A Meritocracia e a Vivência Universitária: críticas e concepções (2 de 3)

08mar07

Supondo que a meritocracia se configurasse, de fato, como um conceito metodológico “neutro” de seleção para a universidade (ou seja, em que condições econômicas, políticas, sociais e culturais de determinados grupos não fossem fatores de privilegiação nesse processo), ainda assim um vestibular não tecnicizado não seria a melhor maneira de se ingressar na universidade. Isso, obviamente, quando se tem em conta a universidade como sendo um espaço social. Ou seja, prévia e contiguamente ao debate sobre o acesso à universidade, é a concepção sobre a mesma que está em disputa. Se se tem em vista a universidade como espaço de diferenciação social, atrelada a uma forte noção positivista da supremacia da ciência sobre outras produções humanas e se, evidentemente, existe o entendimento de que a alocação eficiente de recursos significa investir capital de forma a potencializar capacidades individuais (o que faz emergir a noção do ensino superior, mais uma vez, como formador exclusivo ou essencial para o mercado de trabalho), nem assim seria possível conceber uma neutralidade metodológica de seleção. O projeto que se pretende representante da concepção liberal de mundo, que evoca para si a doutrinação e teorização sobre o respeito e valorização às inalienáveis capacidades humanas individuais, fracassaria retoricamente na tentação de descobrir a “imparcialidade”. Isso porque, sabidamente, noções como “positivismo”, “alocação eficiente de recursos”, “capital” e “mercado de trabalho” estão intimamente ligadas à contemporaneidade e ao modo de produção sócio-econômico vigente. A busca de neutralidade perante uma circunstância resulta invariavelmente numa tomada de posição sobre a mesma circunstância, e pela relação desta com as demais também é possível dizer que ocorre relação diferenciada com estas (e, inclusive, consigo mesmo), a partir de tal comportamento, dito “objetivo”. Em suma, se há seleção, há subjetividade. Se há referência externa à totalidade social (“capital”, “mercado de trabalho”), há subjetividade. Em todo esse entendimento, conforme mencionado, fica patente a forte relação dessas concepções como a tácita produção cultural em voga. Não é possível, dentro desse modelo meritocrático, pensar numa universidade como espaço, já que todas as estruturas, sociais ou não, são segmentadas, resultado de uma constante (e bem sucedida) tentativa de atribuição de valor monetário às mesmas. Universidade é universidade; arte é arte; cultura é cultura; sociedade é sociedade. Cada um tem seu espaço próprio e “privilegiado”, e cada vez menos há mesmo uma “intersecção” entre esses setores. Diante dessa realidade, é inconcebível um processo seletivo e uma universidade humanos sendo o primeiro processo seletivo, e o segundo, universidade tais quais se definem hodiernamente.

A armadilha de se crer numa universidade mais humana por meio de um processo seletivo mais justo se desfaz a partir do momento em que se questionam alguns aspectos (que seguirão para o entendimento de um conceito totalmente novo de universidade, quando a entendemos como um processo contínuo de auto-reformulação). Tais aspectos precisam de urgente contraposição, na medida em que se faz crer na sua existência como um fato dado. Primeiramente, é necessário questionar a noção da universidade como espaço institucional-burocrático supra-histórico. Ou seja: precisaria mesmo a universidade ser esse local físico separado das demais estruturas da sociedade, ainda que, eventualmente, possua vasta extensão e principiologicamente se insira como bem público ? Em segundo lugar, seriam as segmentações e especificidades de cursos e disciplinas (como, por exemplo, Economia Agroindustrial ou Biotecnologia), além das suas curtas durações (entre dois e cinco anos, com predominância cada vez maior para o prazo mais exíguo) um fenômeno normal do círculo universitário ? Em terceiro lugar, seria, de fato, a universidade o ente dotado de exclusiva (ou principal) legitimidade acerca da apreensão do conhecimento quando se tem em conta o fenômeno descrito no questionamento anterior ? Em quarto lugar, seria a seleção dos “melhores” dentre os pretensos ingressantes o íngrediente para a dita perenização da universidade como local de excelência da produção científica da sociedade ? Em quinto lugar, que legitimidade teria a conceituação dessa produção científica perante a sociedade e a si mesma caso ela de fato não seja produto da totalidade do corpo social ? Finalmente – e uma das questões mais relevantes – é possível afirmar, de fato, que a escassez de recursos que leva ao uso da meritocracia como elemento definidor da composição da universidade seja um fato dado ou, ao invés disso, uma condição que remete linearmente às limitações do sistema econômico vigente ? Todas essas questões, de alguma maneira, amarram a universidade à meritocracia, e indicam a dependência de uma perante a outra para o seu funcionamento.

