Hegemonia e a Normatividade na Economia Política Internacional

30abr07

 Trabalho escrito como conclusão do Grupo de Estudos de Economia Política Internacional

                                                                                                                                Leonardo Fontes

 

Introdução

 

 O objetivo deste trabalho é tentar oferecer uma conceitualização alternativa da idéia de hegemonia, criticando a “teoria da estabilidade hegemônica” de Gilpin e Kindleberger.

Para tanto, partiremos da idéia de que toda teoria tem uma função social, pois parte de alguma visão específica da sociedade e, portanto, não pode ser chamada de neutra. Da mesma forma, destacaremos a diferenciação entre uma teoria que pretende manter o status quo, apenas se preocupando com o seu funcionamento adequado e uma teoria que busca encontrar as formas possíveis de transformação da realidade.

Assim, após uma breve apresentação da teoria em discussão e das críticas contra ela levantadas, pretendemos esboçar uma nova idéia a respeito da hegemonia no sistema internacional. A partir da idéia de Antonio Gramsci de uma hegemonia da classe dominante, que combina coerção e consentimento, sendo portanto, uma hegemonia muito mais do que militar e econômica, mas uma hegemonia das idéias, tentaremos, apoiado nas idéias de Robert Cox, transplantar essa hegemonia para o cenário mundial.

A conclusão deste trabalho vai no sentido de entender a teoria da estabilidade hegemônica como normativa e defensora da ordem vigente. Ao contrário, o conceito de hegemonia Gramsciano está muito mais preocupado com as mudanças no sistema, podendo assim ser classificado como uma “teoria crítica da sociedade”.


Neutralidade e Normatividade nas Ciências Humanas

 

Antes de tudo, é importante que esteja claro o ponto de onde partiremos. Para tanto, é fundamental distinguir dois conceitos diferentes de ciência que irão guiar este trabalho. O primeiro, nas palavras de Max Horkheimer é definido como “teoria tradicional”, e seria “uma sinopse de proposições de um campo especializado, ligadas de tal modo entre si que se poderiam deduzir de algumas dessas teorias todas as demais.” Ainda segundo o mesmo autor, a validade dessa teoria residiria “na consonância das proposições deduzidas com os fatos ocorridos.[1]” Nesse sentido,

“Na medida em que o conceito de teoria é independentizado, como que saindo da essência interna da gnose, ou possuindo uma fundamentação a-histórica, ele se transforma em uma categoria coisificada e, por isso, ideológica[2]

O grande erro a que incorre essa ciência está em separar o indivíduo da sociedade, em separar o sujeito pesquisador do objeto pesquisado. Essa separação é inviável do ponto de vista da “teoria crítica”, o segundo tipo de ciência que vamos tratar neste trabalho. Pois “o cientista e sua ciência estão atrelados ao aparelho social, suas realizações constituem um momento de auto-preservação e da reprodução contínua do existente, independentemente daquilo que imagina a respeito disso.[3]” Ou seja, por mais que o cientista deseje, ou pense estar, ele não é capaz de se desvencilhar de sua posição política e social dentro da sociedade. Na visão da teoria crítica, portanto, existiria um “mecanismo social invisível” que impediria o pesquisador de agir segundo suas próprias decisões, pois mesmo suas decisões aparentemente mais neutras e individuais seriam influenciadas por suas experiências e expectativas sociais.

Assim, é na separação entre valor e ciência, entre o saber e o agir que se encontram os limites da teoria tradicional, pois ao considerar a gênese dos fatos e a aplicação prática de seus conceitos como algo exterior, deixa de perceber a importância da história na construção da realidade, reificando todo o existente, sem enxergar os caminhos para a transformação do presente.

Antonio Gramsci, pensador marxista italiano, compartilha da mesma opinião ao afirmar que

“é um erro exigir da ciência como tal a objetividade do real, já que está objetividade é uma concepção do mundo, uma filosofia, não podendo ser um dado científico.[4]

Para Gramsci, a objetividade seria uma “realidade que é verificada por todos os homens”, que independa dos pontos de vista particulares ou de grupo. No entanto, a própria idéia de que exista essa objetividade é também “uma concepção particular de mundo, uma ideologia.” Portanto, não é possível a existência de um ponto de vista neutro, isso seria uma contradição em si, já que ao ser ponto de vista, não é neutro.

