A Meritocracia e a Vivência Universitária: críticas e concepções (3 de 3)

08mar07

Outro ponto de extrema relevância no que toca à compartimentalização dos espaços dentro da universidade é a evidente divisão física e teórica existente entre as faculdades dos campus, fenômeno presente na maioria das universidades públicas. Este é mais um caso em que se busca cada vez mais o aprofundamento de questões intra-disciplinares (cada vez mais técnicas e, portanto, com linguagem exclusiva – o que exclui a imensa maioria da sociedade de seu debate), em detrimento do afastamento do entendimento transdisciplinar dos conteúdos ditos científicos. Gradativamente, há um interesse em desvendar processos que, dada a sua especificidade, atendem a nichos cada vez mais restritos da sociedade; observa-se aí, mais uma vez, uma correspondência entre problemáticas pontuais, geralmente voltadas à resolução de casos práticos, realizadas por setores do mercado de trabalho. A necessidade de se aperfeiçoar os recursos despendidos e a busca de uma análise mais pura (entendida, inclusive, como desideologizada), reflete no afastamento físico entre os departamentos e faculdades. Isso, obviamente, torna a universidade sem uma noção própria de todo, o que contribui para uma visualização cada vez mais evidente desse espaço como de caráter “produtivo”, on demand, sem uma preocupação reflexiva, que leva a uma mecanização da vida universitária (já que se abstém do “pensar crítico”). Mais ainda, interfere dramaticamente nas relações sociais e na formação individual de todos que vivem nessa realidade.

Diante do já descrito processo de isolamento da universidade, em que cada vez mais se criam entraves para o relacionamento desta com a sociedade, torna-se mais claro outro processo existente dentro desse meio. Em conjunção com a contundente segmentação física dos espaços, a fragmentação positivista dos estudos, um enorme senso pragmático por parte dos alunos, e a origem mais ou menos homogênea entre estes, a distinção do espaço universitário cria, inelutavelmente, uma cultura social e política próprias, uma espécie de “bolha” universitária, em que podem ser observados comportamentos e sensos comuns tácitos em comum entre os frequentadores do campus que, por isso mesmo, são dificilmente apreensíveis pelos mesmos. Por meio desse processo, a mecanização da vida universitária se torna inquestionável. Ao contrário do que possa parecer, contudo, essa antropologia própria não significa uma refração a modelos comportamentais exógenos ao espaço universitário – o fato é que muitas dessas atitudes peculiares são desenvolvidas inicialmente fora da universidade, por meio de processos pedagógicos e relacionais que remetem ao cotidiano de cada indivíduo durante a sua formação pré-universitária. A condição de classe é, certamente, um dos fatores determinantes para essa homogeneidade, que se atesta no ingresso meritocrático à universidade. O jovem de maiores posses, como todos os demais, passa por um processo de rotinização de sua vivência, em que, por meio das experiências vividas, consolida determinadas percepções de mundo. Ao não conviver com pares de condição econômica radicalmente distinta, ele carece de um entendimento de si mesmo e da realidade que lhe permita questionar enfaticamente o mundo em que vive. Como caracteriza o sociólogo Boaventura de Sousa Santos, os topos (lugares comuns), ao se agregarem criam um topoi (elemento máximo formador de uma cultura). Cada agrupamento social, por mais que seja de tamanho ínfimo, desenvolve laços em comum após certa convivência. Numa sociedade em que as similitudes econômicas acabam por moldar mais fortemente comportamentos sociais análogos (e cujas grandes diferenciações econômicas permitem a formação de grupos mais coesos internamente), torna-se possível à boa parte dos jovens que ingressam na universidade pública terem essas concepções em comum. Entretanto, ao contrário do que se imaginaria, essas convergências não se dão num plano mais ou menos objetivo, como por exemplo a afinidade política, o gosto musical, o estilo de vida ou mesmo o time de futebol. Na verdade, essa convergência não se dá nesses fins, mas sim é procedimental, muito mais de caráter relacional, por mais que hajam óbvias discrepâncias aparentes entre cada indivíduo. Ainda assim, essas indiferenças mencionadas resultarão, dialeticamente, num determinado tipo de interferência na sociedade e, certamente, numa apreensão individual de tal circunstância. A sociedade pós-moderna, um dos cenários em que parte desse processo pode ser observado, não é um fenômeno que abarca a totalidade das sociedades e das classes. É muito mais uma condição que se coaduna com o que se verifica na vida universitária, já que esta não é só passiva desse movimento ideológico, ela naturalmente interfere-no e, por circunstâncias ligadas ao sistema econômico vigente (que influi fortemente nesse meio), torna-se um veículo expansionista de seus princípios, que em última instância contribuem para a potencialização das relações econômicas praticadas e para a alteração do tipo de relação social encontrado em outros meios.

