A Meritocracia e a Vivência Universitária: críticas e concepções (1 de 3)

07mar07

Caros,

Vou inaugurar a seção “Universidade” (pretensamente séria) c/ um texto q escrevi em Maio de 2006, e que algumas (poucas) pessoas tiveram acesso. Inicialmente, era para ser a introdução a um suposto livro que gostaria de escrever sobre a universidade, no qual então poderia desenvolver todas as minhas teses e críticas. Como alguns sabem, tenho o – péssimo – costume de, para além da prolixidade e da escrita “pós” dialética (um nome mais sofisticado e levemente pedante p/ minha sintaxe mega-confusa), divagar do universal ao particular, fazer o caminho inverso e depois repetir o processo por diversas vezes, ampliando então a complexidade do que é abordado, numa espécie de espiral em rede que consegue juntar coisas das mais bizarras. Isso pode ser interessante se bem feito, mas ainda não cheguei lá. Então peço desculpas por isso.

Pois bem, essa explicação faz sentido para que se compreenda que o texto está absolutamente incompleto (mesmo como introdução “sumarizante”) e sem revisão (com o detalhe de que ele se encerra com uma pergunta …). O projeto foi meio que interrompido em decorrência do final daquele semestre e, é claro, da iniciação científica (que interrompeu TODOS os demais projetos até Dezembro). Penso em continuá-lo agora, apesar da grande irritação que me causa ao ler o que escrevo (exatamente pelo contrário do que se imagina: acho tudo muito claro, óbvio demais, talvez até infantil, e isso me desanima continuamente). Agradeço ao Fred por ter me lembrado que este texto existia (ele estava triste e sozinho nos rascunhos da minha caixa de e-mail), e também pelos primeiros comentários e incentivos.

De qualquer forma, creio realmente que isto aqui só faça sentido com a intervenção de todos, seja mesmo estética como, obviamente, crítica e política. Ou seja, este é um espaço de exortação criativa, e a criatividade (no sentido mais propositivo e instigante do termo), é óbvio, nunca é fruto de uma mente sozinha e iluminada (tenho um texto sobre isso, atacando os direitos autorais, posso colocá-lo depois). Faço então o convite para que, não só neste texto como em todos os demais possamos fazer valer nossas concepções, discussões e projetos que se compartilharam nestas vivências históricas.

Boa leitura!

A Meritocracia e a

Vivência Universitária:

críticas e concepções

Uma das questões básicas a ser analisada dentro do funcionamento da universidade é o seu acesso. A meritocracia é praticamente senso comum (se não totalmente) dentro dos grupos que regem a universidade e integrantes da elite em geral, especialmente a intelectual (inclusive a de “esquerda”). O argumento é o de que a demanda de pessoas que desejam ingressar no ensino superior supera em muito a oferta de vagas o que faz com que se torne inevitável a realização de um processo seletivo, que escolha os melhores para o ingresso na universidade. Outro argumento também corrobora esse entendimento: a vinda de alunos “realmente” qualificados faz com que o ensino superior não perca sua qualidade e não perca o posto de “centro de vanguarda intelectual”, em que as diretrizes de funcionamento da sociedade são planejadas. Algumas críticas, embora interessantes, não rompem a bolha sociológica de onde estão inseridas. Pseudo-soluções, altamente paliativas e, possivelmente, fruto mesmo de uma crise de consciência entram em tramitação. O exemplo mais evidente disso é a criação de um “quarto” ano, uma espécie de cursinho para alunos de escolas técnicas públicas. Trata-se de uma prática incoerente a priori, que infelizmente não se pode traduzir como solução de curto-prazo, quanto mais de caráter definitivo, como parecem pretender a elite política. Eles parecem (ou não querem) entender que, na pior das hipóteses, a alteração do quadro educacional dever-se-ia dar dentro do ensino médio – e antes disso, obviamente – e não criando-se mais um entrave, que reflete, pelo método, nada mais do que a coroação do ensino pragmático e naturalmente vazio, acrítico e privatista.

