Imperialismo e são responsáveis pelas principais obras para se entender o funcionamento do capitalismo a partir de sua etapa monopolista4.

 

 

Rudolf Hilferding

 

Em sua obra “O Capital Financeiro”, publicada em 1910, Hilferding explicitou a maioria dos pontos ressaltados por Bukharin e Lênin. Contudo ele não colocou esses argumentos em um conceito definido de Imperialismo.

Sua tese é muito simples. A competição tende a criar monopólios e estes podem controlar outras firmas pequenas com quem negociam. Portanto, há uma tendência à criação de grandes blocos de capital organizados de forma hierárquica. Os capitais industrial, comercial e bancário estão interligados, na forma de capital financeiro, nesses blocos, que são dominados por bancos. Como os monopólios não podem controlar ainda o mercado mundial, eles precisam da proteção de tarifas e eles, então, procuram estender seus mercados protegidos o máximo possível. Daí o apoio do capital financeiro às políticas expansionistas.

Ele apresenta a criação das empresas de ações compartilhadas (joint stock companies) como uma das principais modificações na função do capitalista. Essas empresas permitem uma grande concentração de capital, juntando vários pequenos capitais em um só. Isso permite que donos de grandes blocos de capital usem esse tipo de organização para controlar vários pequenos acionistas. Isso permite uma enorme concentração de poder econômico e de produção. Disso deriva uma tendência ao monopólio.

Os atores centrais no crescimento dos monopólios eram os bancos, pois eles centralizavam o capital e podiam oferece-lo como crédito, mantendo uma pequena reserva monetária. Os bancos têm uma grande interesse em promover a centralização do capital, pois isso reduz o risco de falência das empresas a quem eles emprestaram dinheiro. Ele faz uma distinção entre capital financeiro (finance capital) e capital bancário (financial capital). O capital financeiro é o produto da fusão entre o capital industrial e o capital bancário.

Hilferding dá uma grande ênfase no papel das tarifas protecionistas. Estas passaram de uma forma de proteção das industrias infantes contra a conquista do mercado interno por industrias estrangeiras para um meio de conquista de mercados externos pela industria nacional. Isso porque as tarifas definem um território nacional maior, ou seja, os mercados das colônias se tornam “mercados internos” das potências, dando-lhes privilégios no comércio internacional.

É a partir da exportação de capital que ele conecta as idéias anteriores. Para ele, o movimento do capital procurando a maior taxa de retorno é normal no capitalismo. Contudo, a exportação de capital tem características específicas, como a tentativa de superar as tarifas protecionistas dos outros países, produzindo dentro do território em que a tarifa opera. O importante, contudo, é que as “joint stock companies” permitem que subsidiárias se estabeleçam em outros países sem a emigração do próprio capitalista. A ligação entre os bancos e as industrias permitem acesso fácil ao dinheiro necessário para isso e o grande tamanho das empresas lhes davam as vantagens necessárias para construir instalações novas em outros lugares.

 

 

Nicolai Bukharin

 

Foi Bukharin que – em seu livro “O Imperialismo e a Economia Mundial” escrito em 1915, mas só publicado depois da Revolução Russa – colocou as idéias já existentes de Marx, Hobson, Rosa Luxemburgo e Hilferding em uma teoria completa e coerente sobre o Imperialismo.

Onde Hilferding via apenas um processo, a centralização do capital, Bukharin vê dois: a internacionalização e a nacionalização do capital. De um lado havia o crescimento da interdependência internacional da economia mundial e, de outro, a sua divisão em blocos nacionais. A contradição entre essas duas tendências levaria o sistema à guerra e ao colapso.

O comércio internacional, para ele, é apenas uma versão da divisão social do trabalho assim como a troca de bens entre diferentes empresas. Ele cria uma relação social de produção numa escala mundial. O crescimento da divisão social do trabalho e a crescente internacionalização do capital são partes integrantes da exportação de capital. Esta estabelece relações de produção não só entre unidades produtivas, mas também entre os trabalhadores e capitalistas dos diferentes países.

Ele também aponta a tendência ao monopólio como é explicitada por Hilferding, porém ele explicita o motivo pelo qual o monopólio se estabeleça em bases nacionais. Isso ocorre porque é muito mais fácil superar a competição em escala nacional do que em escala mundial. Além disso, as diferenças existentes de estrutura econômica e de custos de produção tornam acordos desvantajosos para os grupos nacionais avançados. Outro motivo é que os laços de unidade com o Estado e suas fronteiras são, em si, um monopólio sempre crescente que garante lucros adicionais.

Um ponto essencial para a teoria de Bukharin é a idéia de que os monopólios se organizam na forma de cartéis. Os cartéis são estruturas com propensão a se quebrar em dois casos. Se a força competitiva dos membros for desigual, o mais forte pode ter mais ganhos se sair do cartel do que se continuar nele. Por outro lado, se as forças relativas dos membros mudarem, o acordo da divisão do mercado pode não ser mais apropriado. Esses fatores são especialmente fortes no nível internacional, devido ao desenvolvimento desigual das nações.

