Relações entre Centro e Periferia nas Teorias Cepalina e da Dependência

08mar08

Relações entre Centro e Periferia nas Teorias Cepalina e da Dependência

Julho, 2006

Felipe Teixeira Gonçalves

Como fenômeno específico que é, o subdesenvolvimento requer um esforço de teorização autônomo” – Celso Furtado

Introdução

Algumas das mais importantes contribuições do continente latino-americano para as ciências sociais no mundo, em especial a sociologia e a economia, foram a teoria cepalina e a teoria da dependência. Não houve nenhum esforço semelhante no mundo de uma teorização autônoma a respeito dos problemas específicos que se apresentam para uma economia periférica.

A teoria econômica neoclássica não dava de conta de explicar o fenômeno subdesenvolvimento, por considerá-lo apenas como um estágio primitivo no caminho para o desenvolvimento, pelo qual todos os países deveriam passar, sendo que o estágio final estaria acessível a todos.

O que a maioria dos esforços teóricos ocorridos na América Latrina durante o século XX tenta que ressaltar é que o subdesenvolvimento é um fenômeno autônomo, que tem raízes históricas e que possui particularidades e problemas que precisam ser compreendidos para que se possa superá-los.

Uma das idéias principais para essas teorias é a divisão do mundo capitalista entre um centro e uma periferia. Apesar desta distinção já ter sido elaborada pelas teorias do imperialismo no final do século XIX e começo do século XX, é com a teoria cepalina que ela ganha uma consistência maior e assume uma perspectiva da própria periferia.

Neste trabalho, tentaremos fazer uma análise das teorizações a respeito das relações entre centro e periferia no pensamento latino-americano do século XX, em particular suas duas principais vertentes – no que concerne a esse tema – a teoria cepalina e a teoria da dependência.

As Origens Coloniais

Antes de iniciarmos a análise dessas duas teorias, é necessário que consideremos a herança histórica deixada pela colonização para as economias latino-americanas. A análise de Fernando Novais1, de cunho marxista, tem particular interesse para nós, por ressaltar aspectos que nos ajudarão a entender a relação entre centro e periferia após a independência. Sua análise tem como foco especificamente o Brasil, mas suas considerações têm validade para o resto da América Latina.

Ele faz uma análise do sistema colonial, entendido como um conjunto de relações que se estabelecem entre uma metrópole – dominante – e uma colônia – subordinada. O antigo sistema colonial se insere na lógica mercantilista, predominante na época em que ele ocorreu. Nesta, a riqueza de um país é identificada com a quantidade de metal dentro do mesmo, ou seja, um país só pode ficar mais rico se o outro ficar mais pobre, pois a riqueza mundial é dada. Nessa perspectiva, as colônias seriam um espaço exclusivo da metrópole, no sentido de garantir maior riqueza a ela.

É preciso ter em conta que a transição do feudalismo para o capitalismo na Europa, na visão de Novais, se deu pela acumulação primitiva de capital. O comércio é incapaz de acumular autonomamente nas condições de livre comércio, pois seus ganhos se dão na diferença entre os preços de compra e venda, reduzidos em uma situação de concorrência. Foi preciso contar com apoios externos ao mercado, como a intervenção do Estado absolutista mercantilista, para acelerar o processo de acumulação de capital.

Ora, o sistema colonial é uma peça fundamental da acumulação primitiva de capital e este é o sentido profundo da colonização. Novais defende, portanto, que a colonização já faz parte de um sistema capitalista, por ser resultado da expansão mercantil européia.

Para Novais, o sistema colonial é caracterizado pelo monopólio de comércio e pelo trabalho escravo. O monopólio de comércio, ou exclusivo metropolitano, garantia ao comerciante metropolitano um lucro excepcional, pelo fato da situação de monopólio lhe garantir a compra dos produtos coloniais a preços muito baixos, sua venda na metrópole por preços muito altos, além da venda de produtos metropolitanos na colônia também a preços extremamente elevados. Isso significa que há uma extração do excedente da colônia em relação à metrópole e sua burguesia comercial. É dessa forma que a colônia serve à metrópole, acelerando a acumulação primitiva de capital.

Como a terra é abundante nas colônias, ou seja, é livre para ser apropriada, o trabalho, para atender à acumulação primitiva de capital, precisa ser compulsória. Como o tráfico negreiro já era uma fonte de lucros elevados e de acumulação primitiva de capital para os comerciantes portugueses, foi o trabalho escravo africano que se implantou no Brasil.

