Notas sobre teoria do valor

08mar07

PRADO, Eleutério. Desmedida do valor: crítica da pós-grande indústria. São Paulo: Xamã, 2005. pp. 11-13

Antes do capitalismo, o valor não existe como tal, porque ainda não existiam as próprias condições de formação do tempo trabalho socialmente necessário que põem como indiferentes entre si os tempos de trabalhos individuais empregados na fabricação de produtos para o mercado, ou seja, a produção orientada pelo capital industrial e submetido às condições da livre concorrência. Assim, antes do capitalismo o “valor” (as aspas no termo indicam que não se trata de valor plenamente constituído) apenas podia-se formar ao nível das trocas por meio de uma síntese objetiva dos tempos de trabalhos individuais empregados na produção. Dito de outro modo, os tempos de trabalho consumidos na produção eram considerados de algum modo diretamente nos preços de mercado. Ademais, como se sabe, antes do capitalismo a produção ainda não era plenamente mercantil – a força de trabalho, por exemplo, ainda não era mercadoria. De forma abreviada, pondo explicitamente a contradição, “isso significa que ants do capitalismo, o valor não é mas que ao mesmo tempo ele é” (FAUSTO, 1983, p.112), ou seja, antes do capitalismo o valor está apenas em potência. O valor, pois, só pode existir no capitalismo.

Entretanto, a lei do valor, segundo a qual os preços de mercado têm de refletir, em média, o conteúdo de valor das mercadorias, não pode valer no capitalismo. Pois, se capitais iguais têm de ter lucros iguais, como diferem as composições orgânicas dos capitais investidos na produção, os preços de mercado têm de oscilar em torno de atratores (os quais Marx, como e sabe, chamou de preços de produção) que se desviam dos valores. Donde se pode concluir, novamente pondo a contradição explicitamente, que “o valor só é quando ele não é” (FAUSTO, 1983, p.120), ou seja, que ele é apenas por meio da sua própria transformação objetiva em preços de produção. Ora isto, significa que o valor – essência do modo de produção capitalista – é negado ao nível dos preços que são, como se sabe, fenômenos emergentes nos mercados, mas que se distribuem em torno dos próprios preços de produção. Mas, nesse caso, são os próprios capitais que comandam os montantes de mais-valia por meio dos quais se valorizam, ainda que para os capitais em conjunto o total de mais-valia lhes seja dado.

No capitalismo, pois, o valor só existe como “valor” (trata-se agora de valor pressuposto ou valor antecedente ao preço de produção, que de agora em diante tomará esse sentido sem as aspas, para não sobrecarregar o texto); em seu lugar é posto como efetividade o preço de produção. Porém, essa conclusão não dissipa todas as nuvens que cercam este conceito, assim como a questão concernente à sua validade efetiva no interior mesmo desse modo de produção. É preciso perceber, também que o evolver desse conceito dentro próprio capitalismo apresenta certas complicações. Em primeiro lugar porque as condições objetivas adequadas de formação do valor na produção só ocorrem, na verdade, na grande indústria capitalista pois só aí, quando passa a valer o que Marx denomina de “princípio objetivo”, é que o capital passa a controlar plenamente o tempo de trabalho. E o faz submetendo a força de trabalho ao regime de produção inerente à lógica dos sistemas de máquinas. Aquém e além da grande indústria, a atuação da subjetividade dos trabalhadores, assim como aquilo que põem enquanto trabalham, cria obstáculos para a homogeneização dos tempos de trabalho. Ademais, as condições objetivas plenas para a redução dos tempos de trabalho individuais a tempo de trabalho socialmente necessário (o que evidentemente depende da concorrência de capitais e da existência de mercados de força de trabalho irrestritos) apenas existem em condições de capitalismo de livre concorrência. É, pois, apenas em condições de capitalismo concorrencial que a lei do preço de produção – tal como se encontra no terceiro volume de O Capital – não encontra barreiras poderosas para se efetivar.

Referência Bibliográfica

FAUSTO, R. Marx: lógica e política. Investigações para uma reconstrução do sentido da dialética. t.I. São Paulo: Brasiliense, 1983.



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