Dessa forma, para Gramsci, tentar separa ser e pensar, homem e natureza, atividade e matéria ou sujeito e objeto é cair em uma “forma de religião” ou em uma “abstração sem sentido”. Isto que dizer que, para o autor, essas separações são totalmente impensáveis do ponto de vista da racionalidade humana.

Por sua vez, Robert Cox, argumenta de forma clara e concisa que toda “teoria é sempre para alguém e para algum propósito[5]”. Cox pretende demonstrar aqui o mesmo que vem sendo argumentado neste trabalho, que nenhuma teoria pode se considerar neutra, pois

“Toda teoria tem uma perspectiva. Perspectivas derivam de uma posição no tempo e no espaço, especificamente tempo e espaço social e político […] O mundo é visto a partir de um ponto de vista definível em termos de classe, nacional ou social, de dominação ou subordinação, de potência ascendente ou decadente, de um senso de imobilidade ou de crise presentes de experiências passadas e de esperança e expectativas para o futuro.[6]

Assim, Cox diferencia dois propósitos diferentes a que podem servir uma teoria: ser um guia para ajudar a resolver problemas colocados dentro dos termos de uma perspectiva particular; ou partindo de um processo mais reflexivo, servir para a abertura de possibilidades de diferentes perspectivas cuja problemática se tornaria criar um mundo alternativo.

Analogamente, ele distingue dois tipos de teoria a partir desses propósitos. O primeiro tipo é o que o autor denomina de problem-solving (que chamaremos aqui de teoria de “resolução de problemas”) que ao tomar o mundo como um dado, com as relações de poder e as instituições nas quais elas são organizadas como estruturas prontas para ação, tem como objetivo principal o bom funcionamento dessas relações e das instituições, lidando efetivamente com fontes particulares de problemas.

Por outro lado, o segundo tipo de teoria, a teoria crítica que, ao se perguntar como a ordem posta foi estabelecida, busca uma compreensão histórica da realidade, se preocupando não com a manutenção do sistema, mas com as possibilidades para efetuar uma efetiva mudança no status quo. Nesse sentido, trata-se de “uma teoria da história, na medida em que está preocupada não apenas com o passado, mas com o contínuo processo de mudança histórica.[7]

Portanto, Cox dá passo além do ponto de onde estávamos argumentando, pois para ele a disputa teórica não está mais em provar que não existe ciência neutra, para ele isto já está posto, comprovado por sua primeira frase citada acima (“teoria é sempre para alguém e para algum propósito”). O grande salto que Cox nos propõe é a divisão entre teoria de resolução de problemas e teoria crítica, a primeira preocupada com o funcionamento da ordem vigente e a segunda em busca de meio para transformar essa ordem estabelecida.

É a partir dessas duas perspectivas que parte nossa argumentação, a saber, a idéia de que não existe neutralidade nas ciências humanas, que toda ciência é feita a partir de uma certa visão e tem um determinado objetivo em sua elaboração, ou seja que toda ciência é normativa na medida em que é capaz de forjar uma determinada realidade, e que esse objetivo pode ser a resolução de problemas pontuais a fim de manter o status quo funcionando bem ou, a compreensão histórica e filosófica da ordem com o intuito de encontrar as saídas para a transformação e emancipação da humanidade.

 

A Teoria da Estabilidade Hegemônica:

sua Normatividade e seus Problemas

O passo seguinte de nossa argumentação irá no sentido de tentar mostra que a assim chamada “teoria da estabilidade hegemônica” se encaixa no conceito de Robert Cox de “problem solving” e tem, portanto, um nítido caráter normativo e, sobretudo, ideológico[8] que serão explorados mais adiante. Assim, a primeira tarefa que nos cabe é apresentar tal teoria e mostrar como ela realiza tal trabalho de falseamento da realidade.

A idéia de que o mundo ou mais precisamente a economia política mundial precisava de “um estabilizador e apenas um estabilizador[9]” nasceu com Charles Kindleberger em seu famoso livro “The World in Depression, 1929-1939” que busca na ausência de um “líder” que fosse capaz de garantir a estabilidade daquele momento. Segundo Kindleberger, a inabilidade inglesa e a falta de condições ou de vontade dos Estados Unidos de assumir a responsabilidade pela estabilização do sistema foi o que tornou a crise tão ampla e tão longa.