De acordo com Novais, portanto, como a economia colonial tem que atender aos interesses do comércio europeu, ela responde ao ritmo da economia européia, ou seja, não tem ritmo próprio, não tem capacidade própria de investimentos, pois seus excedentes estão nas mãos da burguesia comercial européia. Dessa forma, ela se configura como uma economia dependente em seu ritmo de expansão e declínio e em seu nível de investimentos.

Por outro lado, a utilização de trabalho escravo não possui nenhum incentivo para o aumento da produtividade do trabalho, pois o escravo deve ser mantido em condições de conhecimento mínimas, de forma a facilitar a manutenção de sua condição. Com isso, há um bloqueio às inovações tecnológicas e um impedimento ao aumento da produtividade. A isso se soma o fato da terra ser abundante e o capital ser escasso. A expansão da economia colonial, portanto, se dá extensivamente, ou seja, não pelo aumento de produtividade, mas pelo aumento da quantidade de escravos e de terras.

Essa estrutura é marcada por uma concentração total da renda na classe senhorial, o que significa que a remuneração do trabalho não gera qualquer tipo de renda monetária. Dessa forma, há uma enorme limitação À expansão do mercado interno. Com a transição, na Europa, do capitalismo para uma fase industrial, a sua lógica passa a ser a expansão dos mercados, ou a generalização das terras mercantis. Como o sistema colonial não permitia a expansão do mercado interno, ele se constituía em uma barreira para o capitalismo industrial. É isso que marca, para Novais, a crise do sistema colonial, o que levará à independência de todas a colônias da América Latina no século XIX.

Transição

Outro grande autor marxista, Caio Prado Jr.2, também considera que a economia colonial é definida por ser voltada ao mercado externo e que sua estrutura – caracterizada pela grande propriedade, pela monocultura e pelo trabalho escravo – só permite a reiteração da mesma estrutura. Para ele o sentido geral da História econômica do Brasil é o da transição dessa economia colonial para uma economia nacional, ou seja, voltada para as necessidades de sua própria população. Novamente, seu foco é o Brasil, mas suas considerações podem ser estendidas ao resto da América Latina.

Essa transformação se inicia no século XIX, com a independência. Esta faz parte de um processo de construção de uma nova ordem internacional, marcada pelo capitalismo industrial. A inserção das economias latino-americanas nessa nova ordem se dá pelo fornecimento de matérias primas para a indústria capitalista ou de alimentos para a massa trabalhadora dos países industrializados. O rápido crescimento dessa demanda do mercado externo fornece condições para a expansão da produção. A alta produtividade dessa economia de exportação, como o café por exemplo, permite a expansão pela reinversão dos próprios lucros, o que garante a permanência de um empresariado nacional na produção. Isto gera uma concentração da renda e da riqueza. Com isso, há um aumento da demanda por bens de consumo. A integração do território, junto com a abolição da escravatura e a imigração estrangeira para suprir a necessidade de mão de obra, geram as condições para a criação de um mercado interno.

A expansão das exportações cria a necessidade de importação de bens de consumo, de bens de capital, de insumos, etc. Como a economia exportadora acaba não conseguindo fazer frente às suas importações e encargos da dívida externa, há um estrangulamento externo. A superação desse desequilíbrio externo se dá ou pela desvalorização da moeda, ou pela substituição de importações. Neste ponto já nos cabe analisar a teoria cepalina.

A Teoria Cepalina

A Comissão Econômica Para a América Latina (CEPAL) foi organizada em 1948, como um escritório regional das Nações Unidas. Ela surge numa época em que ainda se sentem fortemente as influências e conseqüências da Grande Depressão dos anos 30. Seu objetivo principal consistia em tentar fortificar a economia interna dos países latino-americanos, de modo a diminuir sua vulnerabilidade frente às crises mundiais.

Apesar de haver diferenças entre os diferentes teóricos cepalinos, pode-se observar uma certa unidade nos seus postulados básicos interpretativos, como por exemplo, a atitude crítica e militante a respeito do “centro industrial” e a favor da “periferia subdesenvolvida”.

