Teoria e prática: por uma desmistificação do pragmatismo

11jul07

Teoria e prática: por uma desmistificação do pragmatismo

Artigo publicado na edição de junho/2007 de “O Visconde” (jornal estudantil da FEA/USP) 

Jonas Medeiros e Renata Preturlan

            Na campanha presidencial do ano de 2006, o candidato do PSDB, Geraldo Alckmin, apresentou sua plataforma como defensora do choque administrativo, da competência gerencial, da eficiência e da transparência. O fundamental desta postura reside na neutralidade e na imparcialidade de que ela se reveste, sendo esta a origem de seu apoio junto a diversos setores da sociedade brasileira. Por trás desta forma de raciocínio, está presente uma mentalidade cuja forma de funcionamento é a resolução pragmática e racional de problemas, por meio da aplicação do método correto a partir de dados empíricos. O sucesso desta empreitada consiste no seguimento de etapas claras: medir, calcular, prever, resolver.

            Este é um fenômeno visível em diversas áreas, como a universidade. Há uma tendência generalizada de adoção da prática metodológica das ciências exatas nas ciências humanas. Isto transforma a teoria econômica, por exemplo, em uma disciplina que pretende ter chegado a um diagnóstico definitivo e inquestionável, por meio da descoberta de leis formalizadas. O resultado disso são duas operações de esvaziamento da historicidade, seja do objeto de estudo – no qual a estrutura econômica passa a ser vista como um dado eterno e imutável – seja do próprio desenvolvimento científico – que ocorre numa linha evolutiva que culmina no saber correto.

            Assim, ignora-se a especificidade da teoria social. No âmbito das humanidades, tudo é interpretação. Desse modo, não existe possibilidade da afirmação de uma única maneira de se apreender a realidade, que se proponha neutra. Todas as interpretações são permeadas pelos valores de quem as elabora. A pluralidade de valores e interpretações configura, como pretendemos desenvolver a seguir, uma divergência eminentemente política.

O pragmatismo, entretanto, se apresenta como uma prática que não partiria de nenhuma interpretação teórica, uma vez que ele acessaria diretamente a realidade, sendo suas soluções lógicas e necessárias. A teoria pode ser encarada deste ponto de vista como algo que não produz resultados concretos e é, portanto, ineficiente e dispensável (“na teoria é uma coisa, na prática é outra…”).

Neste artigo pretendemos desmistificar o discurso do pragmatismo puro, racional e neutro. Partimos da hipótese de que teoria e prática são uma unidade indissociável. Trata-se de momentos diferentes, mas que só podem ser encarados um em função do outro. Definimos a teoria como compreensão da realidade e a prática, intervenção na realidade. Do nosso ponto de vista, dadas a complexidade e a historicidade do meio social, este somente é percebido por meio de mediações parciais e interpretativas. Ao nos referirmos à “historicidade”, queremos dizer que a realidade é dinâmica, construída e reconstruída simbólica e materialmente pelos seres humanos de forma contínua.

No contexto social não há puros determinismos nem voluntarismos, ou seja: as forças impessoais não ditam o desenvolvimento histórico por si sós nem a vontade dos atores se realiza autonomamente. O pragmatismo é fruto de uma matriz determinista, na qual a teoria é uma mera descrição da realidade, que consiste em leis sobrehumanas; já a prática é a reprodução automática de regras dadas de comportamento, o que torna aquela realidade algo inquestionável. Portanto, a abordagem pragmática significa a implantação contínua de um paradigma hegemônico, mascarada por uma naturalização dos atos humanos que nega ao homem ser o sujeito de sua própria história. Trata-se, desta maneira, de uma postura evidentemente conservadora.

Ao contrário do pragmatismo, que subestima a teoria e naturaliza a prática, pensamos que a intervenção é possibilitada e condicionada pela compreensão da realidade. A efetividade de toda intervenção social depende de tomar a realidade existente – tanto simbólica quanto material – como ponto de partida. Uma vez que a realidade só se torna acessível por meio de interpretações, são estas que abrem o leque de intervenções possíveis. Porém, as interpretações se dão como recortes do conjunto das relações sociais, nunca apreendendo-as no seu todo, o que limita as possibilidades de atuação concreta.

