Reflexão: tecnologia e crítica

17mar07

A partir de algumas leituras autônomas e tendo como base algumas idéias sobre o funcionamento do capitalismo naquilo que Ruy Fausto classifica, a partir da leitura dos Grundrisse, de pós-grande indústria, busco articular algumas de minhas idéias a respeito do papel dos processos de reprodução e gestão do conhecimento para compreensão dos rumos do capitalismo contemporâneo. Obviamente tenho noção da incipiência de meus conhecimentos a respeito do tema, e do que  representam minhas parcas reflexões agora, mas naquilo que compreendo ser o sentido deste espaço, expresso aqui os frutos presentes daquilo que pretendo transformar em pesquisa efetiva, seja por leitura da produção contemporânea sobre o tema, ou mesmo para inaugurar, dentro das claras limitações, este campo de pesquisas em terras nacionais (como clara expressão de megalomania).

Espero que possam mesmo dar uma rápida lida e, eventualmente, comentar…

Reflexão preliminar sobre o papel das tecnologias comunicativas na articulação política crítica contemporânea

 As visões mais pollyannas de análise histórica do desenvolvimento tecnológico costumam enxergar a escala exponencial das inovações e as conseqüentes possibilidades derivadas como tendência inegável da libertação que a tecnologia traz ao homem. Vislumbrados com a atual dinâmica dos mercados de altíssimo valor agregado e o papel que tem a tecnologia em sua manutenção, celebram até, em última instância, a criação de gadgets como a mais nova invenção da Raytheon – a arma de microondas ADS, capaz de causar dor intensa e angustiante sem matar, para controle de manifestantes – sob as alegações de segurança e redução de custos às forças armadas e polícias. Deve-se notar, entretanto, que a inovação traz apenas possibilidades, e não certezas cristalizadas.

Tendo como foco, como exemplo, o campo do desenvolvimento de tecnologias comunicativas, podemos compreender, até certo ponto, as bases de fundamentação de tal perspectiva.

O impacto da primeira grande invenção tecnológica no campo da comunicação, a linguagem escrita, não se resume às possibilidades de registrar história ou facilitar a comunicação entre homens, mas revoluciona a relação que este tem com o tempo, lhe incute a tendência à organização de suas ações e de seus espaços, além fundar sua dimensão subjetiva de reflexão pelos atos da leitura e da escrita, em contraposição às anteriores compreensão mística e sazonal do tempo, à dinâmica inconstante das ações sem a referência pura do texto como lei e à dimensão única, de caráter coletivo, processo de aprendizagem. Acompanhando a curva tecnológica, com a invenção do pergaminho e do papiro em substituição das às placas de argila e inscrições em paredes, o homem aumenta a portabilidade dos textos escritos e torna-se capaz de difundir informações em escala continental, permitindo o contato reflexivo de distintas culturas muito. Posteriormente, a invenção da imprensa, na Europa representa outra etapa revolucionária nas tecnologias comunicativas, ao reduzir incrivelmente os custos de reprodução dos textos, facilitando sobremaneira o acesso e a difusão das informações, com reflexos evidentes na sociedade. Tratava-se então desde a expansão dos debates, da retomada a leitura de clássicos da Antiguidade, da publicação ampla de jornais, da ameaça à hegemonia da interpretação católica da Bíblia até a defesa dos valores socialistas publicamente. A revolução eletrônica, com o advento do rádio, do cinema e da televisão, apresenta uma nova forma de produzir e distribuir informação que se estende de tal forma que define as fronteiras nacionais. Não obstante, como nota Walter Benjamin, essas novas mídias e, particularmente, o cinema, traz uma nova forma de se relacionar com a realidade, como elemento intermediário que nos apresenta uma versão da realidade tão poderosa e viva, mas explicitamente efêmera, ao passo que, em mal termos apreendido um quadro, outro rapidamente nos é apresentado.

Por fim, encontramo-nos no início da revolução digital, que nos apresenta novas possibilidades de contato quase que instantâneo com restante do planeta, ao mesmo tempo em que fortalece um duplo canal de participação dos homens: não apenas agiam como receptores de informações, o que fora fortalecido na revolução anterior, mas também poderiam participar do processo de construção e difusão das idéias, apresentando uma multiplicidade de opções nunca antes vista.

