A Evolução do Pensamento de John Maynard Keynes: Uma Análise de sua Teoria Econômica à Luz de sua Filosofia Social (Resumo)

26dez07

Resumo de Pesquisa de Iniciação Científica realizada entre agosto de 2006 e julho de 2007, com orientação do Prof. Raúl Cristóvão dos Santos, da FEA-USP, com bolsa do PIBIC-CNPq.

 

Felipe Teixeira Gonçalves 

 

 

 

Keynes e o Pós-Guerra

A outra reconfiguração do mapa da Europa foi a ocupação pela França de uma parte da Alemanha. Esta, contudo, foi parte de um processo maior dentro do Tratado de Versalhes, cujo objetivo era enfraquecer a Alemanha para que ela não fosse mais uma ameaça com a força que ela demonstrou na Grande Guerra.

Com a eclosão da Primeira Guerra Mundial, em 1915, Keynes é convocado para o Departamento do Tesouro, onde ele foi incumbido de acompanhar de perto a situação monetária dos Estados Unidos. Devido ao seu trabalho, ele foi designado para participar da conferência de paz que chegaria ao Tratado de Versalhes. Discordando frontalmente das posições de seu governo e dos demais países vencedores, Keynes abandona a conferência e, em 1919, publica seu livro “The Economic Consequences of the Peace<!–[if !supportFootnotes]–>[1]<!–[endif]–>”.

Nesta excelente obra, Keynes recupera a história do Tratado de Versalhes analisando em detalhes os fatores pessoais da conferência, o Tratado em si e o problema das reparações econômicas impostas à Alemanha. Ele então demonstra suas preocupações com relação ao futuro da Europa após o Tratado e propõe alguns remédios para resolver o problema.

Ele demonstra como Clemenceau, presidente da França, tinha como objetivo desfazer todo o progresso conquistado pela Alemanha desde 1870<!–[if !supportFootnotes]–>[2]<!–[endif]–>. Além da perda de território, o principal meio para se fazer isso era a destruição do sistema econômico alemão. Com isso, ele pretendia eliminar a disparidade de forças entre as duas potências.

O presidente americano Woodrow Wilson possuía um prestígio internacional sem igual na história na época da conferência de paz, devido aos seus discursos e, em especial, à sua proposta dos Quatorze Pontos e da Liga das Nações. Esperava-se que ele seria o responsável pela correção dos erros do passado e pela fundação de um novo futuro para a civilização liberal. Porém, era apenas uma idéia equivocada sobre ele. Ele não tinha nenhum plano nem idéias para a conferência, apenas tinha o objetivo de garantir a Liga das Nações. Além disso, estava mal informado a respeito das condições da Europa na época e era meio devagar e pouco flexível para compreender e se adaptar às situações apresentadas durante as negociações<!–[if !supportFootnotes]–>[3]<!–[endif]–>. Keynes demonstra como ele foi manipulado pelos outros representantes do Conselho e pela forma de se escrever os rascunhos da conferência. Por fim, pelo despreparo de Wilson e omissão de Lloyd George – Primeiro Ministro Britânico –, Clemenceau conseguiu fazer passar seus objetivos no tratado final.

Keynes, então passa para uma revisão detalhada do Tratado de Versalhes<!–[if !supportFootnotes]–>[4]<!–[endif]–>. Ele demonstra como ele tinha como objetivo a destruição sistemática dos três principais fatores dos quais dependia o sistema econômico alemão existente antes da Grande Guerra. O primeiro era o comércio exterior, com sua marinha mercantil, suas colônias, seus investimentos externos, suas exportações, etc. O segundo era a exploração do seu carvão e do seu ferro, além das indústrias que os utilizam como base. Em terceiro temos seu sistema de transporte e de tarifas. O primeiro, segundo Keynes, era o mais vulnerável e o tratado visava destruir, principalmente, os dois primeiros. Entre as medidas adotadas para isso, estão a obrigação de ceder parte de sua frota mercantil aos aliados, a perda de todas as posses coloniais, a perda de direitos sobre sua propriedade privada em outros países, a obrigação de ceder as minas de carvão do Saar para a França, a possibilidade de perder a região rica em carvão da Silesia Superior para Polônia, a obrigação de doar parte de seu carvão restante aos aliados, a perda da grande produtora de ferro da Alemanha Alsácia-Lorena para a França, o controle de suas tarifas, estradas de ferro e rios, entre outros.

