Resenha do livro: “Sertanejos Contemporâneos- Entre a metrópole e o sertão”

12jul07

Por Mariana da Veiga

O livro analisado, “Sertanejos Contemporâneos: Entre a Metrópole o Sertão”, de Rosani Cristina Rigamonte (Editora Humanitas, 2001, 243 páginas), constrói-se em torno de alguns objetivos ousados, claramente apontados por José Guilherme Cantor Magnani em seu Prefácio. Primeiramente, trata-se de uma narrativa etnográfica que busca atualizar as referências contidas na ampla literatura existente sobre os nordestinos em São Paulo, a qual, do ponto de vista da autora, não dá conta de explicar a dinâmica dos processos sociais contemporâneos a partir dos quais esses migrantes se inserem no contexto da cidade. Nesse sentido, o livro busca, por um lado, desconstruir algumas imagens rígidas e consagradas pelo senso comum a respeito dos nordestinos em São Paulo, a partir de uma investigação das novas dinâmicas sociais e culturais que marcam a inserção dessa população na cidade e sua relação com seu local de origem, o sertão. Por outro lado, Rigamonte se propõe a investigar como estas dinâmicas se relacionam, de maneira mais ampla, com a dinâmica da vida cultural na cidade de São Paulo. Para compreender esses complexos arranjos e processos sociais, a autora optou pela realização de um estudo etnográfico multi-situado, que pretende analisar os percursos dos migrantes nordestinos em São Paulo atentando tanto para as maneiras como o modo de vida do sertão dialoga com o modo de vida da metrópole, como para o contrário- os diálogos entre o modo de vida da cidade e o modo de vida do sertão. Resumidamente, pode-se afirmar que o livro busca compreender a dinâmica da migração dos nordestinos na capital paulista partindo da análise de formas distintas de interação entre o moderno e o tradicional em diferentes atividades de sociabilidade e lazer pertencentes a esse grupo.  No caso particular da análise da população nordestina vivendo em São Paulo, Rosane identifica a existência de duas lógicas, que estão intrinsecamente ligadas entre si: a lógica da metrópole, de transformação da cultura em produto de consumo de massa, e a lógica do “pedaço”, espaço onde se almeja cultivar e fortalecer os vínculos da sociabilidade, diferenciação e pertencimento. O livro divide-se em uma Introdução e quatro capítulos, (Capítulo 1 “Trajetória de Pesquisa”, Capítulo 2 “CNT- a Contemporaneidade”, Capítulo 3 “A Praça Sílvio Romero- a tradição” e Capítulo 4 “A Festa no Sertão: O retorno às origens”), seguidos de uma seção dedicada às Considerações Finais da autora.  Na Introdução, Rigamonte descreve um forró muito famoso na periferia de São Paulo durante os anos 1970, um dos grandes eventos catalisadores do encontro de migrantes nordestinos no período, cuja dinâmica reflete alguns valores adotados por esta população naquele momento histórico. No Capítulo 1, discute as trajetórias de pesquisa, define seu objeto de reflexão, a metodologia adotada e as estratégias de pesquisa de campo. No Capítulo 2, centra-se numa reflexão sobre o Centro de Tradições Nordestinas (CTN), apontando seu caráter de grande empreendimento na cidade de São Paulo, em oposição à estrutura familiar do Forró do Severino descrito na Introdução. No Capítulo 3, aborda um ponto de encontro dominical dos nordestinos em São Paulo, a Praça Sílvio Romero, onde uma complexa rede de laços de amizade, parentesco, moradia, comércio, transportes, encomendas e entregas se desenrola. No Capítulo 4, narra o cotidiano na Festa de São João em Piripá, interior da Bahia, onde o Forró é tomado como um importante interlocutor do diálogo entre a vida na metrópole e a vida no sertão.

            A diversidade entre as práticas de lazer estudadas e a tentativa de explorar as relações entre elas são um dos pontos fortes do livro, à medida que permitem explorarmos diversos aspectos da cultura dos migrantes na metrópole e no sertão. O baile descrito na introdução tinha, inicialmente, um caráter local e familiar, porém cresceu em tamanho, estrutura e popularidade. É curioso notar que justamente este fator levou ao seu fechamento por parte do dono, Sr Severino, uma vez que ele acreditava que essas mudanças ameaçavam os objetivos iniciais da festa: propiciar o encontro entre os migrantes e reavivar as tradições culturais de seu local de origem. Pode-se dizer que o forró do Severino consiste numa forma de manifestação da cultura tradicional que se extinguiu à medida que seus idealizadores enxergavam que o contato com a cultura da metrópole esvaziava seu sentido original, caracterizando uma relação conflituosa entre os valores modernos e o tradicionais.