As idéias cepalinas representaram uma grande inovação na análise do processo de desenvolvimento econômico. Ao contrário das teorias econômicas neoclássicas, que viam o subdesenvolvimento como um estágio de uma evolução em direção ao alcançável desenvolvimento, os cepalinos consideravam que o subdesenvolvimento tinha uma dimensão histórica, que vinculava o desenvolvimento e o subdesenvolvimento de uma forma específica.  Esta formulação teórica impactou na formação de um ideário que se tornou dominante na América Latina tanto na academia como nos governos, influenciado a política econômica de vários deles.

Dessa forma, pode-se conceber a teoria do desenvolvimento periférico da CEPAL como “um amplo e original sistema analítico, que constituiu um poderoso instrumento de compreensão do processo de transformação das economias latino-americanas3”.

Analisaremos as idéias cepalinas a partir dos dois maiores expoentes da teoria cepalina: o brasileiro Celso Furtado e o argentino Raúl Prebisch.

Furtado é um economista que se caracteriza por não deixar de lado questões sociais e políticas relevantes à sua análise econômica. De acordo com ele4, uma das linhas de expansão da economia industrial européia se deu em direção às antigas colônias de exploração, particularmente a América Latina. Esta se dá sob a forma de investimentos externos em atividades produtivas de exportação, que se tornam o setor capitalista dos países periféricos. A rapidez da integração das economias da América Latina no sistema de divisão internacional de trabalho da ordem econômica mundial decorrente da Revolução Industrial se explica pela disponibilidade de fatores, como terra e mão de obra, nas economias pré-capitalistas existentes na periferia; pela existência de um segmento social urbano e liberal que se orientava para a criação de novos negócios de produção e exportação para o mercado internacional; e pela existência do Estado como uma organização político-burocrática com condições de servir de instrumento a esse grupo para superar os obstáculos ao desenvolvimento postos pela estrutura social atrasada5.

Prebisch6 enfatiza que essa divisão internacional do trabalho – que impôs aos países periféricos a especialização na produção de produtos primários para exportação para os países do centro, os quais, por sua vez, supriam de produtos manufaturados os países da periferia7 – gera uma grande distância entre os países centrais e os países periféricos. Nos primeiros, o desenvolvimento acelerado do progresso técnico elevou a produtividade de todos os setores das suas economias. Já nos segundos, o progresso técnico restringe-se aos setores de exportação enquanto o restante das atividades produtivas permanece em condições atrasadas. Para explicar esse fato, se formulou a tese da deterioração dos termos de troca. A idéia era que os países centrais desenvolvem avanços tecnológicos que tendem a poupar matérias primas, por se adequar à distribuição dos fatores em suas economias. Isso faz com que eles diminuam suas importações, o que acaba diminuindo o preço relativo dos produtos primários em relação aos produtos industrializados no mercado internacional. Este processo se caracteriza como uma transferência dos ganhos do progresso técnico dos países pobres para os países ricos.

O que garante o dinamismo de uma economia capitalista, para Furtado, é a reinversão da renda poupada pelos empresários. Nos setores capitalistas periféricos, contudo, a utilização dessa renda não se dá necessariamente no país onde está localizada a empresa, depende das condições do local de origem do capital. Por isso se cria uma estrutura dual no país periférico, em que há um setor com uma estrutura capitalista e outro que permanece como uma estrutura pré-capitalista. Não se cria, portanto, uma economia tipicamente capitalista, como ocorreu nos países do centro após a revolução industrial8. A origem do setor pré-capitalista está na decadência das estruturas antes ligadas à exploração colonial, que se transformaram em estruturas sociais arcaicas e pouco produtivas. Foram os comerciantes que atuavam em zonas urbanas que promoveram a agricultura de exportação organizada em empresas de tipo capitalista9.

Para a determinação da renda criada por esse setor não contam muito os impostos, por estes serem reduzidos para se atrair o capital estrangeiro, nem o nível de salário real, pois este é determinado pelas condições de vida locais e não pela produtividade do trabalho da nova atividade econômica. O essencial, portanto, é o volume de mão de obra empregado10.

A expansão das exportações era o fator dinâmico essencial, pois ela cria os recursos que alimentam o processo de investimento, dado que a remuneração da mão de obra era feita, principalmente com a produção de alimentos nas próprias terras da nova agricultura de exportação. Enquanto as exportações foram crescentes, a demanda induz a transferência de mão de obra do setor pré-capitalista para a agricultura de exportação, o que aumenta a produtividade do trabalho, assim como o nível de poupança. Dessa forma, pode haver crescimento sem pressão inflacionária. Esta estrutura, contudo, tende a concentrar renda nas mãos da classe proprietário-capitalista11.