Contudo, Keynes foca sua atenção na questão que ele considera a mais relevante do tratado: as reparações. Ele inicia retomando o acordo feito entre o presidente Wilson e os alemães para que eles aceitassem a rendição. Ele defende que os termos do tratado acabaram exigindo mais da Alemanha do que o que ela tinha se disposto a aceitar para se render. Sua redação ambígua contribuiu para reforçar uma interpretação mais dura da responsabilidade alemã<!–[if !supportFootnotes]–>[5]<!–[endif]–>. Ele faz uma análise de quais seriam todas as reivindicações justas que os aliados poderiam fazer à Alemanha, baseada nos arranjos feitos antes do armistício pelas Potências Aliadas. A quantia ficaria entre 1,6 bilhões e 3 bilhões de Libras, cabendo, em números aproximados, 500 milhões para a Bélgica, 800 milhões para a França, 570 milhões para a Inglaterra e 250 milhões para os outros aliados. Sendo assim, ele defende que o mais correto seria um acordo estabelecido em 2 bilhões. Esta seria uma quantia que a Alemanha, com algumas garantias extras, poderia pagar<!–[if !supportFootnotes]–>[6]<!–[endif]–>.

Ele segue argumentando que o que fez a conferência se tornar cada vez mais punitiva contra a Alemanha foi o fato de Lloyd George temer perder sua popularidade e ver rompida a coalizão política que o elegeu<!–[if !supportFootnotes]–>[7]<!–[endif]–>. Dessa forma a conferência caminhou para os objetivos de Clemenceau, no sentido de uma imposição de um fardo muito maior do que o que a Alemanha era responsável, ou tinha se comprometido. O tratado não chegou nem a estipular um valor definido para as reparações, pois a fixação, seja da quantia que a Alemanha poderia pagar, seja da reivindicação justa pelos aliados, seria bem abaixo das expectativas populares na França, na Grã-Bretanha, ou na Bélgica. Keynes calcula a quantia de reparações que o tratado impôs à Alemanha, em termos aproximados, em cerca de 5 bilhões de Libras, sendo 1,4 bilhões para os britânicos, 2,4 para os franceses, 500 para os italianos e 700 para os outros, incluindo os Estados Unidos<!–[if !supportFootnotes]–>[8]<!–[endif]–>. Além disso, há diversas outras condições relativas ao pagamento das reparações que impõem uma restrição muito grande à capacidade da Alemanha de pagar.

Enfim, Keynes faz um cálculo minucioso da capacidade de pagamento da Alemanha<!–[if !supportFootnotes]–>[9]<!–[endif]–>. A riqueza transferível imediatamente – constituída de ouro, barcos, e títulos externos – estaria entre 250 e 350 milhões de Libras. A propriedade em território cedido ou rendido sob o armistício, tanto pública quanto privada, valeria entre 100 e 200 milhões de Libras. Já os pagamentos anuais espalhados por um período de cerca de 30 anos, constituem um capital de cerca de 1,7 bilhões de Libras. Sendo assim, a quantia de 2 bilhões de Libras seria o máximo que a Alemanha poderia pagar, sendo otimista, de acordo com Keynes. A quantia de 5 bilhões de Libras, portanto, estava totalmente fora das possibilidades razoáveis da Alemanha.

Após demonstrar como a Comissão de Reparações estabelecida pelo tratado era dominada pelos aliados e possuía poderes extraordinários sobre a Alemanha e de mostrar também como a estratégia das contrapropostas alemãs foi equivocada<!–[if !supportFootnotes]–>[10]<!–[endif]–>, Keynes passa para uma análise da Europa após o tratado. É uma avaliação pessimista, dado que o Tratado de Versalhes não inclui nenhuma medida para a reabilitação econômica da Europa<!–[if !supportFootnotes]–>[11]<!–[endif]–>.

Ele identifica os principais problemas na situação do pós-guerra como sendo: uma queda absoluta da produtividade na Europa, a quebra dos sistemas de transporte e de comércio e a incapacidade da Europa de comprar seus suprimentos externos<!–[if !supportFootnotes]–>[12]<!–[endif]–>. Para a retomada do comércio, ele identifica três obstáculos, um desajuste entre os preços internos e os internacionais, uma falta de crédito no exterior e um sistema monetário desordenado que dificulta as operações de crédito<!–[if !supportFootnotes]–>[13]<!–[endif]–>.