Como a cartelização e a formação de monopólios prometem altos lucros e uma grande vantagem competitiva no mercado mundial, há um grande incentivo para as empresas capitalistas se associarem em uma base nacional, que garante a satisfação da divisão do mercado entre os membros do cartel. A tendência ao monopólio não significaria uma eliminação da competição, mas uma mudança na sua forma. Como ela foi praticamente eliminada no nível nacional, ela se mostra agora como uma rivalidade política e militar entre “trustes capitalistas estatais”.

 

 

Vladimir Ilych Lênin

 

O texto “Imperialismo, Fase Superior do Capitalismo” de Lênin é a obra marxista mais conhecida sobre o Imperialismo. Ele é posterior ao de Bukharin, apesar de ter sido publicado antes. O texto de Lênin é um panfleto destinado a servir de base para a ação política. Portanto, ele apenas organiza e expõe a análise já realizada por outros autores, com pouca contribuição original. O que Lênin pretendia era fazer uma oposição ao Kautsky, que, segundo ele, estava levando a Segunda Internacional para uma direção totalmente equivocada.

Ele evidencia as principais tendências do capitalismo na época em que ele estava escrevendo. São elas:

  • A concentração da produção e do capital se desenvolveu a tal ponto que criou monopólios que desempenhavam um papel central na economia.

  • A fusão do capital bancário com o capital industrial, criando o capital financeiro e uma oligarquia financeira.

  • A exportação de capital adquire uma importância central.

  • A formação de blocos capitalistas monopolistas internacionais que dividem o mundo entre si.

  • A divisão territorial do mundo entre as maiores potências capitalistas.

  • A competição entre as potências levaria inevitavelmente à guerra.

  • Esta seria a última fase do capitalismo, que logo seria superado.

O principal disso tudo é sua descrição de duas principais tendências: por um lado, a exportação de capital levou a uma internacionalização da produção capitalista e a extensão de relações de produção capitalistas a todos os cantos do planeta, por outro lado, o poder se concentrou nas mãos de grandes blocos de capital financeiro e a riqueza foi canalizada para classes de rentistas parasitas.

Lênin também procurou explicar porque os trabalhadores apoiaram seus países com o começo da Primeira Guerra Mundial. Para ele, parte da classe trabalhadora se beneficiava com a posição de monopólio que seus patrões capitalistas possuíam no mercado mundial e isso explicava o apoio, que só ocorria nessa parte dos trabalhadores. Ele chamou essa categoria de trabalhadores de aristocracia operária.

Contudo um dos principais objetivos de Lênin era fazer uma crítica a Kautsky e ao Partido Social Democrata alemão. Para Kautsky, as políticas imperialistas expressavam o interesse do capital bancário e de certos grupos de monopólio, mas defendia que uma parte do capital industrial ainda tinha interesse na paz e no livre comércio. Portanto, ele acreditava que , com o apoio da classe operária, essa parte da burguesia poderia superar o imperialismo e o militarismo, garantindo a paz. Após a deflagração da Primeira Guerra, Kautsky elaborou a teoria do Ultra-Imperialismo, que seria a possibilidade de que as grandes potências pudessem fazer um acordo para explorar o mundo conjuntamente. Essa teoria poderia fortalecer ainda mais o apoio pela paz na classe dominante, pois eles enfrentariam ameaças provindas dos povos coloniais oprimidos e do seu próprio proletariado.

Para Lênin, assim como para Bukharin, a conexão entre desenvolvimento capitalista, imperialismo e guerra era a base central para sua defesa da luta pelo socialismo. É essa conexão que Lênin tenta demonstrar em seu texto, ou seja, a inevitabilidade da competição entre as potências capitalistas e o seu resultado lógico: a guerra.

 

 

Conclusão

Assim, temos um quadro geral do desenvolvimento histórico-econômico característico do fim do século XIX e começo do século XX: o Imperialismo.

Após a Grande Depressão de 1873, a economia capitalista entrou numa fase de crescente concentração do capital, com a criação de grandes monopólios ou cartéis. Para que estes não levem a uma nova depressão, se fez necessária a expansão territorial e a exportação de capital. Este capital adquiriu nova forma, com a fusão do capital bancário e do capital industrial, o capital financeiro. Esses cartéis tinham que se organizar em uma base nacional. Com isso os Estados das principais potências capitalistas entraram em um período de disputa política, militar e econômica, estabelecendo colônias na África e na Ásia, de modo a garantir seu poder e os interesses financeiros dos monopólios nacionais. Essa competição levou à primeira guerra de proporções mundiais da história, marcando de forma decisiva o futuro humanidade no século XX.

Bibliografia


BREWER, Anthony. Marxist Theories of Imperialism. London and New York, Routledge & Kegan Paul, 1980.

BROWN, Michael Barrat. La Teoría Económica del Imperialismo. Madrid, Alianza Editorial, 1975.

DOBB, Maurice. A Evolução do Capitalismo. Rio de Janeiro, Editora Guanabara, 1987.

HOBSBAWN, Eric J. A Era dos Impérios 1875-1914. Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1988.

LENIN, Vladimir I. El Imperialismo, Fase Superior del Capitalismo, in V. I. Lenin Obras Escogidas. Moscou, Instituto de Marxismo-Leninismo do CC do PCUS, 1960.

 

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22 Responses to “A Era dos Impérios – História Econômica do Imperialismo”

  1. 1 Gleiceanne

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