Se o setor pré-capitalista for reduzido, esse processo irá absorver todo o setor pré-capitalista, de forma a unificar o mercado de trabalho. Neste momento, Furtado diz que o subdesenvolvimento foi superado, pois não há mais dualismo. Contudo, isso não ocorre na maioria dos casos. O setor pré-capitalista continua acentuado. O crescimento econômico era simplesmente um crescimento dos setores mais produtivos, sem que houvesse significativa absorção de inovações tecnológicas.

A Grande Depressão dos anos 30 encerrou esse período na América Latina. A partir de então, haverá um processo de industrialização. Esta se deu pela modificação da estrutura produtiva que permitiu reduzir as importações. Com um choque adverso externo, há uma contração da demanda externa e uma diminuição dos preços do setor exportador. O governo atua para garantir o lucro dos exportadores, modificando a taxa de câmbio e expandindo os meios de pagamento. Isso mantém o nível da renda monetária interna. Gera-se também um aumento no nível dos preços e diminui-se a capacidade de importar. A posição relativa das manufaturas voltadas à demanda interna tende a melhorar substancialmente. Há, portanto, um desvio de recursos do setor exportador para as atividades industriais. Isso faz com que o lucro dessas atividades aumente, o que aumenta a taxa de poupança, mantendo as taxas de crescimento. Também aumenta a concentração da renda. O elemento dinâmico do desenvolvimento das economias periféricas passa a ser, portanto, a demanda interna que já não podia ser satisfeita pela oferta externa12.

É importante ressaltar que a industrialização da América Latina e o desenvolvimento do setor exportador não são processos excludentes. Muito pelo contrário, são atividades complementares, pois são as divisas acumuladas a partir dos lucros de produtividade da atividade exportadora que possibilitaram investimentos na indústria13.

A elevação da taxa de lucros impulsiona as importações de bens intermediários e de capital. A concentração da renda permite a manutenção das importações de bens de consumo duráveis. Sendo assim, a substituição de importações tende, inicialmente, a se concentrar nos bens de consumo não-duráveis. Ao se esgotarem as possibilidades dessa substituição, haverá uma crescente pressão na balança de pagamentos, o que elevará os preços dos bens de consumo duráveis e de capital. Para manter seu nível de crescimento, a economia deverá partir para a substituição destes bens. Contudo, a substituição dos bens de capital só será viável quando os preços estiverem muito elevados. Esta elevação irá levar a uma redução da taxa de lucros14.

Como estes setores são mais intensivos em capital, o lucro tende a crescer mais que os salários, o que concentra a renda. Além disso, há uma redução na demanda por produtos agrícolas, reduzindo a absorção de mão de obra por esse setor do setor pré-capitalista.

Em suma, o que Furtado argumenta é que o dualismo das economias periféricas dá origem a uma concentração de renda que orienta o investimento de forma a reduzir a eficiência econômica e, portanto, gera estagnação econômica. Este problema é estrutural na medida em que o marco institucional dos países da América Latina é controlado por grupos que se beneficiam dessa concentração de renda.

De acordo com Bielschowsky, “A CEPAL (…), ao combinar sua tese sobre as transformações históricas do sistema centro-periferia com a análise das estruturas produtivas periféricas, foi capaz de prover um instrumental analítico engenhoso, através do qual uma série de importantes tendências típicas do crescimento em países subdesenvolvidos – tais como déficits externos, deterioração dos termos de troca, desemprego e inflação – podia ser prevista e estudada de maneira particularmente acurada15”.

Vale ressaltar, por último, que a teoria cepalina em geral considerava que a industrialização traria mudanças econômicas, sociais e políticas para a América Latina, sendo ela responsável pela superação do subdesenvolvimento. Os textos de Furtado tratados aqui já são de uma época posterior, em que essa idéia já começava ser posta em dúvida.

A Teoria da Dependência

A Teoria da Dependência surge a partir da constatação de que a industrialização foi incapaz de promover a superação do desenvolvimento. Ela é uma crítica tanto à teoria cepalina quanto à teoria da esquerda tradicional16. As idéias cepalinas de que a industrialização aumentaria o caráter endógeno das decisões pelo fortalecimento do Estado nacional e de que haveria uma ampliação do mercado interno de consumo popular, por meio de reformas estruturais não se concretizou. Isto fortaleceu a perspectiva marxista do “enfoque da dependência”.