Mesmo boa parte das críticas mais ostensivas ao vestibular acabam por não negar segmentos de sua lógica perversa e, com isso, sua própria existência. O que se pensa, no melhor das hipóteses, é criar condições iguais para se disputar as vagas para a universidade. Pouco se questiona, nesse raciocínio, o óbvio direcionamento e seleção “filosófica” que o conteúdo das provas acaba por exprimir. Mais uma vez, só se pensa pragmaticamente, só se importa a respeito do ingresso de alunos de ensino público (e/ou pobres, e/ou negros) na universidade, para que, posteriormente, galguem bons cargos no mercado de trabalho, como “alpinistas sociais”. Esta é uma clara concepção elitista, que entende a emancipação e o “sucesso” do ponto de vista do status econômico.

Ao entendermos a meritocracia como lugar comum do pensamento social, acabamos por entender realmente que a universidade é um local negativamente privilegiado, como se se destinasse para “predestinados” cultural e economicamente. Claro, se o diploma serve como diferencial no mercado de trabalho e como símbolo de status dentre os seus semelhantes, é cabal que exista um processo “justo” e rigoroso de seleção, pois toda essa lógica se insere perfeitamente na realidade em que vivemos. Assim, a “bolha” de homogeneidade cultural entre os partícipes de tal processo não é rompida; as limitações estruturais do sistema capitalista (como a incapacidade de se universalizar o ensino superior) são vistas como sendo pressupostos incontestáveis da própria sociedade. Em outras palavras, ou o indivíduo se subjuga à essa realidade, respeitando passivamente seus alicerces, ou então está à margem do sistema – fora da “bolha”.

Não entendem os críticos tradicionais que a procura de métodos alternativos (como um vestibular mais “humano” e flexível), embora seja uma iniciativa extremamente válida e corresponda, de uma certa maneira, a um rompimento drástico como relação aos paradigmas alicerçantes de funcionamento da sociedade pós-moderna, ela representa uma solução apenas de curto prazo, na medida em que, como se pôde observar nas últimas décadas, as estruturas que se pretendem dirigentes da convivência humana apresentam uma capacidade imensa de se reajustar e de se reconfigurar à realidade emergente, em geral como uma rapidez impressionante. Isso significa, no exemplo em questão, que tão logo as pretendidas mudanças na forma do vestibular sejam implantadas, os conglomerados do grande ensino privado alterariam seus currículos de forma a direcionar as matérias à nova demanda vislumbrada pela burocracia universitária (tendo-se como hipótese a não conexão direta entre esta e o setor educacional mencionado, o que não necessariamente é verdade, e que, caso existente, tornaria a pretensa transformação do quadro ainda mais entravada). Em pouco tempo, todo aquele espírito esperançoso de se alterar dramaticamente o perfil dos ingressantes na universidade, a fim de se buscar maior pluralidade social e maior integração da universidade à sociedade “externa”, seria destruído, na medida em que os princípios éticos norteadores da efetivação de um processo seletivo mais diferenciado seriam desvirtuados e focados de um ponto de vista extremamente pragmático, competitivo e, obviamente, mercadorificado. Em última instância, o ensino de novas matérias, como Filosofia e Sociologia, no ensino médio se transformaria, metodologicamente, igual às demais; o espírito crítico, mesmo se fortemente evocado dentro das questões de vestibular, seria transmutado em “artimanha”, justamente para atender o fim de se acertar mais pontos. Diante dos princípios privatistas que compõem fortemente a sociedade, seria inviável conceber que, peculiarmente, essas disciplinas (ou quaisquer outras) seriam ministradas como fins morais e éticos de constituição dos indivíduos e da coletividade – transcendendo sectarismos altamente vigentes (e também expressões da principiologia pragmática) que classificam esse comportamento almejado como naïve, enquanto captam e subvertem tais noções e aplicam-nas no meio empresarial, coisificando mais um inalienável atributo humano. Seria esperado, enfim, que tudo se transformaria em “técnica” a mais a ser transmitida pelos “magos” professores de cursinhos, para que “vestibulandos” (a expressão parace caracterizar uma função sociológica, um trabalho, um modo de vida, na medida em que se tem a noção da necessidade de “especialização suprema” nessa atividade para que, então, se ingresse na “vida” de facto) consigam entrar na USP e, paralelamente, se transformarem, mais uma vez, em mercadoria valorizada, tanto para o futuro mercado de trabalho como mesmo para os cursos pré-vestibulares, por meio de estatísticas que os tornarão “campeões de aprovação” – uma espécie de certificado “ISO 9000” que se apropria dos corpos e mentes humanas para dar à empresa de educação (expressão claramente contraditória) uma diferenciação perante seus concorrentes. Mais uma vez, como se vê, a “bolha” não é rompida.