Continuemos assim e o homem romperá efetivamente os bloqueios estruturais rumo à construção do verdadeiro espaço público de diálogo, correto? Se ainda deixas biscoitinhos com leite quente ao Father Christmas em véspera de Natal, não verás reais objeções ou movimentos de refluxo a inevitável ventura para a construção do mundo livre! Prefiro pensar que não.

O recorte histórico feito sob essa perspectiva se revela extremamente problemático ao compreendermos mais profundamente os contextos que conjuraram seu contorno. As tecnologias da escrita, da imprensa e da mídia de massa surgem em contextos específicos e são utilizadas de diferentes formas, com distintos propósitos políticos, os quais se efetivam por condições que estão além da mera existência de tais tecnologias. Por milênios a escrita foi restritos a uma ínfima parcela da população, que mantinha os demais alijada da condução dos processos políticos, salvo raras exceções. A divisão de estratos ou classes sociais bem delimitadas pôde manter-se por longo tempo.

Com o surgimento do capitalismo, acompanhando o processo de difusão da imprensa, garantiu-se a expansão da consciência política e da defesa e luta dos interesses de classe. Nesse sentido, se reconhece os papéis de extrema importância das diversas publicações tanto de caráter liberal-burguês, quanto de caráter socialista, que acompanharam as lutas políticas principalmente do século XIX. A revolução eletrônica, entretanto, já é acompanhada de um período do capitalismo em que os custos de difusão da informação aumentam consideravelmente (o curta-metragem Humanity Lobotomy apresenta como dados o fato de que a tecnologia para a construção de uma prensa para publicação de discursos no século XVI custava em torno de US$ 10.000 correntes, ao passo que no durante a Guerra de Secessão norte-americana, a manutenção de um jornal de circulação razoável já havia atingido o custo de U$ 2,5 milhões). Acompanhando esse processo, há uma mudança do modelo de negócios que sustentava os jornais com a introdução da publicidade. Dessa forma, a mídia tornou-se unilateral, impedindo manifestações de opiniões divergentes, ao mesmo tempo em que transforma os leitores em produtos a serem vendidos para os anunciantes. Estes não teriam mais seus interesses contrariados por editoriais e matérias diversas.

A mesma coisa se deu com o rádio e com a TV. Nos países centrais, a introdução de tecnologias modernas de transmissão de informação via rádio difundiu a prática de radioamadorismo, até que a regulamentação das rádios comerciais, que deviam pagar caríssimo por concessões públicas e teriam acesso a espectros por todo o país, reduziu a limitou a prática consideravelmente. Aqui, leva-se em conta o papel dos Estados que, articulando com grandes capitalistas contra o interesse público, instituem práticas tais até mesmo para fortalecer sua ação por todo o país. Como é bem sabido, a rádio fora essencial para a difusão das propagandas nazi-fascistas na Europa. Mas seguiram rumos extremamente verticais e autoritários nas liberais-democracias. A televisão, um caso em especial, surgiu como um meio restrito pelos altos custos de manutenção tanto das produções quanto da distribuição, mantendo-se assim por um bom tempo.

É bem verdade que mesmo algumas das perspectivas mais ingênuas consideram algumas dessas condições para a compreensão do que significa a revolução da internet e para sua caracterização de meio efetivo de participação democrática na produção de conteúdo. Entretanto, não são capazes de compreender os movimentos que o capitalismo contemporâneo toma a fim de garantir a manutenção da lucratividade. O que parecia ser um espaço livre começa a sofrer diversas ameaças.

A internet fora construída, na academia americana, utilizando a antiga Arpanet militar e é desenhada para que os fluxos de informação se relacionem sem hierarquia. Com o hipertexto, ligam-se informações de locais muito distantes fisicamente sem qualquer problema que não seja que ambos estejam conectados à internet. E sua evolução, com o aumento das velocidades de tráfego e o surgimento de tecnologias que convergem música, imagens e vídeo, possibilitou uma queda brutal nos custos de utilização dos meios de comunicação, nos custos de difusão, produção e reprodução de conteúdo diverso. Não obstante, a tecnologia P2P (peer-to-peer), que permite a conexão entre computadores para atuarem simultaneamente como servidores e terminais, dissolve de vez o último dos bloqueios para a construção de canais livres de difusão de qualquer forma de informação, uma vez que prescinde dos caros servidores dedicados. Hoje, pode-se montar, a um baixíssimo custo, se comparado com as mídias tradicionais, jornais eletrônicos, canais de rádio e até mesmo canais de televisão, com programação em ordem pré-determinada ou até mesmo personalizável. Nos Estados Unidos explodem as produções de curtas e séries independentes publicadas em sites como YouTube, e o surgimento dos blogs jornalísticos concretizaram-se como um contraponto às mídias tradicionais.