De acordo com a análise de Cardoso e Faletto17, o processo de industrialização por substituição de importações aumenta o papel do Estado, mas também o altera. Ela passa a defender o mercado interno e a realizar políticas para fortalecer o setor industrial e acelerar a industrialização. Passa a arbitrar entre as pressões de diversos grupos, mobilizando-os em torno de um projeto de desenvolvimento. Os dependentistas chamam a atenção para o fato de que esse processo de industrialização se baseou em acordos e alianças entre diversos setores das sociedades latino-americanas de modo a permitir que se implantassem tais políticas. Os diversos arranjos de poder alcançados em cada país tiveram particularidades que definiram processos de industrialização também diferentes em cada caso.

Apesar das peculiaridades locais, houve duas orientações gerais nesse processo. Em primeiro lugar, a pressão das crescentes massas urbanas exige que se procure incluí-las no jogo político com políticas de distribuição econômica e social. Em segundo lugar, se pressiona para a manutenção do crescimento econômico para a continuação do sistema de dominação. Essas duas orientações dão origem ao populismo desenvolvimentista característico a América Latina no século XX. Essa ideologia era utilizada para legitimar o projeto de industrialização pela promessa de benefícios a todos.

Há três formas básicas que assumem esses arranjos específicos. A industrialização liberal, liderada pelos setores empresariais privados, cujo caso típico foi a Argentina. A industrialização nacional-populista, em que há um compartilhamento da condução do processo entre a burguesia, os setores médios e populares ligados ao Estado e o setor agro-exportador-importador, o qual teve sua maior expressão no Brasil. E a industrialização orientada por um Estado desenvolvimentista, no qual o Estado se impõe orienta as inversões de forma a favorecer a indústria nacional, o caso do México.

O que Cardoso e Faletto procuram ressaltar é que estava surgindo um novo caráter da dependência, marcado pela internacionalização do mercado. Isso ocorre quando há uma crise dos diversos arranjos populistas, conjuntamente com uma transformação na relação das economias nacionais com as economias mundiais hegemônicas.

A industrialização implicou em uma alta necessidade de acumulação de capital. Por outro lado, gerou uma extrema concentração de renda e diferenciação social. Quando a aliança desenvolvimentista procura atender às demandas de maior inserção das camadas populares, entra em conflito com os poderes estabelecidos no setor agrário e o acordo se rompe.

Em um estágio inicial da industrialização, além da acumulação interna, houve um aumento dos investimentos estrangeiros, sem que os interesses destes conflitassem com os do protecionismo desenvolvimentista. Esse modelo de industrialização permitirá um aumento de acumulação e de transformação da estrutura produtiva, ou seja, haverá crescimento, porém baseado em um sistema social excludente, extremamente concentrador de renda. Com o esgotamento do processo de substituição de importações, contudo, esses desequilíbrios aparecem e a aliança desenvolvimentista se desfaz.

O chamado novo modelo da dependência se dá por ligações entre o centro e a periferia por meio de investimentos industriais diretos feitos pelo centro nos mercados nacionais da periferia. Nesta nova situação pode haver um elevado grau de desenvolvimento e inclusive uma convergência entre os investimentos industriais estrangeiros e a expansão do mercado interno periférico, pois o consumo é interno, o que favorece a reinversão dos investimentos. Porém as principais decisões econômicas são tomadas nas economias centrais. A idéia central é que, apesar de possuírem economias industrializadas, os países periféricos continuam dependentes.

A heteronomia se mantém, inicialmente, pela dependência do setor industrial da capacidade de importar bens de capital e matérias primas complementares aos novos sistemas produtivos. Este problema pode ser superado após a substituição de importações de bens de capital pela sua produção interna.

Contudo, a internacionalização do mercado interno repõe o problema da heteronomia. Quando os setores mais dinâmicos da moderna produção industrial se organizam nas economias periféricas, é necessária uma reorganização administrativa, tecnológica e financeira, o que implica na reordenação das formas de controle social e política. Os esforços requeridos por esse processo levam a uma estreitamento da dependência em relação aos países centrais. Isso porque é necessária a transferência de capitais, de técnica e de organização produtiva modernas. As possibilidades de controle autônomo da economia nacional diminuem com a unificação dos sistemas produtivos mundiais. O desenvolvimento passa a se realizar intensificando-se a exclusão social, pela subordinação de todos os setores que não sejam o novo setor monopolista estrangeiro. Este processo, contudo não é inexorável. Há uma luta social e uma resistência exercida por diferentes segmentos, assim como depende do grau de importância do setor público estabelecido na economia.

