Wallerstein e Fiori: lógica e política

21mar07

Wallerstein e Fiori: lógica e política

Jonas Medeiros 

Trabalho final para a disciplina “Leituras Orientadas” (2° semestre de 2006) coordenada pelo prof. Rodrigo Teixeira Alves (Depto. de Economia da FEA/USP). O tema deste Grupo de Estudos (auto-organizado pelos alunos de RI/USP) foi a Economia Política Internacional Contemporânea.   

 

Introdução 

Ruy Fausto, no primeiro tomo de Marx: lógica e política, define os dois extremos de sua investigação analítica e crítica de Marx como sendo: os fundamentos lógicos da crítica da economia política e a própria prática política. A reflexão deste trabalho se dará por meio de uma aproximação entre três autores: Marx, Wallerstein e Fiori. Nossa hipótese é que os dois últimos teóricos dialogam diretamente com a obra marxiana, porém dela se afastam ao não se constituirem como modelos de Teoria Crítica. Como veremos, seus projetos intelectuais consistem na atualização do campo da economia política para compreender a dinâmica de longo prazo do sistema capitalista. Na definição destes novos fundamentos, os autores contemporâneos se apropriam do pensamento de Fernand Braudel, aproximação esta que é responsável pelo deslocamento da centralidade do conceito “trabalho” como fator explicativo da alimentação do mecanismo social compulsivo que conhecemos por “capital”. A indissociabilidade entre lógica e política tal como encontramos em Marx será abalada, uma vez que o trabalho operava a união entre os fatores objetivos e os subjetivos. Com a origem da criação de valor deixando de ser explicada pela produção (a “teoria do valor-trabalho”) e sendo substituída pela força estatal (o que aqui nomearemos de “teoria do valor-poder”), caem por terra as condições que fundavam uma compreensão dialética do capitalismo, a qual apontava para uma sociedade mais livre e justa. Embora os esforços de Wallerstein e Fiori sejam necessários, a ausência de um esforço orgânico de analisar as potencialidades inscritas na realidade implica em graves – e indesejáveis, de um ponto de vista crítico – conseqüências para uma ação política transformadora.

1. Marx e a Teoria Crítica

Em Técnica e ciência como “ideologia”, Jürgen Habermas descreveu o projeto intelectual de Karl Marx da seguinte maneira:

Em meados do século XIX, o modo de produção capitalista tinha-se imposto de tal modo na Inglaterra e na França, que Marx pôde reconhecer o marco institucional da sociedade nas relações de produção e, ao mesmo tempo, criticar o fundamento próprio da troca de equivalentes. Levou a cabo a crítica da ideologia burguesa na forma da economia política: a sua teoria do valor-trabalho destruiu a aparência da liberdade com que a instituição jurídica do livre contrato de trabalho tornara irreconhecível a violência social subjacente à relação do trabalho assalariado.(Habermas, 1994:67)

Antes da análise das obras de Wallerstein e Fiori, pretendemos retomar a compreensão do capitalismo em Marx para dela derivar o conceito de Teoria Crítica. O capítulo 4 do livro 1 de O Capital foi escolhido como ponto de partida. Este capítulo se chama “A transformação do dinheiro em capital” e se divide em três seções: “A fórmula geral do capital”, “Contradições da fórmula geral” e “Compra e venda da força de trabalho”.

Na primeira seção, Marx está interessado em diferenciar a “circulação simples de mercadorias” da “circulação do dinheiro como capital”, cada processo consistindo em uma fórmula: M-D-M e D-M-D, respectivamente (sendo M=mercadoria e D=dinheiro). Na primeira, o objeto da circulação é o valor de uso (a troca entre diferentes qualidades) enquanto que no segundo, o objeto passa a ser o valor de troca como uma finalidade em si mesmo. Como este último processo seria insosso e redundante caso não ocorresse uma diferença quantitativa entre os dois D’s extremos, temos agora uma nova fórmula: D-M-D’ (sendo D’>D). No primeiro processo temos um movimento limitado, uma vez que sua finalidade é a satisfação de determinadas necessidades humanas: quando se atinge este objetivo, a circulação cessa. Entretanto, o segundo processo não tem limites: a diferença quantitativa não encontra uma conclusão, já que sempre é possível atingir uma quantidade maior. O resultado é um movimento insaciável e infinito de acumulação. Se a primeira fórmula denota uma economia mercantil simples, na qual a “produção visa a vida”, a segunda descreve uma economia capitalista, na qual a produção se autonomiza e visa somente a si mesma. Desta maneira, o capitalismo se define por ser um modo de produção cujo objetivo é a autovalorização do valor. Este é o sentido da fórmula D-M-D’: o capital é este movimento incessante de expansão quantitativa que resulta na sua caracterização como um sujeito cego e automático.

A segunda seção retoma o conceito de valor como “quantum de trabalho social objetivado”[1].

Marx agora vai buscar a explicação da origem do lucro, ou seja, como D se torna D’.

Em O Capital, ele dirá que a esfera da circulação das mercadorias é simultânea e contraditoriamente incapaz e necessária para se produzir mais valor. Já em Salário, preços e lucro, ele parte do conceito de “trocas equivalentes” para afastar da discussão a possibilidade de que o lucro se origine por meio de um aumento do preço da mercadoria com relação ao seu valor no momento da venda. Do seu ponto de vista, esta explicação redunda em uma suposição absurda, já que a sua generalização não resulta em um sistema econômico sustentável (sempre haverá perdas para todos: “o que alguém ganhasse constantemente como vendedor, haveria de perder constamente como comprador”[2]).

