Esboço2: Tecnologia como logos da técnica e a tecnologia socialista

17abr07

Em usurpação descuidada à la Wu Ming, rascunho a ser consertado por quem desejar, e de autoria recusada como indivíduo… só avisando aqui que foi PH quem começou…

Reflexões a respeito de leituras comuns… questão da tecnologia

É interessante o desenvolvimento de uma concepção socialista de tecnologia, que pretendo compreender sob uma perspectiva mais crítica, a partir de uma compreensão do que significa tecnologia em si.

De acordo com Álvaro Vieira Pinto, existem cerca de quatro categorias principais com as quais pode-se compreender o termo tecnologia: o campo de estudos nos quais se busca compreender os fundamentos na relação do homem com a técnica dentro de suas especificidades, tanto quando expressa em intervenção com o mundo natural como na produção de coisas dentro do espaço social, algo que classifica como o logos da técnica; a técnica em si, em ausência de critérios para a separação de seus sentidos, fruto da vulgarização jornalística do termo, em que se encontra também uso mais corrente; o grau de desenvolvimento das técnicas de reprodução de uma sociedade, tanto para análise de seu grau de progresso quando cotejadas a outras contemporâneas quanto para estudos históricos, e que mantém uma certa proximidade, na sua aplicação, com a idéia de ideologia da técnica enquanto discurso introjetado, ideologia esta que compreende no quarto sentido em que é utilizado o termo, apresentando-se como um contingência histórica do capitalismo que se apresenta sob diversas formas na constituição das relações sociais, mercado e os satélites.

Aqui, a tecnologia que pretendo tomar como conceito a ser desenvolvido é compreendido pelo primeiro significado, que busca o logos da técnica. Essa perspectiva busca a concretização de um campo autônomo que trate, como acima explicitado, da relação entre o homem e as técnicas, compreensão das expressões fundamentais e reflexos sociais de acordo com as contingências históricas. Não se trata apenas de compreender a interação do gênio humano à natureza, como costuma ser ingenuamente compreendida a epistemologia da técnica, mas também tratando da interação com o produto social no qual se baseia e se fundamenta a interação do homem com seu meio. Se são meios e mediadores com os quais as práticas sociais são construídas, é muito importante compreender suas especificidades, sem menosprezar o papel dos estudos aprofundados e da especialização decorrente dos desenvolvimentos recentes. É a partir de uma perspectiva de caráter sistêmico que se dá a compreensão das etapas mediadoras das relações sociais e destas em si enquanto relação com os meios. O grau de desenvolvimento de nossa sociedade nos leva a conclusão de que as construções sociais são necessariamente mediadas por essa enorme gama de técnicas de que dispomos e que não podem nunca ser compreendidas somente como instrumentos aos quais se faz um uso qualquer, como neutros.

Ignorar as determinantes político-ideológicas da construção da técnica leva a uma compreensão limitada do papel e da influências das mesmas, além de uma relação passiva com o próprio desenvolvimento tecnológico. Seus momentos de criação também passam por questões claramente políticas e que dependem mesmo de visões de mundo. Um importante momento da construção da tecnologia, ao contrário do mito dos gênios do acaso, problemático pois incompleto, se passa na postulação de problemas a serem resolvidos pela técnica. A técnica então, passa a ser desenvolvida a partir da problemática proposta. No momento em que nos abstemos da discussão, tendo em conta que grande parte do pensamento socialista passou por isso em virtude dos erros da experiência socialista e da apropriação hegemõnica dos termos de progresso técnico pelo capital, a pauta em que se desenvolvem as soluções técnicas está completamente subordinada a lógica de valorização deste.

Apresento alguns casos que explicitam isso. O desenvolvimento da biopirataria se apresenta hoje, a partir da técnica do gene suicida, como expressão mais explícita dos limites em que a técnica é aplicada somente a propósito de geração de lucros. Esse gene leva a esterilização de todas as sementes que são produzidas a partir das que então são utilizadas, e não há sequer uma defesa coerente que fundamente essa postura da indústria para além de garantir sua superlucratividade e a dependência dos produtores. Além disso, protegidas como estão do uso não-licenciado do mapeamento genético, hoje passível de patente, abrem a gritante “possibilidade” de destruição uma cultura milenar de produção de alimentos, sepultando um processo natural que garante o correto metabolismo da própria natureza. Não obstante, o campo da biotecnologia tem facilitado em muito a proliferação de práticas como a biopirataria, que pilha a herança genética de países ricos em biodiversidade mas com pouca estrutura de proteção, e eleva a situação de criminosos camponeses que utilizam sem licença variedades de plantas que sempre lhes estiveram disponíveis, só por terem sido registradas por outra empresa, e mesmo já começa a ser apropriada por empresas de seguros médicos para garantir que cobrem mais daqueles com maiores propensões a doenças causadas por predisposição genética.

Interrompendo as reflexões momentaneamente, pretendo apenas reiterar dois pontos: não se pode falar exclusivamente em técnica socialista ou técnica “crítica”, mas a perspectiva de compreensão da tecnologia que pretendo apresentar compreende a criação da tecnologia como detentora de momentos em que as discussões “mais técnicas” são prescindidas e que predominam os valores com os quais se fundamentam as questões a serem resolvidas. Assim uma tecnologia verdadeiramente crítica se apropria dos princípios de defesa das igualdades e liberdades plenas e emancipatórias reflete o sentido do desenvolvimento técnico como subordinado a essas práticas. É claro que mesmo dentro da lógica capitalista é possível encontrarmos potencialidades não aproveitadas, e se ouso considerá-los acidentes pode-se tornar tortuoso e conspiratório enveredar-me à saída, e por isso afirmo que se percebemos melhoras consideráveis é por, fundamentalmente, o capitalismo mostrar-se extremamente capaz de produzir e aumentar a produtividade. Mesmo todo o desenvolvimento tecnológico que beneficiou o homem de fato serve a lógica de garantir maior produtividade circulação, tanto enquanto trabalhador em seu período de trabalho, como na educação para o consumo em seu momento de não-trabalho.

A discussão em si sobre a que sentido devemos levar essas aplicações já compreende essa perspectiva crítica de “tecnologia”.

So it goes…



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