O termo Extensão

30abr07

Texto publicado no jornal estudantil “O Visconde” em 2005

Leonardo Fontes

 

Esse texto é especialmente destinado aos ingressantes desta, que é dita a melhor universidade do Brasil. Vou tratar aqui de um assunto bastante polêmico, extensão universitária, um assunto que em uma discussão pode exibir muitos pontos de vista e levar a poucas conclusões concretas e poucos consensos. Trata-se de um tema que muitos nunca nem ouviram falar e talvez saiam da universidade sem se dar conta de sua importância.

Não pretendo, aqui, me prender à discussão da extensão como prática ou conceito, o que pretendo fazer é discutir a qualidade do termo extensão para representar esse conceito e evitar eventuais distorções no seu uso. No entanto, é impossível discutir isso, sem passar pela concepção que tenho de Extensão.

Nas últimas férias, li um livro do grande educador Paulo Freire chamado Extensão ou Comunicação, que discute qual desses termos seria mais bem empregado para descrever o que chamamos hoje de Extensão Universitária.

Pergunto aos nobres calouros: o que lhes vem à cabeça quando ouvem a expressão “Extensão Universitária”? Depois de alguns meses na universidade e de ouvir algumas vezes esse termo comecei a entender Extensão como sendo a foram de “estender” à sociedade os conhecimentos produzidos na universidade. Essa concepção não é totalmente errada, mas é no mínimo incompleta. O essencial da extensão é que ela deve ser uma via de mão dupla, ou seja, o conhecimento não pode apenas sair da universidade em direção à sociedade, mas deve também vir da sociedade para a universidade e isso não está implícito na palavra extensão e, é justamente por isso, que Paulo Freire defende a adoção do termo Comunicação para essa prática.

Freire mostra em seu livro algumas associações que a palavra extensão pode trazer. Entre elas estão: transmissão, entrega, doação, messianismo, invasão cultural, manipulação, superioridade e inferioridade. Eu acrescentaria a essa lista o termo assistencialismo, que é altamente repudiado por diversos grupos de estudantes que praticam a extensão dentro da USP. Extensão, segundo essa visão, pode dar a impressão de que quem está dentro da universidade detém um conhecimento tão superior que não deve nem sequer tentar entender e aprender com o conhecimento gerado no dia-a-dia da sociedade. Da mesma forma, como nem todos têm acesso à universidade a extensão seria a forma que, aqueles que desfrutam desse privilégio de estudar gratuitamente durante sua graduação ou pós-graduação, têm para retribuir esse “favor” à sociedade. O termo extensão nos leva, portanto, à impressão incorreta de que o conhecimento só pode ter uma direção o da universidade para a sociedade, pois o conhecimento só seria produzido na primeira.

No Anteprojeto de Reforma Universitária que o governo pretende enviar ao Congresso a palavra extensão aparece diversas vezes, entretanto não é definido, em momento algum, o que é e o que não é extensão. Dessa forma, abre-se espaço para que curso pagos de MBA, ou programas meramente assistencialistas, ou projetos de consultoria de empresas juniores sejam considerados extensão e atendam às exigências feitas pelo governo. Não sei se a solução para isso seria usar o termo comunicação, mas algumas distorções certamente seriam evitadas, ou pelo menos seria mais difícil a manipulação do conceito.

Não tenho a pretensão de revolucionar a extensão na USP com esse artigo, só peço aos novos alunos que prestem atenção ao que lhes será apresentado como extensão e que tenham um espírito crítico, não apenas enquanto universitários, mas principalmente como cidadãos. Questione, critique, participe, converse com seus veteranos, veja como atua seu Centro Acadêmico, quais são as suas possibilidades de atuação dentro da universidade. A USP pode até ser a melhor universidade do país, mas isso não significa que sua qualidade é satisfatória. A sua participação e suas idéias são fundamentais para transformá-la em algo que realmente satisfaça as necessidades da sociedade.



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