É importante contextualizar o seu pensamento, uma vez que Marx tem como objeto a economia concorrencial:

(…) postas à margem a influência exercida pelos monopólios e algumas outras restrições que aqui temos de passar pelo alto, vemos que todas as espécies de mercadorias se vendem em termo médio, pelos seus respectivos valores ou preços naturais. (Marx, 1978:79)

Ou seja, para descobrir a origem invisível do lucro, não é possível ignorar a troca de equivalentes: “os lucros se obtêm vendendo as mercadorias pelo seu valor”. Será o local oculto da produção que desvendará o segredo da valorização do valor, tema da terceira seção. Se a fórmula inicial do capital é D-M-D’, e D-M e M-D’ são trocas de equivalentes, então a modificação do valor do dinheiro se deverá à sorte do capitalista encontrar no mercado uma mercadoria muito peculiar e especial. Esta mercadoria será a força de trabalho, cujo valor de uso é exatamente a criação de valor por meio da objetivação do trabalho. A produção será um mediador da fórmula, que se expande para: D-M…P…M’-D’ (de forma resumida, temos D-M-D’). Marx dirá que a condição histórica da existência do capital (entendido como movimento de autovalorização do valor) surge do encontro entre proprietários dos meios de produção e meros proprietários das suas forças de trabalho, condição essa que encerra uma história mundial. Esta divisão entre proprietários e não-proprietários será efetuada por um desenvolvimento histórico que Marx chamou de “acumulação primitiva” (a atuação da força do Estado na criação da classe trabalhadora e das condições para que o capital se tornasse um sujeito automático). Em A ideologia alemã, Marx e Engels assim descrevem a lógica do capitalismo: O poder social, isto é, a força produtiva multiplicada que nasce da cooperação de vários indivíduos exigida pela divisão do trabalho, aparece a estes indivíduos, porque sua cooperação não é voluntária mas natural, não como seu próprio poder unificado, mas como uma força estranha situada fora deles, cuja origem e cujo destino ignoram, que não podem mais dominar e que, pelo contrário, percorre agora uma série particular de fases e de estágios de desenvolvimento, independente do querer e do agir dos homens e que, na verdade, dirige este querer e agir. (Marx, 1999:49-50)

Esta descrição do sistema capitalista seria teoricamente estruturalista e politicamente sufocante caso esta lógica do “poder estranho aos homens” não contivesse em si mesmo a chave para a sua superação. No prefácio do livro Luta por reconhecimento, de Axel Honneth, Marcos Nobre escreve que existem duas chaves para a emancipação presentes em Marx: “a do colapso interno, em razão da queda tendencial da taxa de lucro, e aquela da organização do proletariado contra a dominação do capital”[3]. Devido ao escopo limitado deste trabalho, aprofundaremos apenas o segundo fator. A força de trabalho é uma mercadoria muito peculiar não só porque ela é responsável pela criação de valor (é, portanto, o que alimenta a compulsão do capital no seu crescimento quantitativo) mas porque ela significa a mercantilização do ser humano. Marx e Engels escreveram que a superação da alienação acima descrita só pode ocorrer sob dois pressupostos práticos: a produção de uma massa destituída de propriedade (como já vimos esta massa de vendedores da sua força de trabalho é uma necessidade para a própria emergência do capital como sujeito automático) e o desenvolvimento das forças produtivas[4]. O primeiro elemento implica na existência de “indivíduos empiricamente universais”, uma vez que os proletários são os únicos que podem sentir aquele poder estranho que dirige seu querer e seu agir como alienação, como algo exterior a si mesmo no seu próprio cotidiano (na sua vida, no seu trabalho, no seu salário). Em As aventuras da dialética, Maurice Merleau-Ponty escreve que “o proletariado é a mercadoria se percebendo como mercadoria, distinguindo-se ao mesmo tempo dela”[5] e segue citando Lukacs, que “para essa classe [o proletariado] o conhecimento de si significa ao mesmo tempo um conhecimento correto da sociedade inteira… conseqüentemente… essa classe é a um só tempo sujeito e objeto do conhecimento”[6]. Tomar consciência de sua condição subjetiva significa para o proletariado não só conhecer objetivamente a dinâmica da sociedade capitalista, como também a possibilidade de criar seu próprio destino em vez de apenas sofrê-lo. Esta “teoria do proletariado” pode ser sintetizada da seguinte maneira: em oposição ao capital (esta força estranha aos homens), a consciência de classe do proletariado aponta para a ultrapassagem das contradições capitalistas e para o controle consciente e planejado da economia, o que vai inaugurar a reconciliação do homem com o próprio homem. O trabalho consiste simultaneamente em um fator objetivo da economia política (a criação de valor para outrém, a essência da relação social denominada capital) e em um fator subjetivo (a realização do reconhecimento e da intersubjetividade a partir da superação da desumanidade). É o elemento humano negado que conseguirá negar a sua própria desumanização levada a cabo pela mercantilização – em termos hegelianos, aqui está presente a negação da negação.Neste ponto somos capazes de derivar o conceito de Teoria Crítica a partir do pensamento marxiano. A primeira vez que o termo foi utilizado foi no artigo “Teoria crítica e teoria tradicional”, no qual Max Horkheimer defende que, como o mundo é fruto do trabalho humano, o pensamento radical pertence a uma luta contra o estabelecido e que a Teoria Crítica é “a face intelectual do processo histórico de emancipação do proletariado”. Vejamos o que isto significa. A Teoria Crítica tem como eixo central uma compreensão dialética da realidade: seguindo Hegel, o ser em parte já é o que deveria ser, assim como o dever ser em parte já é. Não existe uma diferenciação clara e distinta entre o ser e o dever ser, uma vez que a realidade é um processo contínuo no qual os atos são potências realizadas e as potências são atos que serão (ou podem ser) realizados. Do ponto de vista marxiano e da Teoria Crítica, a criação de uma sociedade mais livre e mais justa é algo que está inscrito no desenvolvimento do capitalismo, mas que por ele não é efetivado. A emancipação humana é concretamente possível, mas está simultaneamente bloqueada. A tarefa da Teoria Crítica está na compreensão teórica da sociedade (por meio de um diagnóstico da sua lógica estruturante) não como mera descrição, mas sim orientada pela realização prática para a emancipação (o norte de uma política transformadora). Desta forma, a lógica e a política são indissociáveis no contexto de um projeto teórico-crítico. No caso de Marx (criador do primeiro modelo crítico), o trabalho, como já vimos, opera a união da lógica do capitalismo com a política que será capaz de superá-la. O objetivo deste ensaio será verificar como o pensamento crítico contemporâneo em duas de suas vertentes trata a relação entre a lógica e a política, bem como repensa a centralidade do trabalho para entender o sistema capitalista.