            O caso do CTN, fundado em 1991, é totalmente diferente: trata-se de um centro de lazer que foi construído com o objetivo de atrair migrantes nordestinos. O CTN conta com uma larga estratégia de divulgação de massa a partir de uma estação de rádio, a “Atual”, tratando-se, portanto, de outra forma de relação entre o tradicional e o moderno, marcada pela fusão destes dois elementos. É curioso notar que a programação desta rádio em si reflete uma curiosa combinação destes dois elementos; a grade musical que prioriza artistas que misturam elementos da música e da dança assim chamadas “populares” com elementos típicos de uma cultura de mercado, como as grande vendagens e a promoção de shows de grande repercussão, é um exemplo disso.

            Por sua vez, a Praça Sílvio Romero ilustra a apropriação de um local público pelos migrantes nordestinos, o que define o processo de construção de um pedaço nordestino dentro da cidade, enquanto a viagem ao sertão aborda um fluxo contrário, de incorporação de elementos da metrópole no local de origem dos migrantes. É interessante notar as relações de oposição e complementaridade que se estabelecem entre as práticas focadas por Rosane Rigamonte em seu livro: por um lado, podemos observar a já bastante citada oposição entre tradicional e moderno, presente, por exemplo, na comparação entre o forró do Severino e o CTN. É fundamental lembrar que, embora elementos dos dois pólos estejam presentes em ambos os exemplos, estes se diferenciam justamente por apresentar reinterpretações e ressignificações destes dois extremos, e resultados muito diferentes para estas interações. Há também outras relações a serem exploradas: a oposição entre público e privado (expressa na comparação entre a Praça Sílvio Romero e o CTN); os intercâmbios entre o urbano e o sertão; os diálogos entre o formal e o informal.

            O livro analisado demonstra o quão ricos podem ser os estudos que se debruçam sobre as formas de lazer como prática social que fornece elementos importantes para a compreensão dos valores e das mentalidades de uma dada população. Além disso, é possível afirmar que o maior valor da obra para os leitores em geral está justamente na metodologia adotada pela autora para a concretização desta pesquisa. A realização de um estudo que buscasse abordar a temática dos migrantes nordestinos partindo de uma perspectiva multi-focal e multi-situada reflete uma nova tendência por parte da Antropologia Contemporânea, a qual, vale dizer, é ainda muito pouco explorada. Trata-se, entretanto, de uma escolha extremamente coerente com a temática abordada- as dinâmicas culturais contemporâneas, sobretudo nos grandes centros urbanos, são caracterizadas pela transversalidade, pela complexidade crescente e pelo diálogo acentuado com outros movimentos sociais. Uma etnografia que focasse apenas um dos pólos escolhidos para a pesquisa de campo não daria conta de compreender a dinâmica dos processos envolvidos na construção das relações entre os migrantes nordestinos e a cidade de São Paulo. Em linhas mais gerais, a obra “Sertanejos Contemporâneos- Entre a Metrópole e o Sertão” abre espaço novas perspectivas de trabalho de campo em Antropologia, e instiga sobre a possibilidade de se aplicar a mesma metodologia de pesquisa para a análise de outros temas dentro da disciplina.

            Em tempo, cabe aqui uma ressalva: embora a própria construção do livro seja feita com base na busca freqüente de assinalar esses fluxos e interações, em alguns momentos sentiu-se falta de um exercício, por parte da autora, de integração dos diferentes momentos de sua experiência como etnógrafa. No caso de uma pesquisa multi-situada, sabe-se que é praticamente impossível alcançar conclusões fechadas sobre o tema que se pretende abordar, justamente por se tratar de uma pesquisa que trabalha com um objeto fluido, mutante, complexo: em vez da descrição de processos sociais estanques, visa-se compreender as dinâmicas e relações que definem o universo que se propõe estudar. Porém, é justo ressaltar que faltou à autora estabelecer algumas diretrizes que auxiliassem o leitor a enxergar a relação entre os processos descritos por ela em cada etapa de sua pesquisa de campo; embora ao longo da obra essas relações tenham sido satisfatoriamente analisadas, falta uma maior sistematização dos resultados e das conclusões da autora a respeito dos processos sobre os quais ela se debruçou durante sua pesquisa. Acredita-se que deveria ser esse o conteúdo da seção Considerações Finais, a qual, entretanto, não se articula claramente com os propósitos iniciais do texto, atendo-se a descrever apenas as influências da cultura “do sertão” sobre a vida cultural em São Paulo, e chamando a atenção do leitor para a crescente popularidade do forró mesmo entre grupos urbanos que não têm ligação direta com os nordestinos migrantes.    



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