Dessa forma, um ponto nevrálgico em que essas relações peculiares se manifestam mais abertamente são as interações sociais. Pode-se dizer, em geral, que cada individualidade possui, em volta de si, uma espécie de espaço público, região em que ela manifesta, como o termo apresenta, publicamente determinados fatos, concepções e experiências. Ao mesmo tempo, e concentricamente à esfera anterior, o indivíduo ostenta um espaço privado, região íntima, onde mantém reservadas à pessoas extremamente próximas fatos, concepções e experiências que julga desnecessário compartilhá-las publicamente. A subjetividade, elemento interiorizado em cada ser, contribui para a seleção das informações mencionadas. De maneira bastante genérica, é possível observar que em círculos sociais em que há homogeneidade de condições sócio-econômicas inferiores, há, evidentemente, preocupações e concepções radicalmente diferentes das existentes num meio onde o status econômico é mais elevado. Ao mesmo tempo (e, em parte, em razão disso), nota-se que o espaço público individual se conforma numa espécie de esfera de grandes proporções: ou seja, há um grande compartilhamento de informações e experiências, o que leva a crer que a noção de coletividade e de uma despreocupação com questões como o status social perante outrem. O espaço privado é bastante restrito, o que faz crer num forte senso de confiança entre as individualidades. Nas classes mais abastadas e, por extensão, no meio universitário, a divisão entre os processos se inverte: o espaço público é restrito, e o espaço privado ocupa quase a totalidade das informações compartilháveis por cada indivíduo. Pode-se depreender daí uma clara noção individualista – e, por dedução, a falta de uma noção de coletividade – além, indubitavelmente, de um senso competitivo e de uma falta de confiança entre as partes. Como se pode ver, ao mesmo tempo em que produzem um determinado padrão de vida, esses grupos sociais também expressam uma concepção diferenciada de interação social. Conforme as subjetividades apreendem certas experiências vividas nesse meio (pela interseção e sobreposição da relação familiar, das microrrealidades vividas nos círculos de amizades, dos processos pedagógicos, das captação de um determinado cotidiano – especialmente imagens em comum), elas reverberam em determinados comportamentos tácitos que, evidentemente, se interrelacionam e permitem a contínua auto-transformação. No mundo universitário descrito, embora haja cisões políticas, preferências musicais e estilos de vida quase que diametralmente opostos, a maneira de exercê-los é razoavelmente a mesma, assim como se dão os relacionamentos entre os indivíduos. Duas pessoas que gostem de tipos musicais totalmente distintos apresentam, na realidade, maneiras peculiarmente parecidas de apreciá-las. Dois indivíduos, mesmo que opostos em termos de extroversão/introversão, terão um tratamento similar às pessoas. No caso uspiano, é notória a superficialidade das relações humanas; a constituição de laços mais profundos, de amizades, escasseia; mesmo quando ocorre (em geral após anos – e não meses, como em outros meios), se dá por meio de uma relação diferenciada, muito mais como consequência de uma afinidade de escopo menor – afinidade política, por exemplo – do que em razão de experiências de vida de grande escopo, ou mesmo sem razão aparente (simplesmente se um indivíduo é simpático ou não, como também ocorre em outras realidades). Embora essa homogeneidade comportamental possa ser observada em diversos outros aspectos, o seu caractere primordial é, certamente, o tipo de relacionamento humano, possivelmente tido como frio, pragmático e, se não superficial, “politicamente correto”. Aquela esfera influencia dramaticamente no entendimento das demais, interferindo em suas concepções, já que, necessariamente, estas (como a ação política) precisam do elemento humano para ocorrerem. A meritocracia, nesses termos, tem papel essencial na definição dessa realidade e, portanto, na existência da vida universitária como realidade peculiar à vida societal. Todavia, como aquela não é perfeitamente eficaz na seleção de indivíduos com a homogeneidade comportamental explicitada, ocorre invariavelmente a entrada de indivíduos com concepções de vida radicalmente distintas daquelas. O choque social, nesses casos, é de enormes proporções, primordialmente para quem é “diferente”. Sendo minoria, e por mais que possa apresentar determinadas afeições pontuais com aspectos presentes na antropologia social dominante, ele é, em geral, hostilizado, por mais que, no caso da vivência praticada na cidade universitária exista, objetivamente, um culto ao já mencionado “politicamente correto”. Por ser um momento de elevada importância na vida do jovem (já que, dentro desta sociedade, significa a oportunidade de alcance do “sucesso profissional”), o ingresso na universidade apresenta consequências que se estendem por todo o resto de sua vida. Resta a ele, em razão desse conflituoso processo, poucas saídas: a alienação de sua subjetividade, ou seja, a assimilação e sujeição aos padrões comportamentais predominantes, em busca da aceitação do grupo e, assim, uma convivência, em tese, menos conflituosa; a fuga completa dessa realidade em nome da crença e manutenção de seus valores, que poderá resultar em total isolamento e, em geral, numa passagem traumática pela vida universitária; a busca por indivíduos que lidam com o mesmo problema, a fim de formar um grupo coeso que se una, principalmente, pela negação a esses princípios majoritariamente presentes na universidade – o que pode gerar afastamento, mas sem sensação de exclusão social.

E por que essa análise do comportamento social dentro da universidade se torna tão relevante ?



No Responses Yet to “A Meritocracia e a Vivência Universitária: críticas e concepções (3 de 3)”

  1. Deixe um comentário

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s


%d blogueiros gostam disto: