Movimentos pacificista e de não-violência: alternativas viáveis?

26abr07

A não-violência é uma alternativa?

(conclusão do trabalho sobre pacifismo e movimento negro norte-americano)

Analisamos sucintamente, com intuito de respondermos à nossa questão (se a não-violência é uma alternativa), a trajetória do movimento negro norte-americano da década de 60, observando os limites e a eficácia das ações que recorrem ao uso da violência e das ações que se abdicam desse uso.

A licitude da violência depende do fato de que em diversas situações ela é o único remédio ‘possível’ a ela mesma, mas quem decide qual é a violência originária e qual a violência derivada? A violência originária, para cada um dos dois contendores é sempre a do outro. Um exemplo elucidativo é a justificação da violência de um Estado despótico como única resposta possível à violência subversiva, assim como a violência subversiva pode encontrar quem a justifique como uma resposta à violência menos aparente mas não menos real do “sistema”. Essas duas éticas de violência são incompatíveis – uma justifica-se na estabilidade e na manutenção da ordem vigente, enquanto a outra, justifica-se na instauração de uma nova ordem. Opostas, essas duas éticas da violência ambas justificam seu uso segundo princípios contrários, entretanto a violência que é justificada por uma parte é justamente aquela que constitui um remédio à violência da outra. Muda o ponto de partida, não a causa da justificação.

Uma vez reconhecido o mecanismo do procedimento de justificação da violência, permanecendo firmes os fins considerados irrenunciáveis, o problema resolve-se pelo encontro de meios alternativos, isto é, processos que cumpram a mesma função da violência organizada e tenham a mesma eficácia dos processos violentos. Embora seja questionável a efetiva eficácia dos processos que empregam a violência, já que, segundo a doutrina da não-violência, meios violentos corrompem o fim, seja ele qual for. Não podemos ignorar que muitas metas hoje consideradas vantajosas para a humanidade foram atingidas mediante a violência.

É possível romper o círculo que se fecha na justificação da violência revolucionária que puxa a violência contra-revolucionária e assim por diante?

Sim, se concebermos que o poder, mais que no cano fuzil, reside na firme vontade de não-colaboração, contra a qual, se organizada em bases de massa e fundada num vasto programa e num esforço construtivo, nem o mais potente tirano pode resistir por muito tempo.

Segundo as diversas classificações de pacifismo que esboçamos e com os mais variados exemplos históricos, é possível apontar duas considerações: (a) o estabelecimento do estado de paz (entendida como não-guerra) não depende apenas da mudança de uma determinada estrutura de poder (mudança do modo de produção, por exemplo), mas da transformação interdependente de todas as estruturas de poder globais, principalmente as estruturas político-econômicas hoje estabelecidas, ao mesmo tempo, nossa segunda consideração, (b) a transformação dessas estruturas depende de um trabalho de emancipação de consciência política individual e coletiva. O que observamos atualmente é um determinado arranjo da realidade proveniente de um processo histórico no qual o acelerado desenvolvimento técnico-científico e a mercadorização da vida humana e de tudo que ela depende, ou pensa depender, aliena o pensamento crítico e a capacidade criativa do homem fica condicionada a uma espécie de “pensamento único”, impedindo a emancipação na tentativa de conscientização.

Os movimentos pacifistas e de não-violência não apresentam uma solução pronta a problemas tão complexos da pós-modernidade, são sim uma alternativa crítica e contestadora. Orientam-se em sentido oposto à direção que o arranjo atual aponta e são iniciativas de importância incalculável na construção de um pensamento diversificado e crítico da realidade

Os movimentos pacifistas são eficazes?

Descrevemos brevemente algumas possíveis acepções dos termos Paz, Pacifismo e Não-violência, para em seguida analisarmos sucintamente o movimento negro nos Estados Unidos, em especial os feitos e os propósitos de organizações estudantis, religiosas e de comunidades em favor dos direitos civis e da emancipação dos negros americanos.

Quais foram os ganhos do movimento negro? Em uma contabilização objetiva podemos enumerar muitos ganhos: a abolição das políticas segregacionistas, a concessão de direitos civis e políticos, a preocupação do governo em relação à desigualdade crescente etc. Ao mesmo tempo, a grande relevância foi, inegavelmente, a construção de espaços políticos que além de pautarem o debate sobre as questões raciais e os rumos da política externa norte-americana, levantaram tais questões até então em estado dormente e ausentes do debate público e democrático, e deixaram uma herança histórico-política imprescindível para a mobilização futura e a formação de novos quadros críticos. Segundo Hannah Arendt, se o legado das ações realizadas não conseguirem transformar-se em herança, os acontecimentos dissolvem-se na história e não há, de fato, história, mas sim, um desenrolar contínuo e sempre idêntico do tempo. Não existem marcas e referências por onde uma tradição pode ser instituída. Mas se essa história e seu legado não se perderem inteiramente, é por aí que se pode identificar e elaborar os registros de uma reinvenção possível e necessária.

Devido a essa reinvenção possível e necessária, finalizamos com os princípios da tese humanística do acadêmico-militante, A. J. Heshel, considerado um herético da modernidade. Heshel conseguiu conciliar seus ideais religiosos judaicos com a militância no movimento negro norte-americano na década de 60 e nos movimentos pacifistas contra a Guerra do Vietnã. A máxima de que “numa sociedade livre nem todos são culpados, mas todos são responsáveis” foi exaustivamente repetida por ele em suas aparições públicas em manifestações. Seu principal objetivo teria sido o de promover a “indignação espiritual” diante dos abusos e violações aos direitos e à dignidade humana. De acordo com Heshel, o testemunho passivo da injustiça contra o outro é um dos maiores sintomas da alienação das massas, dizia que sua maior descoberta foi que “a indiferença ao mal é pior que o mal em si mesmo”. Sua mensagem era de que seria possível construir uma crítica à civilização moderna inspirada, não apenas no marxismo, mas também nos profetas bíblicos, pois afirmava que a religião não pode ser considerada como escapismo ou relaxamento, a fé no contexto da civilização moderna é antes um desafio, um chamado para a ação. Ação essa que sozinha é insuficiente para desvendar e afirmar o sentido da existência humana, do ponto de vista da antropologia sagrada hesheliana a questão fundamental é vivencial e não ontológica. A pessoa não é apenas um ser no mundo, mas sobretudo um vivente, um devir em fluxo.

Desse devir em fluxo, Heshel e Luther King se envolveram com o movimento pacifista, que se opunha à intervenção americana na guerra civil que ocorria no Vietnã do Sul. A participação de ambos foi uma clara demonstração de que um movimento social específico de caráter libertário, pode encontrar afinidades com outros movimentos que também questionam o processo de modernização na sociedade moderna. E também de como “afinidades eletivas” aparecem entre movimentos de contestação e crítica social.



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