Resumindo o argumento de Marx que percorremos, até agora: (1) o capital é um mecanismo social compulsivo na forma de um sujeito automático; (2) o princípio econômico das trocas equivalentes é basilar; (3) a produção é o lugar oculto da autovalorização do valor; (4) o trabalho não só funda a lógica do capitalismo (a teoria do valor-trabalho) como funda a possibilidade política da sua superação (a teoria do proletariado).

2. Immanuel Wallerstein

Para Wallerstein, o sistema-mundo moderno é a economia-mundo capitalista. Em Capitalismo histórico e civilização material, o autor afirma que o capitalismo é um sistema social histórico cuja originalidade consiste na utilização do capital (entendido como “riqueza acumulada”) com o objetivo da sua auto-expansão, ou seja: investe-se capital para se adquirir mais capital. No capitalismo reina a lei do valor: esta economia é governada pela intenção racional de maximizar a acumulação incessante de capital. Ele concorda, portanto, com Marx na compreensão inicial do capitalismo como um sistema no qual predomina uma lógica compulsiva (que Wallerstein caracteriza de “absurda”), cuja finalidade é acumular incessantemente capital para acumular incessantemente mais capital.

O autor trata da importância econômica do trabalho para o capitalismo quando argumenta que a manutenção de unidades domiciliares semi-proletárias é funcional para a acumulação de capital, uma vez que estas mantém baixo o patamar salarial, reduzem o custo de produção e aumentam a margem de lucro. Entretanto, Wallerstein não parte da teoria do valor-trabalho para explicar a criação do lucro (base do capitalismo). Ele descreve o capitalismo histórico como um sistema que articula uma divisão internacional do trabalho e um sistema interestatal hierarquizado, no qual se organizaram longas cadeias mercantis que quebram o encontro imediato entre o produtor inicial e o consumidor final. A economia de mercado no seu modelo perfeito e neoclássico não explica o movimento histórico do capitalismo, já que a norma neste sistema foi a integração vertical (desde as companhias de comércio do século XVI até as corporações transnacionais do século XX) e a manipulação da oferta e da procura: será a definição política dos preços que distribuirá o excedente ao longo destes “mercados intermediários”. O cerne do capitalismo passa a ser uma outra lógica oculta: as trocas desiguais. Para compreendê-lo é preciso desvendar não o processo produtivo, mas as relações internacionais. É a criação da escassez de uma mercadoria via manu militari (a força do Estado, portanto) que possibilita o deslocamento contínuo do excedente de determinadas regiões perdedoras (a periferia) para regiões vitoriosas (o centro).

Depois de descrever a lógica do capitalismo no primeiro capítulo, Wallerstein parte para a discussão sobre a prática política no segundo capítulo. Ele define política como “mudar as relações de poder numa direção mais favorável ao próprio interesse”[7]. Os atores políticos, ao analisarem as formas de alavancar as mudanças por eles pretendidas (ou seja, maximizar vantagens e diminuir custos), apostaram na conquista e no controle do poder do Estado. Apesar do Estado ser a estrutura política mais poderosa na economia-mundo capitalista, seu poder é limitado. Em outras palavras, o Estado parece para os atores políticos como o caminho mais promissor para melhorar a correlação de forças a seu favor, mas é prenhe de restrições. Os movimentos anti-sistêmicos são organizações duradouras e burocratizadas que buscam uma redistribuição material mais igualitária, menos opressiva e injusta. Suas duas principais formas foram os movimentos trabalhistas-socialistas e os movimentos nacionalistas. Ao centrarem sua estratégia política na tomada do poder do Estado, estes movimentos fizeram da sua força a sua fraqueza. Os limites do poder do Estado são insuperáveis dentro de uma economia-mundo capitalista. Por mais que estes movimentos tenham alcançado reformas do sistema, sua atuação redundou no fortalecimento do próprio sistema que eles se declaravam contra em nome de uma nova sociedade. Mesmo após o seu sucesso imediato, a divisão internacional do trabalho e o imperativo da acumulação permaneceram.