Além disso, vê-se a passagem de regimes democráticos para regimes autoritários por meio de golpes militares. As Forças Armadas e o Estado se fundem para garantir o desenvolvimento e a segurança nacional. Contudo duas pressões antagônicas se somam. Por um lado, a grande corporação industrial-financeira internacionalizada defende o desenvolvimento racional e moderno, que lhe favorece. Por outro lado, há outra influência que enfatiza o caráter nacional dos problemas a serem resolvidos. A disputa entre os grupos sociais não é eliminada, portanto. A política continua a ser desenvolvimentista, mas não se define claramente quanto ao controle da economia, se será nacional ou internacional.

O que a teoria da dependência ressalta, portanto, é que a ação dos grupos sociais é essencial para se entender os processos históricos, sem negar, contudo que estas ações estão condicionadas por condições estruturais. A nova dependência se caracteriza pela aliança dos interesses de setores da burguesia nacional voltada para o mercado interno com grandes interesses de monopólios internacionais. Nesta nova forma de dependência, é inclusive possível que haja desenvolvimento, sem que com isso se rompa os laços de dependência.

De acordo com Cardoso “O que foi específico no enfoque da dependência não foi, portanto, a ênfase na ´dependência externa` (…), mas sim a análise dos padrões estruturais que vinculam assimétrica e regularmente as economias centrais às periféricas. Introduzia-se, portanto, a idéia de dominação. (…) Mais ainda, não se via a dominação apenas entre nações, Procurava-se mostrar como essa supõe uma dominação entre classes.18

A teoria da dependência aponta, portanto para uma situação em que há uma penetração financeira e tecnológica pelos centros capitalistas. Essa penetração produz uma estrutura econômica desigual nas sociedades periféricas, tanto internamente, quanto entre estas e o centro; impõe limitações para o crescimento econômico autônomo na periferia; propicia o surgimento de padrões específicos de relações capitalistas de classe; e que requer uma alteração no papel do Estado para garantir o financiamento da economia e a articulação política de uma sociedade com desequilíbrios estruturais19.

Conclusão

Após esta exposição e análise das principais contribuições latino-americanas para se entender as relações entre centro e periferia no mundo capitalista, fica clara a riqueza e originalidade das mesmas e como elas foram essenciais para o desenvolvimento teórico e político dos países periféricos.

Poderíamos dizer que a teoria da dependência consiste de uma revisão marxista da teoria cepalina, de forma a demonstrar que o desenvolvimento industrial capitalista não é suficiente para acabar com a exploração internacional e nacional. Nessa perspectiva, apenas o fim do capitalismo seria capaz de tal feito. Além disso, os cepalinos ressaltam a divisão entre nações, enquanto que os dependentistas também dão importância às desigualdades entre classes.

Contudo, vemos que mesmo grandes expoentes da teoria cepalina, em especial Celso Furtado, reformularam suas idéias iniciais, de forma assumir que a industrialização não superou a condição de subdesenvolvimento. Apesar disso, ele irá explicar isso sem recorrer à dominação capitalista. Ele mudará seu conceito de desenvolvimento, passando a considerá-lo progresso técnico com homogeneização social. O subdesenvolvimento será caracterizado, portanto, como progresso técnico sem homogeneização social. Ele desenvolverá o conceito de modernização, entendida como a assimilação de progresso técnico por meio de bens de consumo, sem alteração no processo produtivo. É essa a forma da industrialização na América Latina, a assimilação de técnicas pelo perfil da demanda de pequenos setores de alta renda. Esta tende a se dar no sentido de setores que poupam mão de obra, que geram poucos empregos. OS salários abaixam e a desigualdade é reproduzida. A concentração de renda se reitera via padrão de consumo20.

Por fim, Chico de Oliveira21 nos coloca a questão essencial hoje. A revolução molecular-digital e o puro uso da força de trabalho não permitem mais a possibilidade de se saltar à frente nem se apresenta a possibilidade de reduzir a desigualdade, ficando o desenvolvimento praticamente bloqueado. Será necessário um novo esforço teórico-prático para que possamos compreender melhor essa nova condição do subdesenvolvimento e busquemos modificá-la.