Dito isso, não é necessário ressaltar que essa ameaça a hegemonia das grandes corporações de mídia e de produção de conteúdo não foi recebida com flores por todos. No setor de produção de conteúdo, as empresas fortaleceram sua articulação e, desde de meados da década de 1990, difundem por todos os países do mundo a necessidade de rigor no combate a pirataria, ameaçando o funcionamento dos espaços livres e horizontais de difusão de dados (redes P2P). Aliado a isso, vemos as maiores operadoras telefônicas dos Estados Unidos (AT&T, Verizon, Cingular etc), país que praticamente mantém a internet ativa, começaram a articular seus lobbies a fim de transformar a internet em algo novo, muito mais rápido e eficiente. Entretanto, para isso, eles exigem deter o controle sobre esta. Isso lhes permitirá atacar aquilo que é a base da estrutura horizontal da internet: a conexão de cada usuário. Poderão não apenas cobrar tarifas especiais para quem quiser navegar e divulgar na internet com velocidades razoáveis, como poderão identificar o que é distribuído e bloquear a articulação de alternativas às grandes produtoras de conteúdo. O que é, atualmente, 60 % da produção da internet, essencialmente amadora, deverá cair substantivamente para taxas menores que 5%, semelhantes a configuração do caráter das produções das demais mídias. E sequer menciono os projetos fascistóides de controle e fiscalização da navegação na internet, sob vistas de combater terrorismo, crimes sexuais e pirataria. Já há tecnologia para tudo isso.

Apesar disso, articulação política de diversas entidades e ativistas nos Estados Unidos, que teria sua gigantesca produção independente muito afetada por isso, pôde barrar o projeto das Teles em seu estágio inicial. Isso não significa, porém, que estamos livres de qualquer tentativa de controle por parte da grande indústria de telecomunicações e seus ramos de produção de conteúdo. Soluções como o Joost, que aparece como uma plataforma P2P de transmissão de TV pela internet, procuram conciliar os interesses públicos com o interesses das grandes indústrias, mas tendem a fortalecer o poder destes últimos frente aos direitos dos primeiros (como a própria restrição a produção de conteúdo independente imposta pelo Joost nesse caso, que ultimamente exibe apenas programação da MTV e outros produtos comerciais). Se pegarem, transmutarão discretamente o caráter da rede.

Busco, com essa reflexão um tanto desfigurada, atentar para o fato de que o desenvolvimento tecnológico, ao trazer em si enormes possibilidades e nos deslumbrar com futuros utópicos, detém também os elementos que podem nos aprisionar eternamente à relação de reificação do homem e subjetivação do capital, cada vez mais fictício, sob as formas de ativos financeiros e da escassez artificial do conhecimento. Ao momento em que o capital atenta controlar o que pensamos, tendendo a controlar a produção intelectual e os espaços de reflexão, pouco de consciência sobra para a reciclagem e para a constante renovação do pensamento crítico. Nesse sentido, faz-se de extrema urgência a reflexão crítica do papel da tecnologia em si como forma de lutar contra essa tendência.

Precisamos nos apropriar efetivamente desses meios, não só como forma de compreensão da prática política nesses estados, mas também para pensar quais os possíveis usos futuros que deverão ter essas tecnologias, a fim de garantir o contato mais amplo com o mundo e fortalecendo os essenciais e tradicionais espaços públicos de articulação tête-à-tête. Considero essa discussão basilar.