Em última instância, podemos dizer que, para Wallerstein, dentro da lógica da economia-mundo capitalista não há política anti-sistêmica. A superação do sistema-mundo moderno só será possível quando o seu desenvolvimento histórico de longo prazo ultrapassar seu funcionamento normal e atingir os seus limites como sistema histórico. Segundo o corrente diagnóstico do autor (ver o cap. 3 de O declínio do poder americano), é este momento que estamos vivendo contemporaneamente. Um sistema histórico articula ritmos cíclicos – que repõem o seu equilíbrio constantemente – com tendências seculares – as quais não podem se prolongar indefinidamente. O capitalismo tem um nascimento, um desenvolvimento e terá, necessariamente, uma morte. Sua definição como sistema histórico, já visto acima, é a infindável acumulação de capital. Esta lógica compulsiva encontra seu limite em três tendências seculares que estariam hoje se aproximando de suas assíntotas:

1. O aumento secular do nível salarial real via a organização sindical dos trabalhadores pressiona os níveis de lucros. Os capitalistas conduzem a luta de classes por meio da relocalização industrial, em busca de trabalhadores sem força política. Mas este movimento encontra um limite na crescente desruralização do mundo.

2. A externalização de custos via poluição e desrespeito ao meio ambiente encontra um limite físico e ético. Ou as empresas internalizam estes custos ou o governo assume esta problemática via o aumento de impostos – as duas soluções pressionando os níveis de lucros.

3. A satisfação de exigências populares para garantir estabilidade política interna se dá por meio da expansão das funções do Estado e da sua carga tributária, o que resulta em uma terceira pressão sobre os lucros.

Este quadro tem como conseqüência a crise terminal da economia-mundo capitalista, agravada pela perda de legitimidade dos Estados, que deixam de serem capazes de assegurar quase-monopólios (fonte dos lucros significativos) bem como de domar as classes perigosas. Para Wallerstein, a acumulação de capital encontrou limites estruturais e intransponíveis. Assim, ele vê a crise histórica atual como uma transição sem um resultado certo, mas com alternativas políticas para o futuro. Se no ciclo de vida, a estrutura do capitalismo absorveu as políticas anti-sistêmicas, a imprevisibilidade do resultado desta transição abre espaço para a luta verdadeiramente política. A ação e o livre arbítrio entram em cena e poderão implicar em grandes conseqüências. Nesta longa transição, que deverá durar entre 25 e 50 anos, a luta política será dividida em dois campos: aqueles que querem manter os privilégios de formas diferentes e aqueles que buscam criar um sistema histórico significativamente mais democrático e mais igualitário. A intervenção e a criatividade humana só passam a importar quando a erosão da estrutura capitalista se consolida e se torna irreversível.