Para Kindleberger, a estabilização do sistema deve se dar em três esferas distintas através da garantia de provisão de bens públicos nessas áreas: a manutenção de um mercado relativamente aberto para a troca de bens; a garantia de empréstimos de longo prazo contra-cíclicos; e a atuação como emprestador de última instância durante as crises, além de gerenciar, em algum grau, a estrutura de taxas de comércio exterior e as políticas monetárias domésticas dos países.

Assim, na visão do autor, a liderança (note-se que o autor não usa o termo hegemonia) não deve ser vista com uma conotação negativa, mas como uma idéia boa no sentido de garantidor da provisão de bens públicos e de responsabilidade. Para ela, a idéia de

“liderança rejeita exploração e implica uma freqüente função crítica na provisão de bens públicos […] Liderança pode ser pensada à primeira vista como persuasão de outros a seguir um dado curso de ação que não seria do interesse do seguidor no curto prazo se ele fosse verdadeiramente independente.[10]

Portanto, a teoria da estabilidade hegemônica, na leitura de Kindleberger, se aproveita de uma idéia tida como universalmente bem aceita, a estabilidade ou ausência de crises, para incorporar valores altamente discutíveis e controversos como “bens públicos”, tais como o livre comércio e a livre mobilidade de capitais.

Robert Keohane foi quem chamou essa tese de “teoria da estabilidade hegemônica”, que conheceu em Robert Gilpin seu máximo desenvolvimento.

Em “War and Change in World Politics”, Gilpin constrói seu argumento a partir da importância da estrutura na definição do comportamento dos atores, para isso ele se utiliza da definição de Kenneth Waltz[11], segundo o qual a estrutura é definida pelo princípio ordenador (anárquico ou hierárquico), a especificação das funções entre unidades e a distribuição das capacidades.

Assim, ele parte de duas premissas fundamentais: a primeira é de que “um sistema internacional é estável se nenhum Estado acredita ser lucrativo tentar mudar o sistema[12]”; e a segunda afirma que “um Estado vai tentar mudar o sistema internacional se os benefícios esperados excederem os custos esperados[13]”. Diante disso, a conseqüência imediata é que o único sistema internacional estável é um sistema hegemônico, pois o hegemon estaria em uma posição confortável de domínio sobre os demais, desejando manter o status quo, enquanto que os demais países não teriam vontade nem condições de mudar esse sistema, pois os custos de enfrentar o hegemon seriam muito superiores aos possíveis benefícios advindos desse enfrentamento.

Segundo Gilpin, com o advento do Estado-nação moderno abriu-se a possibilidade de conciliação entre o poder em larga escala (característico dos impérios) e a lealdade de seus membros (típico de organizações localizadas como as cidades-Estado ou feudos). Assim, poder econômico e poder militar passaram a ficar muito próximos, se tornando sinônimos muitas vezes. A consolidação dos Estados, o aumento da importância do crescimento econômico e dos avanços tecnológicos para distribuição da riqueza e do poder mundial e a criação de uma economia de mercado mundial permitiu, no pensamento de Gilpin, o surgimento de sucessivas hegemonias mundiais, a britânica e a americana.

Dessa forma, Gilpin constrói aqui uma armadilha do sistema mundial em que os Estados seriam compelidos a se comportar de forma agressiva, sempre buscando dominar todo o sistema, assim, a única forma de que a estabilidade, econômica e política, seja mantida é por meio de um Estado que assuma tal responsabilidade baseado em sua posição hegemônica.

No entanto, é em seu outro livro “A Economia Política das Relações Internacionais” que fica mais claro o caráter ideológico da teoria desenvolvida por Gilpin, no qual ele afirma que

“O poder hegemônico deseja e pode estabelecer e manter as normas e as regras de uma ordem econômica liberal, e com seu declínio essa ordem se enfraquece muito” e que “a ordem liberal não poderia florescer e alcançar seu pleno desenvolvimento sem a presença de um poder hegemônico[14]

Esta passagem é central para entender a normatividade da teoria de Gilpin que está no desejo de estabelecer e manter uma ordem plenamente liberal no mundo, idéia que ele toma à priori como algo bom, sem discutir a questão. “A teoria da estabilidade hegemônica argumenta que uma economia de mercado aberto representa um bem coletivo ou público[15]”. Assim, Gilpin também parte da idéia de que a potência hegemônica é responsável pelo suprimento de bens públicos. “Presume-se que um sistema econômico liberal não pode ser auto-sustentável , precisa ser mantido no longo prazo pelas ações da economia dominante[16]”.Ou seja, a função do hegemon é garantir o bom funcionamento do sistema liberal, aqui explicita-se o caráter de solucionador de problemas de sua teoria, dentro da dicotomia proposta por Cox, ficando claro o sentido normativo da tese.