O que se está tentando mostrar é que a relação entre a universidade e o modo de produção capitalista foi um dos fatores mais relevantes na ascensão do método meritocrático de ingresso, que serviu historicamente primeiro para controlar a demanda cada vez maior por parte de segmentos da sociedade que ascendiam economicamente mas não dotavam dos títulos acadêmicos que lhes dariam, em primeira instância, o status social que almejavam e, a seguir, a permanência no segmento social objetivado, para que, então, reproduzissem a lógica de busca de júbilo que o sistema econômico lhes garantia por meio da conquista progressiva de poder. Secundariamente, o método meritocrático contribuiu para a renovação dos quadros superiores da sociedade, dando-lhe o dinamismo necessário para tornar mais eficiente a gestão dos recursos mercantilizáveis. Terciariamente, a meritocracia, mais um elemento capturado por uma noção cada vez mais centrada na mercadorificação das coisas e no aumento da eficiência da totalidade do sistema (de acordo com noções peculiares sobre o significado de tal eficácia, conforme já mencionado), também foi reificada, tornando-se um elemento de comercialização e disputa entre setores médios da sociedade, cada vez mais influenciada pela significância do termo “merecimento”; mais contemporaneamente, a noção do self made man with no strings attached, ou seja, o indivíduo que conquistou o “seu lugar ao sol” sem depender de ninguém. Esse processo levou, obviamente, a uma grande dinamização de outros setores da sociedade que não a própria universidade, especialmente o mercado de trabalho e a educação basilar privada. Enquanto isso, no plano essencialmente internacional, o setor público se comprometeu cada vez mais com empréstimos vultosos, a fim de tentar estancar aumentos expressivos de déficits orçamentários e, implicitamente, se adequar à era cada vez mais presente do capital virtual, não produtivo, empregado em larga escala nos setores privados e por países com disponibilidade monetária para fazê-lo. Nesse meio termo, a eficiência do Estado em gerir recursos passou a ser cada vez mais contestada, a tal ponto em que, em nome da já pronunciada “alocação racional de recursos”, o setor privado se ocupasse cada vez mais em coordenar atividades até então intrinsecamente ligadas ao poder público (especialmente as de caráter econômico), enquanto a legitimidade, elemento político da mais alta relevância para a permanência da ordem institucional, centrou-se no Estado, capaz, à esta altura, de perenizar o discurso também altamente em voga da democracia representativa, outra espécie de meritocracia, desta vez atrelada mais diretamente às questões referentes ao controle do poder, e que se fez passar como sendo a realização plena das capacidades políticas humanas dentro de um órgão de grandes proporções, da mesma forma em que assentava, de maneira implicitamente análoga ao resultado dos processos de seleção da universidade, a divisão social do trabalho e, com isso, sedimentou a imobilidade das relações de poder na sociedade sob uma outra perspectiva – a política – já que contribuiu, pelo distanciamento cada vez maior dos indivíduos perante o primado da auto-representação, para a despolitização dos grupos sociais.

