Hobson: impressão e produção

09abr07

Resumo das idéias do texto Estudio del Imperialismo

1. DESMISTIFICAR A IDEOLOGIA: O IMPERIALISMO NÃO CORRESPONDE AO INTERESSE NACIONAL. Entender a expansão imperial como uma política sensata ou até mesmo como uma necessidade vital da nação é uma ilusão, visto que (a) a expansão imperial não foi acompanhado de um aumento no comércio exterior e (b) o argumento do excedente populacional também não é verdadeiro (o imperialismo não criou empregos para emigrantes e a Inglaterra não está super-povoada). O objetivo de Hobson é, portanto, desmistificar esta ideologia (“negatividade posta como positividade” nos ditos hegelo-faustianos do Zé), pois o imperialismo é um mal negócio, além de ser uma política econômica ruinosa e suicida.

2. O IMPERIALISMO DECORRE DA SUPER-PRODUÇÃO MONOPOLISTA E DA MÁ DISTRIBUIÇÃO DE RENDA. A principal hipótese de Hobson: a força motriz do imperialismo é o elemento econômico. As guerras são irracionais do ponto de vista da nação, mas não de certos grupos e classes sociais. Trata-se, desta maneira, da subordinação dos interesses nacionais a determinados grupos industriais e financeiros privados auto-interessados. A fusão de empresas (trustes) e a criação de monopólios levam a uma situação de sub-consumo/super-produção. Cria-se um desajuste entre produção e consumo, devido à má distribuição de renda. O imperialismo nada mais é do que o desejo de poderosos e organizados círculos industriais e financeiros em assegurar mercados externos para seus bens e capitais excedentes (os quais estão inativos por não poderem ser investidos ou consumidos internamente dada a falta de renda) por meio dos fundos públicos e das forças armadas. É o uso sanguessuga e parisitário da máquina do Estado para fins privados, decorrente da monopolização e da super-produção, as quais obrigam a expansão imperial. Assim, o elemento decisivo e fundamental do imperialismo é o interesse econômico dos grandes círculos financeiros, que manipulam o patriotismo.

3. O REMÉDIO PARA O IMPERIALISMO É O “SOCIALISMO”. A guerra não faz parte da ordem natural das coisas. A decisão consciente de aumentar o consumo interno impediria o imperialismo. A reforma social, que corrigisse a má distribuição de renda, seria o remédio para um consumo público e privado saudáveis. Os inimigos do imperialismo são, assim, os sindicatos e o socialismo. Em um regime político de autêntico controle popular, não existiriam guerras nem o militarismo. Como o imperialismo é financiado por meio de uma tributação indireta e injusta (onerando certas classes sociais), um sistema fiscal são atacaria a enfermidade pela raíz, taxando as grandes companhias. Trata-se, no fundo, da oposição entre o quantitativo e o qualitativo, os interesses do capital monopolista e as necessidades humanas.

Idéias surgidas na discussão

1. UTOPIA. A todo momento Hobson utiliza uma espécie de vocabulário médico, opondo enfermidade e saúde, irracionalidade e razão, como se houvesse um fundo normativo na análise feita acerca do imperialismo. Este seria uma distorção, uma deformação de uma situação utópica, que identificamos como um misto de socialismo e laissez-faire (os dois possíveis remédios para a política econômica suicida do imperialismo). A racionalização da sociedade (sua cura), segundo identificamos, tem 3 bases teóricas. A primeira é a doutrina kantiana da paz perpétua e republicana, na qual o desvirtuamento da razão (representada pela manipulação do povo por meio da imprensa e da educação) pode ser superada em uma espécie de “socialismo de Estado”, um governo verdadeiramente transparente, racional e popular. A segunda é o próprio marxismo, do qual ele se aproxima quando analisa o problema do imperialismo como sendo decorrente, em última instância, da oposição entre o qualitativo e o quantitativo, o intensivo e o extensivo, os quais podem ser aproximados com os antagonismos marxistas do valor de uso vs. o valor de troca, a produção para satisfazer necessidades humanas vs. a produção pela produção. Finalmente, a terceira matriz teórica é uma espécie de “keynesianismo antes de Keynes”, expressa na sua teoria do sub-consumo, que receita a intervenção estatal (via impostos e gastos públicos) para redistribuir a renda e reequilibrar a relação entre produção e consumo que havia sido adulterada pela criação de monopólios.