Da mesma forma, ao afirmar que “o crescimento e o dinamismo da potência hegemônica servem como exemplo dos benefícios do sistema de mercado, funcionando como um motor de crescimento para o resto do sistema[17]”, ele deixa claro o caráter ideológico da teoria, pois por meio de um exemplo tenta-se falsear a realidade, como se todos tivessem as mesmas condições de desenvolvimento em uma economia de livre mercado[18].

Por fim, Gilpin acredita que o mercado internacional, uma vez em funcionamento tende a criar uma dinâmica própria. Essa dinâmica leva a uma transformação do contexto político, minando o poder hegemônico. Assim, existiria uma contradição inerente à economia mundial liberal, pois o funcionamento do sistema de mercado tende a destruir as bases em que ele foi estabelecido através da difusão do poder econômico, militar e tecnológico do núcleo para os países em ascensão situados na periferia ou em outras posições do sistema.

 

Algumas perguntas não respondidas

A teoria da estabilidade hegemônica tem, sem dúvida alguma, um forte poder de persuasão, caso contrário não poderíamos chamá-la de ideológica, pois na ausência de qualquer verossimilhança ela não poderia se pretender verdadeira. No entanto, ela deixa algumas perguntas não respondidas, principalmente se observarmos os últimos dez anos de nossa história.

José Luis Fiori[19] mostra que apesar do consenso que foi criado a respeito da estabilização do sistema internacional por um hegemon, o funcionamento do hiper-poder global norte-americano, depois de 1991, vem contradizendo estas teorias. A grande dificuldade de explicação se encontra no paradoxo de que as principais crises do sistema foram provocadas pelo próprio poder que deveria ser seu grande pacificador e estabilizador. Portanto, os conceitos de “liderança”, ou “hegemonia internacional” ajudam a compreender a estabilização e o funcionamento “normal” do Sistema Mundial, mas não dão conta das suas contradições e do desenvolvimento tendencial dos conflitos que existem e se mantém ativos, mesmo nos momentos de maior legitimidade e paz hegemônica.

Dessa forma, Fiori deixa claro que a teoria da estabilidade hegemônica não consegue explicar o que vem ocorrendo no mundo atualmente. A situação que se apresenta é de inteira preponderância de uma única potência (hegemon) que, portanto, seria capaz de funcionar como estabilizador mundial, como prevê a teoria da estabilidade hegemônica. Contudo, o que vemos é o aumento das crises e guerras no sistema internacional. O funcionamento da hegemonia americana, a partir do início dos anos 1990 é uma pergunta que não pode ser respondida pela teoria da estabilidade hegemônica tal como está posta ultimamente.

Maria da Conceição Tavares[20] afirma que a questão da hegemonia americana não se centra nas capacidades econômicas e militares da potencia dominante, mas sim na sua capacidade de enquadramento econômico financeiro e político-ideológico de seus parceiros. Assim, ela mostra que esta vitória político-ideológica dos Estados Unidos após a década de 1980 foi precedida por um reenquadramento por parte do governo americano do movimento policêntrico que vinha tendo lugar a partir da transnacionalização dos capitais de origem norte americana. Ou seja, o poder que os Estados Unidos ainda possuíam, segundo Tavares, foi capaz, através de sua política econômica interna e externa, de 1979 para cá, de reverter as tendências de dispersão do poder e retomar o controle financeiro internacional através do que ela denominou de “diplomacia do dólar forte” que, apesar de ter mergulhado o mundo numa recessão generalizada, deu aos Estados Unidos a capacidade de retomar a iniciativa, colocando os rumos da economia mundial nas mãos da potência hegemônica, mais do que em qualquer outra época.

Nesse sentido, Tavares derruba a idéia, presente na teoria da estabilidade hegemônica, de que os “caronas” (free riders) seriam capazes de se aproveitarem das condições proporcionadas pelo hegemon para acelerarem seu desenvolvimento, já que poderiam iniciar seu desenvolvimento tecnológico muitos passos à frente, o que diminuiria seus custos. No entanto, a realidade mostra que os Estados Unidos, apesar da crise vivida nos anos 1970, ainda desfrutavam de plenas condições de comandar o sistema internacional e controlar o crescimento de seus principais adversários, Japão e Alemanha.

