Análise do “Monumento à Catraca Invisível”

08mar08

Análise do “Monumento à Catraca Invisível”

Dezembro, 2006

Felipe Teixeira Gonçalves

Neste trabalho, faremos uma análise do “Monumento à Catraca Invisível1”. Trata-se de uma intervenção urbana, ou ação direta, de caráter artístico e político. Uma catraca foi colocada em cima de um pedestal no Largo do Arouche, na cidade de São Paulo. Embaixo foi colocada uma placa com a inscrição “Monumento à Catraca Invisível – Programa para Descatracalização da Própria Vida, Junho/2004”.

A intervenção foi realizada pelo coletivo Contra Filé. Foi realizada em junho de 2004 como parte do projeto Zona de Ação. Este projeto foi patrocinado pelo SESC e foi elaborado pelos coletivos A Revolução Não Será Televisionada, Bijari, Contra Filé e Cobaia. Participaram como convidados os coletivos Frente 3 de Fevereiro (em parceria com A Revolução Não Será Televisionada) e Grupo Arte Callejero (argentino), além dos acadêmicos Suely Rolnik, Brian Holmes e Peter Pal Pelbart. O objetivo era a criação de um espaço para a ação e a reflexão coletivas sobre a possibilidade de se construir uma vida pública. Cada coletivo ficou com uma zona da cidade (Sul, Oeste, Norte, Leste e Centro) para elaborar uma intervenção urbana e alguma atividade em uma unidade SESC da região. O Contra Filé ficou com a Zona Leste.

Dessa “imposição” do projeto, surgiu um paradoxo para o grupo: a necessidade de se criar uma intervenção em uma zona da cidade com a qual os integrantes do grupo não tinham muita relação. A partir desse incômodo, eles tiveram a idéia de trabalhar com as diversas “catracas”, visíveis e invisíveis, que delimitam e restringem a circulação dos cidadãos pela cidade. A idéia original era trabalhar com um “Programa para Descatracalização da Própria Vida”. Realizou-se uma “Assembléia Pública de Pensamento” no SESC Itaquera para se discutir com lideranças locais a idéia e pensar coletivamente a intervenção a ser realizada. Dessa discussão saiu a idéia do “Monumento à Catraca Invisível”. O objetivo da intervenção era promover uma reflexão nas pessoas a respeito das diversas formas de controle invisível às quais todos estão sujeitos cotidianamente.

A intervenção passou a ter uma grande repercussão a partir de uma matéria da Folha de São Paulo2 que noticiou a existência do Monumento. Outros jornalistas criticaram a ação. O impacto foi ampliado quando a Fuvest definiu o “Programa para Descatracalização da Própria Vida” como tema da redação da prova de português da segunda fase3. Houve um grande debate nos jornais e revistas sobre a pertinência de tal tema na prova. O Banco Itaú incorporou o assunto em uma de suas propagandas4. Por fim, movimentos sociais incorporaram a queima de catracas como um símbolo de sua luta5.

Este documento histórico nos permite refletir a respeito das contradições existentes nos mecanismos de controle da sociedade contemporânea. A revelação desses mecanismos, que explicitam a lógica opressora da sociedade contemporânea, apresenta uma certa urgência às pessoas que são suas vítimas. Essa urgência pode aparecer por meio de um fato que ganha a proporção pública de um evento, ou por uma experiência particular de um coletivo alerta para esse tipo de questões. Este foi o caso do Contra Filé. O paradoxo de ter que realizar uma intervenção na Zona Leste os fez refletir sobre os controles que permeiam a vida social. Os invisíveis separam a cidade em zonas de exclusão e de privilégio e reduzem a circulação dos cidadãos que não costumam freqüentar regiões diferentes da cidade. A contradição é que a cidade deveria ser um espaço público de convivência e de experiência coletiva dos cidadãos, sua concepção moderna reproduz justamente o oposto disso. Os visíveis se apresentam para qualquer um que tenha que ir à Zona Leste de São Paulo por meio do transporte público, pois necessariamente você terá que passar por um mecanismo de controle físico: a catraca de um ônibus, ou de um metrô.

Este elemento se apresentou como um símbolo que possui grande potencial de revelar essa urgência e essas contradições. A idéia de se buscar um símbolo tem a ver com o tipo de ação política escolhida por esses coletivos. Ao invés de entrar na antiga lógica de embate político tradicional, por meio de partidos que disputem o Estado e suas políticas, a intervenção urbana visa a criação de reflexões e questionamentos nas subjetividades das pessoas, se aproveitando não só do conteúdo político, mas também da arte e da comunicação de massa. Essa disputa se dá no plano simbólico e intersubjetivo e, por isso, há sempre a busca de um símbolo que possua um potencial de revelação das contradições da sociedade contemporânea.

A catraca pareceu ser o símbolo ideal, pois é uma invenção que visa restringir a passagem de pessoas para que passe apenas uma pessoa por vez. Pode ser usada para que haja apenas um sentido único de passagem, para se restringir a passagem de acordo com um critério que pode ser definido pelo seu dono, ou para se contar o número de pessoas que passam por ela. Elas começaram a serem usadas em parques europeus ainda em fins do século XIX6, mas sua invenção é creditada a Clarence Saunders, que as usou na primeira rede de mercearias em que as pessoas pegavam suas próprias mercadorias, o Piggly Wiggly7, criado por ele nos Estados Unidos. Seu primeiro grande uso como controlador da passagem das pessoas foi no Hampden Park em Glasgow, Escócia.