2. CRÍTICA da Leila e do Hobsbawn……BAILÃO……

3. FORMULAÇÃO DE POLÍTICAS PÚBLICAS. Quais são as diferentes teorias acerca do processo de formulação de políticas públicas? Como encarar o “interesse nacional”? Existem basicamente duas teorias: a pluralista e a de grupos de interesse. Para esta segunda perspectiva, os grupos organizados da sociedade não têm pesos nem recursos iguais e existe a possibilidade, como indica Hobson, do Estado ser seqüestrado por interesses privados ……ZÉ…… Uma categoria interessante para analisar as relações entre Estado, guerras e sociedade é a de “complexo industrial-militar”. No seu discurso de entrega do cargo, o presidente norte-americano Dwight Eisenhower (1952-1960) alertou para a ameaça à democracia estadunidense representada por este complexo, formado pelos interesses político-econômicos de diversos setores (como as forças armadas e as indústrias armamentistas). Quando Hobson indica uma rede de interesses ligadas à guerra, ao militarismo e aos gastos bélicos (grupos industriais e financeiros, burocracia civil e militar, além da imprensa pró-imperialista), ele parece estar antecipando em 60 anos o que Eisenhower identificou em seu discurso.

4. PATRIOTISMO COMO ELEMENTO SUBJETIVO. Hobson analisa o elemento objetivo determinante do imperialismo (a vontade dos monopólios de escoar seus excedentes), porém ele aponta também para a forma como esta vontade econômica manipula e parasita um sentimento patriótico pré-existente, que ele aparentemente encara como um dado. Além da indicação do uso que os grandes círculos industriais e financeiros fazem da imprensa para controlar a opinião pública, o autor não questiona o processo de surgimento do patriotismo. De uma perspectiva marxista, este elemento subjetivo é fundamental para a compreensão dos fatos históricos posteriores, uma vez que ele é o responsável pela deterioração do internacionalismo do movimento operário. A expectativa dos setores mais progressistas da esquerda européia de que a consciência de classe e a auto-identificação da “classe universal” fossem suficientes para evitar a carnificina da Primeira Guerra Mundial foi frustrada. O proletariado de cada país, em vez de se unir para derrubar o capitalismo e instaurar o socialismo na Europa, se alinhou com as suas respectivas máquinas de guerra nacionais. O nacionalismo, entendido como elemento subjetivo, foi uma importante força na concretização da guerra mundial, derrotando a possibilidade de uma “revolução mundial”. Futuramente, a “Escola de Frankfurt” vai se voltar muito mais para os fatores subjetivos (uma análise psicanalítica das razões da irracionalidade da guerra) do que os objetivos (uma teoria do imperialismo, por exemplo) para compreender o fenômeno da guerra e do fascismo.

5. CRÍTICA À TEORIA DE RI……ZÉ……

6. LIMITE DO IMPERIALISMO. Hobson encerra a primeira parte de sua obra alertando Inglaterra e EUA sobre o risco da rivalidade imperialista implicar em uma ruína financeira, ou seja, que os países poderiam sucumbir frente os prestamistas. Escrito entre 1902 e 1905, o livro ainda não consegue enxergar qual é o verdadeiro limite para a expansão imperial: em vez de financeira, a fronteira final é a destruição bélica e humana. Neste momento, não é possível vislumbrar para onde o imperialismo está caminhando. Em breve, defrontada com a guerra mundial, o lema da esquerda se tornará “socialismo ou barbárie”.



One Response to “Hobson: impressão e produção”

  1. 1 Thiago Franco

    Caros colegas,
    seguem algumas anotações que fiz ao resumo das idéias do texto Estudio del Imperialismo que vocêspublicaram. Segui a numeração para tentar me fazer menos confuso. Se ajudar em alguma coisa, ou provocar algum debate, seguimos. Na verdade, moderno que sou, adoro uma discussãozinha qualquer…

    Abraços,
    Thiago Franco, tentando pegar o bonde andando.