One Response to “Reflexão: tecnologia e crítica”

  1. 1 Jonas

    PH,
    Embora seu objetivo seja refletir sobre as tecnologias comunicativas, acho que o que você esboçou aponta para questões inclusive mais amplas. Acho também que você acabou por tocar nA questão, qual seja: que o desenvolvimento tecnológico pode significar tanto um potencial de liberdade quanto um de aprisionamento (não há “certezas cristalizadas”, o que seria naturalizar e essencializar o debate). A definição da substância deste desenvolvimento claramente é o resultado de um embate político, o qual podemos formalizar algo que você mesmo explicitou em algumas passagens do texto como sendo um embate entre as verticalidades (a articulação entre o Estado e o Capital) e as horizontalidades (“o espaço livre de diálogo”, “o interesse público”). Ok, até agora nada mais fiz do que retomar alguns elementos do texto. Como você mesmo disse, o texto tem um objetivo programático (que acredito, inclusive, que é o próprio papel do blog: sermos capazes de cristalizar esboços que possam ser ‘publicizados’ entre nós para futuro desenvolvimento coletivo). Neste sentido um programa para refletir sobre o papel da tecnologia no desenvolvimento do capitalismo contemporâneo teria necessariamente de passar pela trajetória intelectual da “Escola de Frankfurt”: Benjamin (o papel revolucionário do cinema e do rádio), Adorno (o pessimismo quanto à indústria cultural e à razão instrumental), Marcuse (a compreensão da ciência e da tecnologia como projetos que podem ser redirecionados rumo a uma nova relação dos homens com a natureza e dos homens entre si) e Habermas (a ciência como o motor do desenvolvimento econômico, o que implica na “desmedida do valor” e, portanto, no anacronismo da teoria do valor-trabalho). Outra coisa que seria interessante pensar e que eu fui tomando consciência a partir das aulas do Sevcenko (História Contemporânea) e do Raul (História do Pensamento Econômico), além do meu artigo (inédito, para não dizer incompleto ou impublicado) com a Renata sobre “teoria e prática” e da leitura de História e consciência de classe do Lukács (que recomendo forte e continuamente a todos vocês) é que o próprio conceito de ciência moderna necessariamente implica uma “contra-partida prática”. O Raul disse que, em oposição à concepção escolástica e contemplativa do pensamento medieval, a modernidade necessita de um pensamento que signifique uma intervenção transformadora da realidade (obviamente para a sua reprodução e não para a superação). Tanto o Estado quanto o Capital precisam de conhecimentos que sejam úteis para a sua auto-expansão compulsiva (desde a engenharia naval dos descobrimentos até a pedagogia das instituições educacionais modernas). E aqui temos revelada a inserção reificada e reificadora tanto das ciências exatas quanto das ciências humanas. O Foucault é um autor que pode auxiliar muito no segundo caso (por exemplo, o papel da psiquiatria para a normalização da sociedade por meio de hospícios, prisões e até mesmo terapias). Mas devo estar fugindo um pouco do tema. Depois deste breve panorama, acho que o que posso falar aqui de mais interessante é que muitos estagiários têm o mesmo interesse no assunto, mas que dificilmente conseguimos articulá-los para convergir em uma produção comum. Por exemplo, PH, Cris e Caio, para citar quem eu sei que estas questões são evidentementes fundamentais dentro de um projeto intelectual mais amplo. Não só isso, a galera da PUC-Rio também estava pirando no assunto, acho inclusive que a gente tem que chamar eles para postar por aqui as idéias deles (começar uma rede de pensamento crítico na comunidade de RI…). Enfim, espero que a gente comece a usar e abusar do blog para compartilhar as nossas pirações (não existe nenhum outro sentido para o espaço do que este). Minhas últimas palavras vão para provocar o Caio para postar por aqui algo que relacione a reflexão da produção de C&T com a economia política da guerra. Em última instância, fazer esta relação me parece ser o que “dá liga” aos diversos âmbitos de nossas reflexões (Fiori, Habermas, etc.), além de ser o elemento que “cria” criticidade e radicalidade para o projeto mais amplo. Ou seja: enquanto não formos capazes de indicar (ainda que provisioriamente) como a produção de conhecimento é funcionalmente monopolizada para fins do que o Paulo Arantes chamou de “duplo caráter da abstração capitalista” (os fetichismos do capital e do poder militar) também não seremos capazes de vislumbrar qualquer potencialidade crítica que dispute de fato o conhecimento para que ele se torne emancipador e não mais desumanizador (termino retomando o início: o grande embate entre os dados naturalizantes de verticalidade e os processos históricos de horizontalização).


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