 

Bibliografia

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SUZIGAN, Wilson. “Origens do Desenvolvimento Industrial Brasileiro: Principais Interpretações e questões não Resolvidas”.

1 NOVAIS, Fernando. Portugal e Brasil na Crise do Antigo Sistema Colonial (1777-1808). São Paulo, Hucitec, cap. II, 1979.

2 PRADO Jr., Caio. História Econômica do Brasil. São Paulo, Brasiliense, 1954.

3 BIELSCHOWSKY, Ricardo. Pensamento Econômico Brasileiro: O ciclo ideológico do desenvolvimentismo. RJ, Contraponto, 2004.

4 FURTADO, Celso. Desenvolvimento e Subdesenvolvimento. Rio de Janeiro, Fondo de Cultura, cap. IV, 1961.

5 FURTADO, Celso. “Fatores estruturais da Estagnação Latinoamericana”. In Subdesarrollo y Estancamiento en América Latina. Buenos Aires, Eudeba, cap. III, 1966.

6 PREBISCH, Raúl. O desenvolvimento da América Latina e alguns de seus problemas principais. Santiago, Boletim económico de América Latina, 1949.

7 SUZIGAN, Wilson. “Origens do Desenvolvimento Industrial Brasileiro: Principais Interpretações e questões não Resolvidas”.

8 FURTADO, Celso. Desenvolvimento e Subdesenvolvimento. Rio de Janeiro, Fondo de Cultura, cap. IV, 1961.

9 FURTADO, Celso. “Fatores estruturais da Estagnação Latinoamericana”. In Subdesarrollo y Estancamiento en América Latina. Buenos Aires, Eudeba, cap. III, 1966.

10 FURTADO, Celso. Desenvolvimento e Subdesenvolvimento. Rio de Janeiro, Fondo de Cultura, cap. IV, 1961.

11 FURTADO, Celso. “Fatores estruturais da Estagnação Latinoamericana”. In Subdesarrollo y Estancamiento en América Latina. Buenos Aires, Eudeba, cap. III, 1966.

12 FURTADO, Celso. Desenvolvimento e Subdesenvolvimento. Rio de Janeiro, Fondo de Cultura, cap. IV, 1961.

13 PREBISCH, Raúl. O desenvolvimento da América Latina e alguns de seus problemas principais. Santiago, Boletim económico de América Latina, 1949.

14 FURTADO, Celso. “Fatores estruturais da Estagnação Latinoamericana”. In Subdesarrollo y Estancamiento en América Latina. Buenos Aires, Eudeba, cap. III, 1966.

15 BIELSCHOWSKY, Ricardo. Pensamento Econômico Brasileiro: O ciclo ideológico do desenvolvimentismo. RJ, Contraponto, 2004.

16 CARDOSO, Fernando Henrique. As Idéias e Seu Lugar – ensaios sobre as teorias do desenvolvimento. Cadernos CEBRAP nO 33. Petrópolis, Vozes/CEBRAP, 1980.

17 CARDOSO, Fernando H. & FALETTO, Enzo. Dependência e Desenvolvimento na América Latina. Rio de Janeiro, Zahar, 1970.

18 CARDOSO, Fernando Henrique. As Idéias e Seu Lugar – ensaios sobre as teorias do desenvolvimento. Cadernos CEBRAP nO 33. Petrópolis, Vozes/CEBRAP, 1980. Grifo do autor.

19 Ibidem.

20 FURTADO, Celso. Teoria e Política do Desenvolvimento Econômico. São Paulo, Paz e Terra, 2000.

21 OLIVEIRA, Francisco de. Crítica à Razão Dualista – O Ornitorrinco. São Paulo, Boitempo, 2003.

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One Response to “Relações entre Centro e Periferia nas Teorias Cepalina e da Dependência”

  1. 1 thiago franco

    Caro Felipe,
    Caros leitores do blogue,

    Tenho uma pergunta que me interessa muito posto que tenho me aproximado desse tema recente – aliás, sugestão do professor Rodrigo Teixeira no simpósio que vocês fizeram ano passado: como vocês lêem “O Capitalismo Tardio” do professor João Manuel? E “Capitalismo tardio e sociabilidade moderna” dele com o mestre Novais?

    espero que este debate frutifique.

    Saudações amigas,
    Thiago Franco


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