Simultaneamente, a interferência altera o meio social, trazendo a necessidade de recriação daquela compreensão inicial. Assim, teoria e prática travam uma interação mutuamente determinada. Neste processo de retroalimentação, elas constituem uma unidade na forma de projetos políticos que não resultam em totalidades, mas sim em parcialidades conflitivas. É a disputa entre projetos que constrói dinamicamente a história.

Tendo isto em vista, o pragmatismo perde seu pretenso caráter de universalidade e neutralidade e pode ser visto como parte integrante de um processo político de despolitização das eleições, da universidade e da sociedade. A suposta desideologização esconde na verdade uma ideologização, ou seja: apresenta-se como universal um projeto parcial e que é, portanto, político e passível de disputa. Ao se apresentar como um caminho único e não reconhecer a legitimidade de outras interpretações, esta mentalidade é intrinsecamente autoritária.

Se, entretanto, buscamos a realização de uma política verdadeiramente democrática, é indispensável o reconhecimento mútuo entre os projetos como parcialidades conflitivas e incompletas, de modo que se tornem abertos à troca e à construção coletiva. Isso implica num novo entendimento do que é fazer política; ela não é, como para os movimentos vanguardistas, a imposição de um projeto correto de sociedade nem, como para o pensamento liberal clássico, a simples soma das vontades individuais levando à vitória da proposta majoritária. Assim, a política deixa de ser um jogo puramente conflitivo, com o objetivo de eliminar o outro, para se constituir num processo interativo que pressupõe o outro. A condição de realização desta nova política é a existência de um espaço público de fato, que permita o diálogo real.

Uma vez que o espaço público é constituído pela interação entre projetos políticos e estes projetos nada mais são do que a unidade teoria-prática, entendemos que a densidade e a pluralidade de interpretações são elementos fundamentais: o conhecimento é aquilo que dinamiza a esfera pública, que lhe dá movimento e significação.            Entretanto, o atual quadro organizacional da Universidade – a instituição que deveria ser o locus da produção social de conhecimento por excelência – é demasiadamente marcado pela departamentalização, o que constitui um obstáculo para a formulação de interpretações inovadoras e abrangentes sobre o país. É o que se denomina “especialização emburrecedora”. Simultaneamente a este quadro, encontramos a política brasileira presa em um mero jogo predatório pelo poder, no qual grupos partidários distintos disputam quem vai implementar um receituário que pouco se distingue. Assim, vemos uma sobreposição entre uma ausência de opções no cenário político (hegemonizado pelo “pensamento único”) e uma ausência de interpretações teóricas que constituam projetos políticos alternativos.

Coerentes com a nossa concepção de pensar e de agir, o ponto de partida para desentravar a política brasileira e para que possamos vislumbrar uma transformação da nossa sociedade é a reconfiguração da Universidade. Trata-se da afirmarmos a necessidade de uma produção autônoma de conhecimento na periferia, para que sejamos capazes de entender a especificidade do mundo que nos cerca e influenciá-lo.

Nossa proposta está longe de propor a primazia acadêmica para que a política se dê da forma como acreditamos – no mais, isso seria repetir o credo iluminista, o qual esconde traços autoritários. Pelo que já expusemos até aqui, encaramos o conhecimento como um momento da disputa entre projetos incompletos dentro de uma esfera pública. Neste sentido, a realização desta forma de fazer política é indissociável de um movimento da Universidade para fora de si mesma, ao encontro de atores sociais que complementem, interajam e dinamizem a relação entre compreensão e intervenção na realidade.

Por fim, se não começarmos a pautar o debate em termos que superem a dissociação equivocada entre teoria e prática, continuaremos condicionados por projetos que não se apresentam de forma transparente e tendem ao autoritarismo conservador.

E-mails: jonas.medeiros@uol.com.br e renatabp@gmail.com              



One Response to “Teoria e prática: por uma desmistificação do pragmatismo”

  1. 1 Márcio Moretto Ribeiro

    Concordo com o ponto de vocês. Acredito que o entendimento profundo dessa relações entre prática e teoria, entre o que é dado e o que pode ser mudado, entre nossas escolhas e o contexto que nos cerca etc. é um dos grandes desafios que estaremos constantemente enfrentando no processo de intervenção da nossa realidade.


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