Keynes faz uma análise da situação monetária da Europa e demonstra como a grande inflação, ao corroer o valor da moeda, ameaça todas as relações permanentes entre credores e devedores e, portanto, a sobrevivência do próprio capitalismo. A inflação é derivada do recurso à impressão de moeda pelos governos beligerantes, ao invés de recorrerem a empréstimos ou impostos. A tentativa dos governos de controle de preços só piora a situação, pois o governo tem que subsidiar produtos essenciais que deixam de ser importados pela diferença de preços internos e internacionais<!–[if !supportFootnotes]–>[14]<!–[endif]–>. Para ele a inflação não é apenas um produto da guerra, mas um fenômeno contínuo, cujo fim não se aproxima<!–[if !supportFootnotes]–>[15]<!–[endif]–>.

Seu principal medo é que os erros dos governantes em assegurar a recuperação econômica européia façam com que os homens sejam levados ao limite de sua existência, por pobreza extrema, e que isso faça com que a ameaça do bolchevismo se torne cada vez mais presente e real, como pode ser visto neste trecho:

“Economic privation proceeds by easy stages, and so long as men suffer it patiently the world cares little. Physical efficiency and resistance to disease slowly diminish, but life proceeds somehow, until the limit of human endurance is reached at last and counsels of despair and madness stir the sufferers from the lethargy which precedes the crisis. Then man shakes himself, and the bonds of custom are loose. The power of ideas is sovereign, and he listens to whatever instruction of hope, illusion, or revenge is carried to him on the air<!–[if !supportFootnotes]–>[16]<!–[endif]–>.”

Por fim, Keynes defende quatro grandes medidas para remediar a situação catastrófica criada na Europa pela Grande Guerra e pelo Tratado de Versalhes. Em primeiro lugar, é proposta uma revisão do tratado. As reparações seriam fixadas em 2 bilhões de Libras, renovando a possibilidade de recuperação econômica da Alemanha; as cláusulas referentes ao carvão e ao ferro seriam moderadas, permitindo a retomada da indústria alemã e reduzindo a queda de sua produtividade; e seria proposta um união de livre comércio auspiciada pela Liga das Nações, obrigatoriamente com os países derrotados e voluntariamente com quaisquer outros. Em segundo lugar, ele propõe o cancelamento das dívidas entre os aliados, para ele um dos principais problemas dos aliados após a guerra e que não foi tratado na conferência de paz. Ele faz uma análise dessas dívidas e defende que os Estados Unidos seriam os únicos que teriam o que perder, por serem o maior credor, mas, mesmo assim, não perderiam muito. Há aqui um pedido para que os Estados Unidos contribuam por boa vontade com a retomada da estabilidade econômica européia. Além disso, os Estados Unidos poderiam fazer um empréstimo de 200 milhões de Libras para recuperar a produção européia. Também poderia haver um fundo de garantia de 200 milhões de Libras criado e financiado pelos membros da Liga das Nações. Por fim, ele propõe que os aliados desistam das intervenções e do bloqueio na Rússia e passem a incentivar a Alemanha a criar e organizar a riqueza na Europa Oriental, aproximando-a da Rússia, como forma de incentivar a recuperação da Europa e refrear o avanço do bolchevismo.

Apesar de sua posição proeminente como homem público dentro da Inglaterra, Keynes não se omitiu de fazer severas críticas a todos os erros cometidos pelos grandes estadistas, que ele julgava que estavam levando a sociedade capitalista cada vez mais próxima da ruína. Ele consegue perceber e chamar a atenção para o fato de que as políticas que estavam sendo feitas para se restabelecer a ordem tinham, na realidade, exatamente o efeito contrário.

Contudo, é bom notar que, apesar de sua forte crítica e de diversas propostas ousadas e inovadoras, vemos que aqui Keynes ainda é um economista neoclássico, na linha marshalliana. A principal pista que nos traz a esta conclusão está no fato de ele considerar a grande inflação do período como decorrente simplesmente da impressão de moeda:

“The inflationism of the currency systems of Europe has proceeded to extraordinary lengths. The various belligerent governments, unable or too timid or too short-sighted to secure from loans or taxes the resources they required, have printed notes for the balance.<!–[if !supportFootnotes]–>[17]<!–[endif]–>

Esta era a visão expressa pela chamada Teoria Quantitativa da Moeda, em que a determinação do nível de preços era dada, exclusivamente, pelo volume de moeda em circulação.