3. José Luís Fiori

Na síntese teórica realizada em “Formação, expansão e limites do poder global”, Fiori critica os historiadores e os marxistas que não enxergam a indissociabilidade entre a “’compulsão’ global do capital”[8] e a expansão territorial dos Estados nacionais europeus. O cerne do projeto intelectual do autor está na “formulação de uma nova economia política do Sistema mundial”[9]; seguindo Braudel, Fiori:volta até o século XII e XIII para pesquisar as origens do capital e do capitalismo no momento em que se dá o encontro do dono do dinheiro com o dono do poder, e não com o dono da força de trabalho que só ocorrerá muito mais tarde. (Fiori, 2004:31) A novidade conceitual operada por Fiori será associar dois processos expansivos: além da acumulação de riqueza (já apontada por Marx), o capitalismo também será caracterizado por um processo acumulativo de poder. Parodiando Braudel (“jogo das trocas”) e o próprio Wallerstein (“economia-mundo”), Fiori cria os conceitos de “jogo das guerras” e “política-mundo” para analisar a formação dos primeiros Estados nacionais europeus, processo simultâneo à criação de um espaço geográfico “integrado e unificado por conflitos e guerras quase permanentes”[10]. Neste espaço, diferentes unidades de poder são compelidas a competir pelo mesmo território. A razão para tal é um princípio geral de “quem não sobe cai”: a “preservação da existência social” só é possível por meio da permanente preparação para a guerra. Assim, a competição em busca da acumulação e da monopolização do poder se torna uma lógica implacável que condiciona o comportamento dos recém-criados Estados nacionais. Trata-se de um mecanismo mecânico e automático de repetição tal qual o capital como descrito por Marx. O segredo deste sistema é que a compulsão expansiva das unidades territoriais necessita invariavelmente da constante recriação dos concorrentes que foram destruídos: o próprio Estado tem que gerar um adversário para seguir acumulando mais poder. A seguir, Fiori reinventa a famosa fórmula geral do capital proposta por Marx para continuar a construção de uma nova economia política internacional. O primeiro encontro entre os príncipes (donos do poder) e os banqueiros (donos do dinheiro) se dará quando os primeiros passam a necessitar de empréstimos dos últimos para financiar os seus exércitos mercenários. Além do financiamento das guerras (o que possibilita a expansão do poder), este encontro contém um outro lado: a descoberta dos detentores de riqueza líquida de que estes empréstimos são uma forma de multiplicar “magicamente” o seu dinheiro. A partir daqui, Fiori abandonará os conceitos clássicos do marxismo. Como já vimos, em uma economia de mercado (ponto de partida de Marx) será a permanente transmutação do dinheiro em mercadoria (e vice-versa) que consistirá o movimento expansivo do capital. Fiori, depois de analisar a guerra como lógica implacável e compulsiva, buscará explicar como que o dinheiro, ao revestir a forma do poder, se transformará em capital (expansão da riqueza; dinheiro que se multiplica a si mesmo; autovalorização do valor). Ao tentar compreender como se dá a criação de valor, ele desconsiderará a teoria do valor-trabalho para propor uma espécie de “teoria do valor-poder”. Será a capacidade de multiplicar o poder que criará a possibilidade de se multiplicar a riqueza, em uma espécie de circularidade que se retroalimenta continuamente. Em vez da força de trabalho, o autor propõe que a preparação para a guerra (que mobiliza e multiplica recursos) e as conquistas em caso de vitória (quando o poder cede ao capital vantagens monopólicas) são os fatores que valorizam o valor. O segredo da acumulação de capital não é mais o processo produtivo (como em Marx), mas se aproxima muito mais da visão de Wallerstein, já que o essencial da competição capitalista é “a conquista permanente de novas posições monopólicas, capazes de gerar lucros extraordinários”[11]. A acumulação se dá por meio da monopolização, da ruptura com regras e instituições construídas em nome do mercado, como forma de bloquear acesso aos demais concorrentes; desta forma, o capitalismo se alimenta primordialmente da troca dos “não-equivalentes”[12]. Ao concluir esta argumentação, o autor a formaliza por meio da seguinte fórmula: D-P-D’ (sendo D=dinheiro e P=poder), a qual evidencia que a guerra (meio de expansão do poder) passa a ter como função a multiplicação da riqueza, razão pela qual o dinheiro se torna capital.Uma palavra sobre os agentes desta lógica simultânea de acumulação de poder e de riqueza se faz necessária. O início desta análise particular está em Braudel, quando o historiador argumenta que a “economia nacional é um espaço político que foi transformado pelo Estado (…) num espaço econômico coerente, unificado (…)”[13]. A Inglaterra será o primeiro país a realizar esta revolução: a necessidade de financiamento das guerras inglesas implicará em um salto qualitativo com relação à interação entre o poder e os bancos. Deste encontro, surgirá um fenômeno novo, que mais tarde será copiado pelos outros países centrais: o estado/economia nacional. Tratar-se-á de uma verdadeira máquina de acumular poder e riqueza, um ser híbrido: metade estado, metade império. Este bloco político-econômico nacional é uma espécie de “minotauro”, em uma luta perpétua pelo poder e pelo capital circulante com os outros blocos, cada um guiado pelo seu interesse nacional (uma vontade comum e expansiva, partilhada pelos detentores do poder e do dinheiro). O resultado é uma competição contínua pela conquista de novos territórios econômicos supranacionais, com o objetivo de a eles impor sua moeda, sua dívida pública e seus sistemas de crédito e de tributação, como lastro monetário de seu capital financeiro. Os “minotauros” formam um núcleo central, composto por um pequeno número de nações. Estes são os atores cujos comportamentos são guiados pelos mecanismos sociais compulsivos da guerra (o poder) e do capital (o dinheiro). Como a dinâmica sistêmica é ditada pelos conflitos e decisões deste núcleo das Grandes Potências, as possibilidades de uma política anti-sistêmica, como formulada por Marx e por Wallerstein, são ínfimas. Primeiro porque “a lógica expansiva e implacável do sistema renova a cada passo as desigualdades, e por isso se pode dizer que este sistema é essencialmente ‘desigualizante’”[14]; e depois porque “nesta história global dos estados e economias nacionais, não se consegue identificar estados que sejam portadores de algum projeto revolucionário de reorganização do Sistema Mundial”[15]. Desta forma, não se encontra nenhum ator que possa ser o portador de um abalo nas lógicas simultaneamente expansivas do poder e do capital. Para o autor não está inscrita na realidade do capitalismo qualquer tendência que o supere na direção de uma ordem mais democrática e igualitária. O mais próximo que Fiori chega a conceituar quanto a esta questão é no momento que ele absorve o princípio de “autoproteção social” da obra de Karl Polany (redes de proteção coletiva das populações e medidas econômicas protecionistas). A conclusão de seu artigo especula sobre a possibilidade da convergência entre movimentos de autoproteção nacional e movimentos sociais que lutam contra a polarização da riqueza entre as classes. Porém, como este ponto não é suficientemente desenvolvido, esta abertura é incapaz de ser encarada como algo que aponta para fora do sistema até agora descrito.