E por que não o foi ? Porque a meritocracia, mesmo nesse pensamento libertário acerca do vestibular, acaba sendo parte essencial de seu próprio argumento, que cabalmente se materializa; tal situação parece indicar que, na verdade, a meritocracia é um pressuposto tão óbvio que se torna um tabu em rodas de discussão – em especial naquelas em que constam aqueles que superaram esse obstáculo, é quase natural que a contestação desse sistema como um todo (e não somente de seus aspectos mais pontuais) se torne uma “heresia” ou um “utopismo deslavado”. Não se compreende que a meritocracia é pate totalmente integrante de um sistema de classes, na medida em que é praticamente um topos para tal distinção. Isso se dá em três aspectos: primeiramente, a meritocracia funciona como instrumento para a renovação dos quadros dirigentes da sociedade – os elementos individuais não precisam ser necessariamente os mesmos, contanto que a totalidade permaneça existente; afinal, no caso da universidade, não é possível dizer que o processo seletivo seja perfeito em selecionar sempre aqueles que vieram das grandes escolas particulares. Contudo, mesmo quando se pensa que ele falhou, ou seja, permitiu a entrada de alguém que jamais frequentou a educação privada e estudou por conta própria após o término dos estudos regulares, é tácito supor que, na próxima geração, esse indivíduo terá ascendido à condição social de seus pares da vida universitária e, com isso, proporcionará a seus descendentes oportunidades educacionais melhores (no sentido da maior facilidade em ingressar no ensino superior gratuito de qualidade); nesse entendimento, houve simplesmente uma renovação nas classes superiores, e não uma transformação sistêmica da sociedade. Secundariamente, a meritocracia funciona como fulcro existencial entre as classes sociais, na medida em que são as superiores (e não a sociedade como um todo, já que se pressupõe que a sua totalidade, por conter setores “não-intelectualizados”, é incapaz de criar métodos de seleção adequados – e, subliminarmente, entende-se aí uma forte conotação positivista na concepção de “capacidade”) quem determinam exatamente quais os requisitos para que este ou aquele indivíduo ingresse na universidade. A noção de qualidade do aluno, aí, é atribuição parcializada de determinado setor, que se aproveita de sua condição social para propiciar a seus pares as ferramentas exigidas pelo processo seletivo. Nesse contexto, cria-se um gap de oportunidades entre aqueles que dispõem de condições para seguir um programa determinado, na verdade, por eles mesmos (como as exigências do vestibular) e aqueles que dispõem de conhecimentos e construções culturais distoantes dessa concepção e carecem, em contrapartida, de condições materiais para se colocarem em pé de igualdade com o outro grupo. Nesse sentido, o terceiro aspecto em que a meritocracia transparece como método de seleção parcial é em razão da diferenciação econômica que, em consonância com a meritocracia intelectual/política oriunda da segunda diferenciação, fazem com que o processo seletivo não se torne, jamais, um processo social, mas sim uma escolha “intra-classe”. Quer dizer que, em detrimento da organização da sociedade baseada num conceito individualista/monopolista de eficiência econômica, torna-se cabal que os setores mais bem colocados socialmente serão aqueles que, de acordo com a organização do mercado, serão os mais capazes de utilizarem sua condição e, assim, pagarem pelas melhores escolas/cursos preparatórios. De fato, a “concorrência perfeita” também não se realiza aí, já que os centros com maior índice de aprovação (que também é oriundo, em geral, não só da dita “excelência” do ensino, mas também pela condição sócio-econômica de seus participantes – caso não precisem trabalhar, poderão se dedicar integralmente às funções escolares), se utilizarão de tal carimbo para conquistarem cada vez mais o caractere econômico social da inventiva economia eficiente: a mais-valia. Com isso, o setor educacional público, cada vez mais abandonado tanto por não se configurar mais como sendo, de acordo com essa lógica (tida como “supra-histórica”), o mais eficiente, como, por causa disso, ser um dos primeiros a ser relegado a planos inferiores em termos de investimento para o beneficiamento de outros setores, como o pagamento das dívidas (que por sua vez realimenta o cume social dos grupos mais abastados e, como isso, reforça a lógica de diferenciação dentro do quadro destacado), fica destinado às populações mais paupérrimas e totalmente desprovidas de recursos para a inversão de sua condição social. A universidade, assim, se configura cada vez mais como posto de preparação para o mercado de trabalho e para a consolidação/ascensão social, corroborando de maneira eficaz os princípios meritocráticos que regem a sociedade e à ela mesma; toda essa realidade, presente de forma massacrante (com um tônus vigoroso, de “obviedade ululante”), acaba por ser apreendida pelas subjetividades sem questionamentos, tornando um enorme problema no melhor que se poderia conceber acerca da modernidade e da capacidade humana de se auto-organizar.