Com essa idéia inicial, o grupo então passou para a discussão sobre qual seria a melhor estratégia para permitir que o potencial de revelação das contradições contido neste símbolo se realizasse. O grupo levou a proposta do “Programa para a Descatracalização da Própria Vida” para ser discutido publicamente com lideranças locais da Zona Leste. Isso demonstra uma concepção de organização da ação política centrada na horizontalidade, na coletividade e na abertura para a contribuição de pessoas externas, o que vai de encontro às formas tradicionais de organização da sociedade, inclusive a organização política. Essa forma de agir já pode ser considerada, em si, transformadora.

Ao se definir qual seria a intervenção urbana, o processo de sua concretização é permeado pela incerteza e pelo risco. Não é possível saber previamente o que vai acontecer nem se haverá sucesso na tentativa inicial. De qualquer forma, o próprio processo de inscrição dessa idéia na realidade da cidade já possui uma potência reveladora, pois o processo fica aberto à interferência de outras pessoas, o que é a dinâmica própria do espaço público. No caso, o Contra Filé conseguiu realizar a intervenção sem nenhum imprevisto. Só isso já permitiria que o seu potencial se realizasse nas subjetividades das pessoas que passassem por ali.

Porém, o potencial ganha um alcance muito maior no momento em que a mídia divulga a ação. Como a comunicação é de massa, ela atinge muitas pessoas. A contradição revelada aqui é que a discussão passa a ter um caráter público, apesar de se dar em um meio extremamente contrário a essa lógica. O modo como o discurso de um jornalista criminaliza a ato, utilizando um termo geralmente associado a atos terroristas, explicita isso8.

Todo o potencial da intervenção de revelação das contradições existentes se realiza plenamente quando a Fuvest a incorpora como tema de sua redação. Isto era totalmente inesperado pelo grupo em sua proposição original, mas a intervenção ganha uma História própria. A primeira contradição é que o vestibular é umas das catracas invisíveis mais perversas da nossa sociedade, mas incorpora esse tema e, ao fazê-lo, já foge de sua própria lógica, fazendo uma seleção dos alunos mais baseada na sua capacidade de interpretação e de crítica do que na decoração de fórmulas aprendidas em cursos pré-vestibulares. Por ser uma instituição muito respeitada, ela amplia a discussão tanto sobre sua seleção, quanto sobre o “Monumento à Catraca Invisível”. Novamente os mecanismos de controle se revelam nas posições contrárias e favoráveis à pertinência do tema na Fuvest. Os contrários criticam o caráter extremamente subjetivo do tema e defendem o modo nefasto de seleção que se tornou os vestibulares neste país, além de reproduzirem preconceitos como o de que os moradores de Guaianazes não estariam preocupados com esse tipo de coisa9.

A segunda grande contradição se apresenta nos diferentes tipos de incorporação do documento analisado. É curioso notar que um banco, justamente um dos lugares em que há o maior controle de acesso, utilize a descatracalização em sua propaganda. Isso demonstra a capacidade da propaganda de massa de se apropriar inclusive das contestações feitas a ela.

Por outro lado, movimentos sociais de educação queimaram uma catraca em um protesto contra as taxas da própria Fuvest e o Movimento Passe Livre incorporou uma catraca queimada como seu símbolo10. Mesmo com a incorporação da propaganda, o potencial de resistência do símbolo criado pelo Contra Filé se mantém.

Portanto, podemos ver como o “Monumento à Catraca Invisível” realizou seu potencial e explicitou diversas contradições existentes nos mecanismos de controle existentes na sociedade contemporânea. A própria possibilidade de se realizar uma intervenção urbana desse tipo revela que há fissuras nesses mecanismos, que eles não conseguem controlar toda a vida social. O Contra Filé demonstrou que é possível se fazer uma ação política com um potencial transformador sem a necessidade de uma grande mobilização de massas para reivindicar algo ao Estado. A combinação de conhecimento, arte e comunicação permite que um pequeno grupo de pessoas explore as fissuras da dominação e provoque uma reflexão pública que abre espaço para que as subjetividades sejam também sujeitos da interpretação. Dessa forma são revelados os mecanismos de controle social e sua legitimidade pode ser reduzida.

1 Ver foto no Anexo 1

2 “‘Catraca invisível’ ocupa lugar de estátua no Arouche”. In Folha de São Paulo, C6, 04/09/2004.

3 Ver Anexo 2

4 Ver Anexo 3

5 “Catraca é queimada em protesto antivestibular”. In Folha de São Paulo, C7, 11/02/2005.

6 Ver foto no Anexo 4

8 “Grupo assume a autoria da ‘catraca invisível’”. In Folha de São Paulo, 03/09/2004.

9 SILVA, Fernando Barros e, “Pegadinha do Fuvestão”. In Folha de São Paulo, 11/01/2005.

10 Ver Anexo 5.

 

 

Bilbiografia

LUDD, Ned (Org.). Urgência das Ruas – Black block, reclaim the streets e os dias de ação global. São Paulo, Conrad, 2002.

HOLLOWAY, John. Mudar o Mundo sem Tomar o Poder. São Paulo, Viramundo, 2003

“Catraca é queimada em protesto antivestibular”. In Folha de São Paulo, C7, 11/02/2005

“‘Catraca invisível’ ocupa lugar de estátua no Arouche”. In Folha de São Paulo, C6, 04/09/2004

“Grupo assume a autoria da ‘catraca invisível’”. In Folha de São Paulo, 03/09/2004

SILVA, Fernando Barros e, “Pegadinha do Fuvestão”. In Folha de São Paulo, 11/01/2005

Turnstile, from Wikipedia the free encyclopedia. Disponível em: <http://en.wikipedia.org/wiki/Turnstile>

 

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