Conclusão

Do ponto de vista da economia política, a diferença mais marcante entre Marx, de um lado, e Wallerstein e Fiori, de outro, é relativa à concepção do que é o capitalismo. Apesar dos autores concordarem basicamente sobre o capital ser um movimento contínuo de autovalorização do valor, eles partem de explicações e cronologias diferentes para este processo. Marx enxerga o capitalismo se originando com o aparecimento do trabalho industrial (na virada do século XVIII para o XIX), fato precedido pela acumulação primitiva (ou originária) de capital. Wallerstein e Fiori recuam no tempo (para os séculos XV e XIII, respectivamente) e relevam a importância central dada por Marx ao trabalho abstrato. Isso tem conseqüências teóricas importantes. Wallerstein e Fiori partem da caracterização do capital como um mecanismo social compulsivo, mas abandonam a teoria do valor-trabalho, além do princípio da troca de equivalentes. O esforço teórico destes dois autores está principalmente em incluir a força do Estado na formulação de uma economia política do sistema mundial, algo presente no marxismo clássico apenas no processo de acumulação primitiva (no próprio Marx) ou então nas análises posteriores acerca do capitalismo monopolista (algo efetuado pelos teóricos do imperialismo, no início do século XX). Neste sentido, o Estado é fundamental para a compreensão da acumulação de capital no decorrer de toda a história do capitalismo, e não algo restrito a algumas de suas etapas. O lugar oculto que desvenda o segredo da criação de lucros apropriados pela classe capitalista não está na produção (como para Marx), mas nas “trocas desiguais” (Wallerstein) ou nas “trocas dos não-equivalentes” (Fiori). O capitalismo nunca teria sido uma economia concorrencial (Marx), mas sim um sistema social fundado na conquista e na exploração de posições monopólicas. A autovalorização do valor não pode ser compreendida nem por meio do princípio da troca dos equivalentes nem pela visão de que o trabalho é uma mercadoria cujo valor de uso é a criação de valor. A origem desta análise compartilhada por Wallerstein e por Fiori está na obra do historiador francês Fernand Braudel.

Em A dinâmica do capitalismo, Braudel objetiva discernir claramente dois conjuntos de atividades que não se confundem: a economia de mercado e o capitalismo. O capitalismo é por ele caracterizado como o contra-mercado, uma vez que as leis do mercado são contornadas e falseadas a todo momento, por meio de longas cadeias comerciais (desde as companhias comerciais do século XVII até as corporações transnacionais do século XX) que quebram a relação entre o produtor inicial e o consumidor final, e nas quais os preços são arbitrariamente fixados por monopólios de fato ou de direito. Trata-se, portanto, de uma esfera diferenciada de circulação, na qual um pequeno número de grandes comerciantes operam como uma cúpula que se recusa a se especializar: suas escolhas visam a maximização de lucros extraordinários, porém sempre preservando uma margem de flexibilidade. Daí decorre uma organização autoritária do espaço mundial, que divide estruturalmente os privilegiados dos não-privilegiados. Desta forma, o capitalismo sempre se apoiou em hierarquias e em monopólios. Braudel se afasta de Marx no momento em que a sua análise da origem dos lucros capitalistas não passa pela esfera produtiva e pela exploração da força de trabalho, mas sim da esfera da circulação (a distorção de preços que Marx tanto combateu como fator explicativo)[16].

As conseqüências da adoção desta concepção de capitalismo pelos dois autores analisados atingem a viabilidade de um projeto teórico-crítico contemporâneo. Já vimos como em Marx, a lógica do capitalismo contém em si mesmo um germe que aponta para uma política que a transcende. Nisto consiste a Teoria Crítica: identificar tendências inscritas na realidade em direção a uma sociedade melhor. Porém, em Wallerstein e Fiori, a denúncia dos bloqueios à emancipação se tornou uma mera denúncia dos efeitos desigualizantes e desumanos do capitalismo. Dos seus pontos de vista, o sistema não aponta para fora de si mesmo.

Para Wallerstein, a política só aparece como possibilidade real no momento que a lógica do capitalismo chega ao seu fim. Existe uma estrutura (o sistema-mundo moderno), que nasce, se desenvolve e acaba por morrer. Somente quando as tendências seculares chegam às suas assíntotas, é que a intervenção humana pode se efetivar e o livre arbítrio terá importância na definição dos rumos da transição sistêmica que hoje estaríamos vivendo. A estrutura do sistema é fechada em si mesma, a ponto dos movimentos anti-sistêmicos (possivelmente fatores políticos transformadores) serem por ele absorvidos. A lei do valor e o sistema interestatal permanecerão até o momento em que a economia-mundo capitalista se tornar insustentável. Uma aproximação que não nos foi possível no âmbito deste trabalho seria entre a análise das tendências seculares desta economia-mundo por Wallerstein e a lei da queda tendencial da taxa de lucros tal como formulada por Marx. Entretanto, o grande equívoco do autor talvez esteja na tentativa de abrir espaço para a política ao custo de um diagnóstico duvidoso (o de que vivemos hoje o fim do capitalismo).

No caso de Fiori, a situação é ainda mais hermética. A criação de valor e a acumulação de capital decorrem de uma regra de comportamento quase mecânica, que é a luta por poder. Em outras palavras: a compulsão do capital se alimenta da compulsão do poder. A partir do momento que se elimina qualquer fator humano (como o trabalho, no caso de Marx) da compreensão do capitalismo, o que nos resta é um quadro teórico estruturalista, no qual os mecanismos sociais compulsivos não podem ser quebrados ou superados, já que um é a razão de ser do outro. Marx, ao analisar a economia mercantil simples pela fórmula M-D-M (movimento qualitativo) e o modo de produção capitalista por D-M-D’ (movimento quantitativo), está opondo dois sistemas sociais diferentes. Já Fiori sintetiza a valorização do valor (D-P-D’) e a “potencialização do poder” (P-D-P’) em duas fórmulas distintas (uma vez que são dois processos analiticamente separáveis), mas que são igualmente processos cumulativos e quantitativos. Na verdade, ambas as fórmulas implicam em um mesmo sistema social, no qual os atores fundamentais são os estados/economias nacionais, blocos políticos e econômicos (espécies de “minotauros”) com uma vocação expansiva e imperial. Esta espécie de “teoria do valor-poder” não contém nenhum elemento ou atividade humanos e nenhum fator que fundamente uma superação emancipatória; são duas lógicas cegas e automáticas que se retroalimentam, fechando permanentemente o sistema em si mesmo. Não há nem agência política alternativa, nem dialética, nem humanidade.