Da mesma forma, François Chesnais[21] mostra que a economia mundial, após a década de 1970, tem apresentado uma dinâmica de crescimento muito lenta e bastante concentrada em um número restrito de lugares, o que mais uma vez coloca em questão se o que estamos vivendo é um sistema hegemônico, já que temos uma única grande potência internacional. Mas se for isso, então porque o crescimento é tão concentrado, não deveria a economia liberal proporcionada pela potência hegemônica trazer um benefício mais generalizado?

Portanto, longe de apresentar uma explicação satisfatória do sistema mundial, a teoria da estabilidade hegemônica parece muito mais ter uma função ideológica nas relações internacionais atualmente. Pois a partir de algo que aparentemente é verdadeiro, o fato de uma potência hegemônica criar condições para o florescimento de uma economia “liberal”, controlada por essa potência e de regimes internacionais sob sua tutela; ela traz consigo uma série de outros elementos que são bastante discutíveis, como por exemplo, que essa economia liberal possivelmente traga estabilidade para o sistema político e econômico internacional, ou que ela gere benefícios a todos os participantes do sistema hegemônico, possibilitando a ação dos “caronas”. Igualmente, pode-se dizer que é ideológico o fato de a teoria partir de um conceito tido como universalmente aceito, a estabilidade, ela coloca como também universalmente aceito o fato de uma economia liberal proporcionar maiores condições de desenvolvimento a todos os países.

 

Por um Outro Conceito de Hegemonia

 

A hipótese que pretendemos levantar nesta parte final do trabalho é que a suposta estabilidade trazida pela existência de um hegemon não advém da economia liberal que ele é capaz de proporcionar, nem advém diretamente do poderio econômico e militar que ele possui, mas sim da “hegemonia ideológica” sustentada por ele, mas que ao mesmo tempo hegemonia e estabilidade não são duas coisas que andam tão próximas. Nesse sentido, não podemos, de forma alguma, ignorar o poder econômico e militar da potência hegemônica, eles entram como símbolos de sua superioridade e por isso são parte da hegemonia ideológica.

Para realizar esse exercício teórico, teremos mais uma vez que recorrer aos ensinamentos de Gramsci que afirma que a hegemonia é a

“capacidade de unificar através da ideologia e de conservar unido um bloco social que não é homogêneo, mas sim marcado por profundas contradições de classe. Uma classe é hegemônica, dirigente, dominante, até o momento em que – através de sua ação política, ideológica, cultural – consegue manter articulado um grupo de forças heterogêneas, consegue impedir que o contraste entre tais forças exploda, provocando assim uma crise na ideologia dominante, que leve à recusa de tal ideologia, fato que irá coincidir com a crise política das forças no poder.[22]

Assim, o que pretendo propor aqui é uma ampliação do conceito de hegemonia, não sendo apenas política, mas sendo também “um fato cultural, moral, de concepção de mundo[23]”. Portanto, a hegemonia deve ser entendida como uma combinação entre coerção e consentimento. Historicamente, para se tornar hegemônico, um Estado teria que fundar e proteger uma ordem mundial que seja universal em sua concepção, ou seja, que os outros Estados encontrem benefícios em participar dessa ordem, não basta que ela seja liberal se não houver uma crença nos demais países do sistema de que a ordem liberal é a que lhes mais favorece.

Deste modo, a hegemonia na ordem internacional deve ser entendida, como propõem Robert Cox[24] sendo, no seu princípio, uma expansão externa de uma hegemonia nacionalmente estabelecida por uma classe dominante. Assim, no nível internacional, a hegemonia não é meramente entre Estados, trata-se de uma ordem dentro de uma economia mundial com um modo de produção que penetra em outros países e articula outros modos de produção subordinados.