    1.
    São inúmeros os estudos sobre a funcionalidade da periferia para a acumulação (sobretudo a primitiva) de capital no centro. Aliás essa é a área da tese de doutorado do meu orientador. A meu ver uma falsa polêmica.
    Tem um outro camarada também, que o pessoal de RI gosta que namora bastante com as teses do Hobson, mas tem uma metáfora mais bonintinha para o imperialismo – A Grande Ilusão – Norman Angell. Mas ele me parece menos economista e mais “iluminista” que o nosso amigo John Atkinson.
    Não entendo quea definição dele de imperialismo seja de uma “política econômica”. Volto a esse ponto.
    2.
    Não concordo com a primeira assertiva de vocês: “A principal hipótese de Hobson: a força motriz do imperialismo é o elemento econômico”. Na minha leitura, grande parte da riqueza dos estudos de Hobson é justamente a relação entre a perversão da economia – na excessiva exploração dos salários dos ingleses – e a perversão política – com o Estado assumindo como gerais os interesses particulares de determinadas frações da burguesia (num marxês que não lhe é próprio. Volto ao ponto do marxês). Acho importante não subsumir a dimensão política.
    Quanto à questão da super-produção/sub-consumo, acho que a dimensão do sub-consumo é muito mais ressaltada por ele. São processos não necessariamente idênticos, pois para ele trata de responsabilizar atores e propor políticas.
    3.
    Para retomar esse ponto, vou recordar uma fala do Zé na minha mesa. Quando eu falava de certos marxistas dogmáticos, ele prontamente me respondeu que não precisamos chamá-los marxistas, pois não o são. Ele tem razão. Tem certos termos que deveríamos ter mais cuidado em usar. Acho que vocês forçaram a barra ao colocar nosso camarada John como propositor de políticas “socialistas”. Ele era, sim, até onde eu entendi um liberalzaço. Mas consciente da necessidade de refrear os limites do capital contra os trabalhadores – liberal, individualista, iluminista, como não se fazem mais. Os nossos “neo” é que esqueceram que para o liberalismo o homem está acima de tudo, inclusive do capital. O controle social do poder é uma tese fundamental do liberalismo – socialismo é outra coisa.
    Idéias surgidas na discussão
    1. Não acho que somente por ele popor freios ao capital ele se “aproxime do marxismo”. Talvez, com o risco da heresia, poderia afirmar que existe uma dimensão humanista no Marx que é partilhada pelos liberais, e pelos anarquistas, enfim, pelos modernos. Não tnho certeza se esse é o ponto do texto em questão. Prefiro escrever quase a mesma coisa de outro jeito. A situação do trabalhador inglês era tão precária e a condição de colonização tão desumanda que mesmo um liberal poderia perceber o engodo que os imperialistas impunham às sociedades.
    Novamente, a mesma crítica. Nem tudo que é intervenção na economia é anti-liberal. Não acho que valha a pena o anacronismo com relação ao Keynes.
    2.
    3.
    Esse ponto me parece decisivo: o “complexo industrial-militar”. Não o estudei de maneira decente, nem sei tampouco se existem estudos sobre sua origem e/ou influências – sugestões??. Todavia, tavlez o anacronismo seja novamente desnecessário. Interesses militares colocados em pimeiro plano estão em inúmeras sociedades, como os gregos, e mesmo as sociedades primitivas estudadas por Clastres. Mas proponho uma reflexão: é sabido que toda empresa hoje – com efeito pós-73 – tem a esmagadora maioria de seus lucros obtidas na esfera financeira – ao capital não importa onde nem como, mas que se valorize. E dá-lhe Hilferding!. Outro fato é que empresas militares-petrolíferas, como a Halliburton, a Blackwater, etc, ganharam MUITO com a invasão do Iraque. Mais ou menos que as ações dessas mesmas empresas? Vale a pena a tentativa analítica de rearticular as esferas? Me parece que sim.
    4.
    Aliás, ele chega a louvar esse sentimento (de patriotismo) em mais de uma parte do livro.
    Novas formas de identidade anti-capitalista me parecem uma das mais importantes tarefas de nosos dias. Especialmente pela gigantesca carga negativa em torno de “socialismo”, “trabalhador”, “comunismo”, “marxismo”, etc…
    5.
    6.
    Tem o tal do “keynesianismo militar” – não gosto do termo – que vai no sentido oposto do de Hobson e aponta a guerra como deficitária para os Estados e superavitária para as empresas.
    Será que “socialismo ou barbárie” e lema para épocas de paz?


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