Dado o reconhecimento do monopólio como característica generalizada e fundamental do capitalismo, assim como dos terríveis resultados da “política proletária”, finalizamos afirmando a necessidade de se repensar (e talvez até mesmo de superar) a teoria do valor-trabalho e a teoria do proletariado, a base lógica e a base política do marxismo clássico. Marx não é um autor intocável, muito pelo contrário: sua reflexão estava conscientemente limitada pela sua experiência histórica. O princípio que propomos a ser mantido é o programa da Teoria Crítica, um projeto que une a compreensão da realidade (diagnósticos do tempo presente por meio da teoria social) com uma intervenção dela transformadora (práticas orientadas pela emancipação humana). Wallerstein e Fiori, com o objetivo de reformular a economia política crítica iniciada por Marx, bebem da historiografia dos Annales, por meio de Braudel. Este, por sua vez, escreve duas passagens que interessam ao objetivo deste trabalho:

Este é seguramente o problema dos problemas. Devemos derrubar as hierarquias, anular a dependência de um homem em relação a um outro homem? Devemos, disse Jean-Paul Sartre, em 1968. Mas será verdadeiramente possível? (Braudel, 1985:80)

Mas será possível a sociedade que é para mim a sociedade ideal? Não estou convencido, com efeito, que tal sociedade tenha muitos adeptos no mundo inteiro. (Braudel, 1985:118)

Estes trechos revelam uma possível fonte da anulação do pensamento crítico como uma Teoria Crítica propriamente dita: a incredulidade quanto à possibilidade da realização da humanidade, da reconciliação e do reconhecimento humanos. Terminamos este trabalho indagando – sem, entretanto, encontrar resposta – acerca da viabilidade de uma historiografia que concilie a análise da longa duração (o eixo da Escola dos Annales, da qual Braudel fazia parte, além de ser o princípio dos projetos intelectuais de Wallerstein e Fiori) com uma perspectiva dialética, porém sem redundar na clássica teleologia da história universal que é a sua própria origem. Seria desejável realizar um programa de análise e de superação do presente levando em consideração não só o longo prazo, mas também enxergando dialeticamente a realidade como algo potencialmente melhor, base inquestionável para qualquer ação política emancipatória, e sem a qual cairemos em um estruturalismo teórico que elimina a intervenção humana e humanizadora.

Bibliografia

BRAUDEL, Fernand. A dinâmica do capitalismo. Lisboa: Teorema, 1985.

FAUSTO, Ruy. Marx: lógica e política. São Paulo: Brasiliense, 1987. tomos 1 e 2

FIORI, José Luís. “Formação, expansão e limites do poder global” In FIORI, José Luís (org.). O poder americano. Petrópolis: Vozes, 2004.

HABERMAS, Jürgen. Técnica e ciência como “ideologia”. Lisboa: Edições 70, 1994.

HONNETH, Axel. Luta por reconhecimento: a gramática moral dos conflitos sociais. São Paulo: Editora 34, 2003.

HORKHEIMER, Max. “Teoria crítica e teoria tradicional” In Os Pensadores. São Paulo: Abril Cultural.

MARX, Karl. O capital: crítica da economia política. São Paulo: Nova Cultural, 1988. V.1.

____. “Salário, preço e lucro” In Os Pensadores. São Paulo: Abril Cultural, 1978.

MARX, Karl; ENGELS, Friedrich. A ideologia alemã. São Paulo: Hucitec, 1999.

MERLEAU-PONTY, Maurice. Humanismo e terror: sobre o problema comunista. Rio de Janeiro: Edições Tempo Brasileiro, 1968.

____. As aventuras da dialética. São Paulo: Martins Fontes, 2006.

NOBRE, Marcos. A teoria crítica. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2004.

WALLERSTEIN, Immanuel. Capitalismo histórico e civilização capitalista. Rio de Janeiro: Contraponto, 2001.

___. O declínio do poder americano. Rio de Janeiro: Contraponto, 2004.


[1] Marx, 1988:129.

[2] Marx, 1978:79.

[3] Honneth, 2003:15.

[4] Marx e Engels, 1999:50.

[5] Merleau-Ponty, 2006:51.

[6] Merleau-Ponty, 2006:52.

[7] Wallerstein, 2001:42.

[8] Fiori, 2004:37.

[9] Fiori, 2004:20.

[10] Fiori, 2004:21.

[11] Fiori, 2004:44.

[12] Fiori, 2004:32-33.

[13] Braudel apud Fiori, 2004:20.

[14] Fiori, 2004:46.

[15] Fiori, 2004:57.

[16] Marx discordaria frontalmente de Braudel: “A formação de mais-valia e daí a transformação do dinheiro em capital não pode ser, portanto, explicada por venderem os vendedores as mercadorias acima do seu valor, nem por os compradores as comrparem abaixo do seu valor” (Marx, 1988:13) uma vez que “O valor das mercadorias está representado em seus preços, antes que entrem na circulação, sendo, portanto, pressuposto e não resultado da mesma” (Marx, 1988:128).