No entanto, Keynes já está atento para o problema dos desajustes da economia capitalista. Ele já percebe o efeito catastrófico que esses desajustes podem ter. Em especial a alteração do valor real da moeda pode ter conseqüências tremendas:

“Lenin was certainly right. There is no subtler, no surer means of overturning the existing basis of society than to debauch the currency.<!–[if !supportFootnotes]–>[18]<!–[endif]–>

Ele também já demonstra sua preocupação com o crescente desemprego e com as conseqüências negativas da inflação sobre a seguridade social:

“By combining a popular hatred with of the class of entrepreneurs with the blow already given to social security by the violent and arbitrary disturbance of contract and of the established equilibrium of wealth which is the inevitable result of inflation, these governments are fast rendering impossible a continuance of the social and economic order of the nineteenth century. But they have no plan for replacing it.<!–[if !supportFootnotes]–>[19]<!–[endif]–>

Este trecho mostra como ele ainda está ligado à “ordem econômica e social do século dezenove”, pois quem a está minando não tem nenhum plano para a substituir. É curioso notar que, em última instância, podemos dizer que foi ele que elaborou esse plano, após ter decretado o fim do laissez-faire, tão típico da ordem econômica e social do século XIX.


O Fim do Laissez-Faire

Em uma conferência em Oxford, Keynes elabora um texto em que ele tenta organizar de forma sintética seus principais pensamentos em meados da década de 1920. O texto, chamado de “O Fim do ‘Laissez-Faire’”, contém uma exposição sucinta de sua filosofia social, ou seja, como ele pensava que a sociedade deveria ser organizada.

Neste texto, Keynes defende que o que os economistas falaram sobre o laissez-faire não tem nada a ver com o que se popularizou como conhecimento comum a respeito do mesmo. A idéia geral era de que, nos séculos XVII e XVIII, John Locke e David Hume criaram o individualismo, colocando o indivíduo no centro do mundo (em contraposição ao soberano e à Igreja) e fornecendo a base intelectual para a defesa da propriedade privada. Nos séculos XVII e XIX, William Paley, Jeremy Bentham, William Godwin e Jean-Jacques Rousseau enfatizaram a igualdade e o altruísmo, dando origem à democracia e ao socialismo utilitário. Por fim, foram os economistas, no século XIX, que deram uma fundamentação científica para a fusão entre as duas correntes de pensamento, harmonizando o individualismo conservador com o socialismo democrático. Esta união se dá com o laissez-faire. De acordo com Keynes:

“À doutrina filosófica de que o governo não tem o direito de intervir, e à doutrina divina de que ele não tem necessidade de interferir, acrescenta-se uma prova científica de que sua interferência é inconveniente. Esta a terceira corrente de pensamento, que pode ser descoberta em Adam Smith, e que, fundamentalmente, estava pronta a permitir que o bem comum repousasse no “natural esforço de cada indivíduo para melhorar sua condição”, idéia que só se desenvolveria completa e conscientemente no início do século XIX. O princípio do laissez-faire chega assim para harmonizar o individualismo e o socialismo, e para unir o egoísmo de Hume ao máximo benefício do maior número<!–[if !supportFootnotes]–>[20]<!–[endif]–>.”

Ele explica que outros fatores também contribuíram para a popularização do laissez-faire. A corrupção e incompetência dos governos e administradores públicos, aliado ao progresso material, reafirmavam, na prática, as idéias do laissez-faire. Novamente Keynes:

“Assim, o terreno estava preparado para a doutrina que, em bases divinas, naturais ou científicas, estabelecia que a ação do Estado deveria ser rigorosamente limitada, e que, na medida do possível, a vida econômica deveria ser deixada, sem regulamentos, à aptidão e ao bom senso de cidadãos individualistas, impelidos pela admirável motivação de subir na vida<!–[if !supportFootnotes]–>[21]<!–[endif]–>.”

É importante ressaltar que isso é o que as pessoas falavam sobre o laissez-faire, mas Keynes defende que os grandes economistas nunca tinham pensado realmente dessa forma:

“Isto é o que se supõe que os economistas tenham dito. Nenhuma doutrina desse tipo pode realmente ser encontrada nos escritos dos autores mais importantes. Era o que os popularizadores e os divulgadores diziam<!–[if !supportFootnotes]–>[22]<!–[endif]–>.”