6 Responses to “A Meritocracia e a Vivência Universitária: críticas e concepções (1 de 3)”

  1. 1 Frank Ribeiro

    Prezados.
    O texto é muito bom, alias, “muitíssississimo” bom..Mas, não identifiquei o autor. Quem é o auto deste texto?

    Grato
    Frank

  2. 2 Sérgio Roberto Guedes Reis

    Olá, Frank, como vai?
    Agradeço pelo comentário.
    Como vc teve acesso ao texto?
    Abraços,

    Sérgio.

  3. 3 milenni

    ola autor..(nao conegui tb identificar o nome)..
    Gostei do texto…..Estou pensando em fazer o curso de jornalismo na Universidade Federal de Goiás….E ao entrar no google,fui a procura de algum texto de opnião sobre essa grande questão que é a forma de seleção das Universidades públicas..daí o encontrei..Ótimo texto…..
    vc tem materiais que possam me ajudar nessa pesquisa.? aguardo resposta…
    Milenni

  4. 4 Sérgio Roberto Guedes Reis

    Olá, Milenni, como vai? Obrigado pelo comentário.
    Eu recomendaria fundamentalmente o pequeno livro do sociólogo português Boaventura de Sousa Santos intitulado “A Universidade no Século XXI” (Ed. Cortez, 2005). No próprio site do autor tem uma versão mais ou menos parecida do texto, mas em inglês (http://www.ces.uc.pt/bss/documentos/university11Feb2005.pdf). Considero esse texto o mais atual sobre a questão do acesso às universidades públicas. Na verdade, ele é uma espécie de atualização de um artigo (o 8º) de um outro livro publicado em 1994, chamado “Pela Mão de Alice – O Social e o Político na Pós-Modernidade”.
    De outros autores, recomendaria o livro de Marilena Chauí, “Escritos sobre a Universidade” (Ed. Unesp, 2000), e os artigos de Franklin Leopoldo e Silva (“A Perda da Experiência da Formação na Universidade Contemporânea”, Revista Tempo Social, São Paulo, v. 13, n. 1, p. 27-37, 2001; “Reflexões sobre o conceito e a função da universidade pública”, Estudos Avançados, São Paulo, v. 42, p. 295-304, 2001; e principalmente “A experiência universitária entre dois liberalismos”, Revista Tempo Social, São Paulo, v. 11, n. 1, 1999). Todos esses textos dão um panorama mais geral obe a universidade contemporânea, seu papel na sociedade, etc (o que é essencial para o entendimento mais específico da questão do acesso). Creio serem leituras substanciais p/ sua pesquisa.
    Boa leitura e boa sorte em seu curso,

    Sérgio.

  5. 5 Natalia Lopes

    Olá!
    Gostaria de saber o nome do autor!

  6. Nossa, adorei o texto!
    Super me ajudou com meu trabalho de política!
    Parabens!


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