O espaço segmentado, e não permeável à sociedade que é ocupado pela universidade é outro momento em que a meritocracia, ainda que implicitamente, se faz presente. A construção de um campus vasto, inserido num local razoavelmente distante do centro da cidade carrega uma noção implícita da universidade como sendo uma estrutura diferenciada da sociedade, como um local criado para um fim específico, não compartilhável com outras aitividades desenvolvidas pelo resto da sociedade. Em certa medida há, mais uma vez, o forte elemento da busca pela eficiência, que leva a criação de espaços cada vez específicos para o melhor desenvolvimento de funções cada vez mais específicas. Dentro da universidade, o processo de separação de funções também é parecido, o que leva constituição de faculdades distantes entre si e a concentração de funções específicas em cada setor do campus. Isso, obviamente, também atende a um claro entendimento da universidade como casa do saber, como espaço de aplicação dos princípios positivistas – a busca da objetividade, de se fazer a “verdadeira” ciência. Temos, então, num primeiro plano, o espaço universitário, em razão da fragmentação explicitada, como aquele que se coloca na posição legítima, historicamente, de “pensar” a sociedade. Evidentemente, os planos se interseccionam intimamente, e é dessa maneira que se constitui, sob outra perspectiva, a noção de meritocracia – que contribui, como será visto a seguir, na construção da totalidade ideológica que é apropriada nas subjetividades e reproduzida pelas mesmas. Os muros construídos no entorno da universidade carregam a compreensão de que a exterioridade à ela abriga seres e estruturas que não têm relevância para a constituição daquela, seja por um aparente “risco” à sua integridade, seja pela noção de que o que é produzido fora dela não contribui para o cumprimento da “missão histórica da universidade. Desta forma, vem à tona dois princípios que compõem fortemente a existência universitária e que tornam-na essencialmente meritocrática. O primeiro é o de que quem “ingressou de fato” na universidade por meio do vestibular é quem tem a (única) legitimidade para usufruir de suas estruturas físicas. Quem não “pertence” à instituição de alguma forma se apresenta como um “risco” à sua existência, por mais que, em tese, a universidade tenha mantido o seu discurso de servir à toda a sociedade. O segundo é o de que as relações estabelecidas no seio do cotidiano da sociedade não têm qualquer relevância para a maioria dos estudos exercidos dentro da universidade. Não só porque, como será visto a seguir, não interessa aos interesses predominantes que regem os rumos da universidade como, de fato, não são caracterizados como “ciência”, como conteúdo racionalizável e coerente com o caráter “rigoroso” daquela instituição. Nesse entendimento, aprofunda-se a noção, inclusive, de que o que é produzido dentro da universidade é “teoria”, e os eventos externos, a “prática”. Isso faz parte, obviamente, da separação de funções existente na sociedade (trabalho intelectual versus trabalho material). Com essa divisão, aos universitários faz-se crer que são os únicos capazes de aliar os dois conteúdos – já que lidam com o único conhecimento teórico válido, a saber, o produzido dentro da universidade e, ao saírem da mesma, enfrentarão mais preparados o mercado de trabalho, tido como o mais próximo da “prática”. Entretanto, mesmo nesse caso ocorre uma insatisfação por boa parte do quadro discente: muitos acham que a universidade deveria preparar melhor para o mercado de trabalho ao invés de se preocupar tanto com o conhecimento não perfeitamente instrumentalizável. Embora vagarosamente, a universidade tem se dirigido nessa direção.

A aparente contradição vista no parágrafo anterior (que opõe o dito sentido público da universidade à sua privatização) é resolvida a partir do momento em que se enxerga, mais uma vez, a simbiose entre setores da universidade e do famigerado mercado. Nesse sentido, a universidade transparece como sendo não um espaço acadêmico, mas sim uma empresa, um local que não atua mais sob a égide da busca pelo desvendamento das questões sociais, mas sim pelo atendimento a uma demanda exógena ao caractere humano, símbolo cada vez mais presente do sistema capitalista em seu momento pós-moderno. Ou seja, a mais-valia. Essa alteração na função do positivismo nos rumos da ciência desvirtua-a em seu discurso interno (não se busca mais necessariamente a “verdade”, mas aquilo que é mais “eficaz” – há, portanto, uma instrumentalização da metodologia científica pelos interesses mercadológicos), e leva a universidade a perder a sua função de agente histórico, de vanguarda nas transformações sociais – agora, cada vez mais, ela é simplesmente reativa aos interesses mencionados. Ainda assim, o nó meritocrático não é desfeito: pelo contrário, ele é apertado, na medida em que se concebe que essa instrumentalização da universidade por um interesse cada vez mais parcializado permite àqueles que funcionam como elementos de sua efetivação dentro da universidade como “especiais” nesse novo jogo – ao saírem desse primeiro estágio, poderão, em tese, desfrutar de posição privilegiada no mercado de trabalho; eventualmente poderão liderar esse processo numa geração futura. Isso quer dizer que a disputa por uma vaga no ensino superior aumentou cada vez ainda mais, e é esse o caractere subliminar que reforça a meritocracia universitária. Essa dinâmica altamente competitiva também contribui para que a universidade reforce seu caráter fabril – desta vez, de diplomas, que se tornarão instrumento diferenciador no mercado de trabalho em geral e na própria academia.



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