4 Responses to “Wallerstein e Fiori: lógica e política”

  1. 1 Valéria

    Olá Jonas.
    Acho q agora entendi isso aqui.
    Então, achei muito interessante seu texto. Estou trabalhando em um artigo uma crítica a Wallerstein, centrada principalmente na idéia de política, ou falta dela, no pensamento desse autor.
    Achei bem legal sua proposta de crítica partindo de Marx.
    Gostaria de poder conversar mais sobre isso.

    obrigada.

    valéria.

  2. 2 Jonas

    Valéria,
    Q bom q vc gostou do texto. Bom, meu e-mail tá aí (jonas.medeiros@uol.com.br). Pode me mandar um e-mail e aí conversamos melhor sobre o q vc está escrevendo… Até o final do mês de julho eu pretendo postar aqui uma espécie de continuação desta reflexão, já q estou fazendo uma matéria na FIlosofia da USP chamada “Ética e Filosofia Política II” com a profa. Maria das Graças. A hipótese final deste trabalho sobre Wallerstein e Fiori é q a “falta de política” tem como raíz a apropriação destes autores da obra de Fernand Braudel. Daí a minha próxima idéia é desenvolver a relação entre as concepções de tempo, história e política tanto no Braudel quanto no Lukács (como representante do “marxismo clássico”)… Bom, é isso. Entre em contato!
    Jonas

  3. 3 PH

    Caro Jonas,

    como lhe disse… li, depois dum bom tempo, seu trabalho. Digo que é extremamente interessante para se introduzir nesses autores (principalmente o Fiori que, como terminei por não fazer ecopolint, não havia lido), e marcar suas diferenças. Não creio ter qualquer capacidade de criticar produtivamente seu trabalho, mas mesmo assim eu gostaria de saber se você já está desenvolvendo os desdobramentos de sua conclusão, qual seja, a do papel de se manter o modelo de teoria crítica como base para desenvolver diagnósticos do presente, pois confesso ter a impressão de que primeiramente lhe aparece mais como uma convicção de não negar a possibilidade de realização da humanidade do que algo mais “formalizado”. Eu também compartilho dessa convicção, mas em minhas parcas reflexões careço de consistência argumentativa para evitar, se estiver disposto a questionar mesmo meus pressupostos, cair na constatação de um bloqueio inevitável ao qual ação política alguma pudesse transformar ou apresentar um caminho para a reconciliação. Assim que li seu trabalho, se tivesse desde já comentado provavelmente seria mais crítico, mas por acaso ouvi uma discussão entre você e o Zé e você pareceu resolver muito bem o que para mim não se apresentava claro (talvez seja mais fácil pra mim desenvolver minhas bagunças em resposta ao seu texto, pois ainda me sinto intimidado de fazê-lo tête-à-tête): que é o papel da teoria crítica na valorização da importância da Agência, procurando absorver da obra de Marx a dialética sem despontar para o automatismo nem a resignação… Tudo que eu andava lendo da Leda, do Eleutério etc… aparentava recuperar uma parte que me parece muito interessante para se realizar um diagnóstico do presente… mas nessa viagem eu tava deixando de observar a questão política, a correlação de forças sociais, conflito de classes como – de acordo com os termos da MH na aula hoje sobre teoria da dependência, por sinal bem superficial – as especificidades políticas que “traduzem” para os recortes, seja no âmbito nacional, seja em relações internacionais, o sistema econômico… Tenho medo de cair num estruturalismo muito limitado, mas não refleti para além disso…
    Enfim, toda essa argumentação perdida aqui, facilitada pela interface mediadora do computador, sem restrições de falta de mínimo de reflexão e constrangimentos, apesar de menos interativa, é só para tentar apresentar essa questão, que provavelmente você deve estar tratando, de pensar a necessidade de teoria crítica, seja mesmo como aquilo que foi comentado não sei por quem (acho que o Zé, ou algum professor no colóquio mas ñ tenho certeza) de que mesmo no período do “bloqueio”, a Teoria Crítica da Escola de Frankfurt teria um sentido de construção de material teórico de inspiração à prática nos momentos em que for possível, a partir das mais diversas críticas que realizam…
    Não apenas escrevo esse amontoado sem nexo para tirar uma dúvida e revelar minha incapacidade extrema de articular de forma sofisticada as sutilezas, mas também buscando realizar a interação dos leitores com os textos aqui, para além do mero comentário, mas em articulação com todo o sentido de nossas pesquisas…
    Por aí vai… é fruto dum grande interesse que se vê pessimista com a realidade, e com medo da plena resignação…

    Abraços

    PH

  4. 4 Jonas

    Bom, “como prometido”, acabei de publicar a continuação desta reflexão, que parte da contraposição do Wallerstein e do Fiori com a Teoria Crítica para chegar na complicada relação entre tempo, história e política no Braudel (complicada porque estruturalista…). Tá aí o link, só pra “fazer a ponte” entre os dois textos:
    https://chacombolachas.wordpress.com/2007/09/21/a-longa-duracao-e-a-dialetica-entre-consciencia-e-inconsciente/
    Agora acho que “só” falta fazer o retorno ao Wallerstein (né Cris?). Um pouco na linha do que temos discutido no Grupo de Estudo do Imperialismo: sua reatualização da teoria do colapso como forma de resgatar a política transformadora e a intervenção humana na realidade sem abrir mão do quadro estruturalista embutido no conceito de “Sistema-Mundo Moderno”…


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