Resenha: História e Cinema

09abr07

FERRO, Marc. “A contra-análise da sociedade”, in Cinema e História: Paz e Terra, 1993, pp.79-115

SALIBA, Elias Thomé. A produção do conhecimento histórico e suas relações com a narrativa fílmica. Série Lições com Cinema, 3. São Paulo: CEDUC, 1992, pp.11-31

Ambos os textos lidos discorrem sobre as maneiras como a História vem se relacionando com o cinema ao longo dos anos, e discutem as possibilidades de utilização do filme como fonte historiográfica e como recurso para o ensino da História em sala-de-aula. Deste modo, cabe apontar a complementaridade das análises empreendidas pelos dois autores, tanto no sentido de problematizar a relação que os historiadores tradicionalmente têm com a narrativa fílmica como no de semear uma discussão mais ampla no campo da historiografia sobre qual o papel que a produção cinematográfica possui no interior da disciplina.

Tanto um autor quanto o outro chamam atenção para o fato de que o filme “não faz parte do universo mental do historiador”[1], e buscam no próprio processo de formação da ciência histórica alguns elementos que ajudem a compreender a enorme resistência que os pesquisadores da área têm com relação à utilização da narrativa fílmica como fonte documental.

A forte influência do positivismo sobre a historiografia é citada tanto por Ferro quanto por Elias como um entrave à utilização do cinema na História. A busca por uma verdade absoluta, intemporal e metafísica e a idéia de se buscar fazer ciência social com neutralidade e objetividade levaram a uma valorização da forma de expressão escrita em relação às demais. A escrita passou a ser enxergada como um “relato objetivo”, fiel aos fatos, enquanto a imagem (seja ela fotográfica ou cinematográfica) passou a ter seu valor “científico” questionado por estar associada à parcialidade, à adoção do ponto de vista de quem a produziu.

Ferro também aponta o foco dos historiadores do início do século XIX sobre os acontecimentos “de estado” (colaborando inclusive para a construção de uma narrativa histórica “oficial”) como um elemento que contribuiu ainda mais para a hierarquização das fontes históricas: mesmo entre as fontes escritas, havia aquelas de mais ou menos “confiança” e “prestígio”. Por exemplo, privilegiava-se o uso da documentação de Estado (impressos, textos jurídicos, documentos do legislativo) como fonte em detrimento de outras formas de expressão escrita, como folhetins, jornais, diários, relatos de viajantes e biografias.

No início dos anos 1930, anunciou-se uma ruptura com a concepção positivista de História. Marc Bloch e Lucien Febvre, ao fundarem a renomada revista Annales, declararam guerra contra a “história factual”, que “cultivava o fetichismo dos fatos chegando, no máximo, a uma reconstituição genética (ou teleológica) da história[2]. Partindo do princípio de que “todas as ciências fabricam o seu objeto”, os dois fundadores da corrente francesa lançaram as bases para um fazer historiográfico baseado na pesquisa articulada a partir de hipóteses que deveriam ser investigadas pelo pesquisador. Ao mesmo tempo que a disciplina não perde seu “caráter científico”, ou seja, preserva um certo rigor metodológico, abre-se espaço para novas perspectivas de atuação e pesquisa em História, dentre as quais vale ressaltar os universos da história social e o da história das mentalidades.

Cabe aqui, entretanto, ressaltar que esse movimento de questionamento do positivismo no campo da História não significou sua superação definitiva. Muitos de seus elementos continuaram e continuam a influenciar a prática historiográfica, a citar a permanência da “hierarquização” das fontes que, até hoje, constitui objeto de constante embate entre os pesquisadores. No que diz respeito especificamente ao cinema, sua aceitação como fonte e seu tratamento como fonte historiográfica continua a ser objeto de debate na área até os dias atuais.

Elias afirma que “… hoje, o conhecimento histórico se origina menos da necessidade de demonstrar que certos acontecimentos se realizaram e, muito mais, da necessidade de se verificar o que certos acontecimentos podem significar, para a concepção de um determinado grupo, cultura ou sociedade”. Para uma análise mais ampla do significado destes acontecimentos, é premente a necessidade de integração da História com outros campos do saber, sobretudo à Antropologia, à Sociologia e à Lingüística, de modo a possibilidade um olhar mais interdisciplinar sobre os acontecimentos.

Nesse contexto, o cinema surge como ferramenta imprescindível- assim como na História, nos filmes a verdade é uma construção imaginativa, que precisa ser pensada e trabalhada como tal: assim como nas narrativas historiográfica, nos filmes os fatos também são “produzidos” por quem escolhe relatá-los.

Da mesma maneira, é fundamental considerar que o cinema tem poder de revelar muito mais do que o seu conteúdo “ilustrativo”, literal. Nas palavras de Ferro, ele revela “o avesso de uma sociedade”, ou seja, está intimamente ligado ao mundo que o produz. Assim sendo, o filme não deve ser considerado na análise historiográfica apenas do ponto de vista da obra, mas igualmente como produto: deve-se analisar as relações entre o filme e aquilo que o excede, visando compreender, em sua globalidade, a obra e a realidade que ela representa.

Em suma, a relação do historiador com o cinema deve estar centrada na interpretação e na problematização, sendo estes dois aspectos centrais de seu exercício como pesquisador, seja qual for a fonte que se estiver analisando. Vale ressaltar, por fim, remetendo à análise de Elias, que destacar o processo de construção subjetiva no interior do filme e também da própria narrativa histórica não significa concluir que os dados históricos podem ser construídos ou utilizados arbitrariamente. Embora aparentemente contraditória, esta afirmação busca conciliar a natureza da História como ciência com as perspectivas abertas pela possibilidade de incorporação de novas fontes à pesquisa historiográfica, as quais representam, no limite, um enriquecimento da disciplina e não a sua extinção.




[1] FERRO, Marc. “A contra-análise da sociedade”, p 79.

[2] SALIBA, Elias Thomé. A produção do conhecimento histórico e suas relações com a narrativa fílmica. p.3



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