Em suma, a estabilidade econômica e política que conhecemos durante o período da hegemonia britânica e da hegemonia americana se deveu, para além do poderio econômico, militar e tecnológico da principal grande potência, ao alcance de suas respectivas supremacias ideológica e cultural. Para além de proporcionar uma economia liberal, havia a crença generalizada pelos países participantes do sistema de que o liberalismo era o melhor sistema econômico para seu próprio desenvolvimento. No caso americano, o keynesianismo teve um papel fundamental para assegurar a estabilidade, uma vez que permitia aos Estados um desenvolvimento que o liberalismo defendido externamente pelos Estados Unidos não seria capaz de proporcionar. Há que se destacar também o papel dos intelectuais nesse sistema de dominação, uma vez que são eles que produzem as teses que legitimam o sistema defendido pelo hegemon e, por isso, recebem de Gramsci o nome de “intelectuais orgânicos do capitalismo”. Diante disso, a saída para a transformação do sistema mundial está na quebra da hegemonia ideológica dominante, os caminhos para essa quebra são diversos e vão além do objetivo deste trabalho. Por ora, pode-se dizer que, o que vem ocorrendo desde o início da década de 1990 é um fortalecimento da hegemonia americana, no sentido gramsciano, pois nunca o consenso em torno das idéias defendidas pela superpotência foram tão bem aceitas no mundo ocidental. A instabilidade que vemos em outras partes do mundo é decorrente da adaptação do sistema mundial a um sistema hegemônico que une coerção e consentimento para expandir sua dominação. Possivelmente, dado a expansão que vem sofrendo o poderio norte-americano, estejamos caminhando, como defende Fiori, para um “império mundial”, as conseqüências disso e se esse império de fato se realizar já é outra história.

 

Bibliografia

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WALTZ, Kenneth. “Teoria das Relações Internacionais”. Lisboa: Grandiva, 2002.


[1] HORKHEIMER, Max. “Teoria Tradicional e Teoria Crítica”. In: Os Pensadores. São Paulo, Abril Cultural, 1980, p. 117.

[2] Idem, p. 119.

[3] Idem, pp. 22 e 23.

[4] GRAMSCI, Antonio. “Concepção Dialética da História”. Tradução: Carlos Nelson Coutinho, Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1978, pp. 68 e 69.

[5] COX, Robert. “Social Forces, States and World Orders – Beyond International Relations Theory”. In: KEOHANE, Robert. The neorealism and its critics. New York: Columbia, p. 207. Tradução minha.

[6] Ibidem, idem.

[7] Idem, p.209.

[8] É importante ressaltar que usaremos, neste trabalho, ideologia no sentido marxista, ou seja como um conceito crítico que implica em ilusão, um falseamento de uma realidade a partir de uma imagem aparentemente verídica.

[9] KINDLEBERGER, Charles. “The World in Depression, 1929-1939”. Berkley: Univ. of California Press, 1979, p.305.

[10] KINDLEBERGER, Charles. “Dominance and Leadership in the International Economy: Exploitation, Public Goods, and Free Rides”. In: International Studies Quarterly, vol. 25, N° 2, JSTOR, p. 242 e 243.

[11] WALTZ, Kenneth. “Teoria das Relações Internacionais”. Lisboa: Grandiva, 2002.

[12] GILPIN, Robert. “War and Change in World Politics”. New York: Cambridge Universitu Prss, p. 50

[13] Ibidem idem.

[14] GILPIN, Robert. “A Economia Política das Relações Internacionais”. Brasília: UNB, 2002, p. 92.

[15] Idem, p. 94.

[16] Idem, p. 95.

[17] Idem, p. 96.

[18] São mais que conhecidas as teses que mostram as desvantagens dos países atrasados tecnologicamente dentro de um sistema de livre comércio. Apenas para ficar em um exemplo mais marcante poderíamos citar as tese de Raúl Prebisch sobre a “deterioração dos termos de troca”.

[19] FIORI, José Luis. “Formação, Expansão e limites do Poder Global”. In: FIORI, José Luis (org.) O Poder Americano Petrópolis, Vozes, 2004.

[20] TAVARES, Maria da Conceição. “A Retomada da Hegemonia Americana”. In: TAVARES, M. C. e FIORI, J. L. (orgs.). Poder e Dinheiro – Uma economia política da globalização. Vozes, Petrópolis, 1998.

[21] CHESNAIS, François. “A Finança Mundializada: raízes sociais e políticas, configuração, conseqüências” Tradução: Rosa Maria Marques e Paulo Nakatani, São Paulo, Boitempo, 2005.

[22] GRUPPI, Luciano. “O Conceito de Hegemonia em Gramsci”. Tradução de Carlos Nelson Coutinho. Edições Graal, Rio de Janeiro, 1978, p. 70.

[23] Idem.

[24] COX, Robert. “Gramsci, Hegemony and International Relations: An Essay in Method”. Millenium, n° 2.



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