“A frase laissez-faire não se encontra nas obras de Adam Smith, Ricardo e Malthus. Até a idéia não se encontra, de forma dogmática em qualquer um desses autores. Adam Smith, naturalmente, era a favor do livre comércio. Mas sua atitude em relação às leis de navegação e à legislação contra a usura mostra que ele não era um dogmático. Até sua famosa passagem sobre a “mão invisível” reflete a filosofia que associamos a Paley, e não ao dogma econômico do laissez-faire<!–[if !supportFootnotes]–>[23]<!–[endif]–>.”

“Os economistas não têm mais qualquer vínculo com as filosofias teológicas ou políticas de onde se originou o dogma da harmonia social, e sua análise científica não os leva a tais conclusões<!–[if !supportFootnotes]–>[24]<!–[endif]–>.”

Para Keynes, foram a campanha política em favor do livre comércio, os pronunciamentos de autoridades econômicas, a influência da Escola de Manchester e dos utilitaristas e a máquina educacional das escolas que popularizaram a idéia de que os economistas, não só deveriam defender, como defendiam efetivamente o laissez-faire.

Para explicar como isso foi possível, Keynes argumenta que a teoria do laissez-faire é apenas uma hipótese inicial utilizada pelos economistas, incompleta e feita para a simplificação. Ela depende de pressupostos irreais, pois os economistas só apresentam os fatores complicadores, ou seja, a realidade, em um momento posterior de suas obras. De acordo com Keynes, essas complicações são:

“(…) 1) quando as unidades de produção eficientes são grandes em relação às unidades de consumo; 2) quando ocorrem custos indiretos e conjuntos; 3) quando as economias internas tendem a concentração da produção; 4) quando o tempo necessário para os ajustamentos é longo; 5) quando a ignorância supera o conhecimento; e 6) quando os monopólios e os cartéis interferem no equilíbrio dos negócios<!–[if !supportFootnotes]–>[25]<!–[endif]–>.”

Além disso, Keynes identifica outros fatores que contribuíram para essa visão equivocada. Em primeiro lugar, está a péssima qualidade das propostas contrárias: o protecionismo e o marxismo, sendo este último pior, por ser ilógico e insípido. Em segundo lugar, a economia de guerra demonstrou que uma “ação social centralizada em grande escala” gerou uma produção de riqueza muito maior do que o normal, porém, também houve muitos desperdícios e negligências, o que impediu que ela se tornasse um exemplo. Por fim, o laissez-faire estava em conformidade com os interesses do empresariado da época. Keynes já coloca em dúvida se ele merecia ser visto como o herói do progresso que ele já tinha sido no passado.

Concluindo essa discussão, Keynes é enfático:

“Esclareçamos desde o início os princípios metafísicos ou gerais sobre os quais, de tempos em tempos, se fundamentou o laissez-faire. Não é verdade que os indivíduos possuem uma “liberdade natural” prescritiva em suas atividades econômicas. Não existe um contrato que confira direitos perpétuos aos que os têm ou aos que os adquirem. O mundo não é governado do alto de forma que o interesse particular e o social sempre coincidam. Não é administrado aqui embaixo para que na prática eles coincidam. Não constitui uma dedução correta dos princípios da Economia que o auto-interesse esclarecido sempre atua a favor do interesse público. Nem é verdade que o auto-interesse seja geralmente esclarecido (…). A experiência não mostra que os indivíduos, quando integram um grupo social, são sempre menos esclarecidos do que quando agem separadamente<!–[if !supportFootnotes]–>[26]<!–[endif]–>.” (Grifo do autor)

Tendo encerrado este tópico, ele passa pela idéia de que existem na sociedade organizações que estão entre o indivíduo e o Estado e que são autônomas, com interesses privados, mas balizadas pelo bem público (como as universidades e o Banco da Inglaterra). Para ele, essas instituições estão vencendo a batalha contra o lucro privado ilimitado.

Após isso, Keynes parte para definir a agenda do governo, pois para ele:

“Nesta hora, talvez a principal tarefa dos economistas seja novamente a de distinguir a Agenda do Governo da Não-Agenda; e a tarefa complementar da política talvez seja a de imaginar formas de governo dentro de uma democracia, que sejam capazes de realizar a Agenda<!–[if !supportFootnotes]–>[27]<!–[endif]–>.” (Grifos do autor)

Para realizar na prática o que ele defende que seja a tarefa dos economistas, Keynes faz uma análise dos principais problemas econômicos vividos na época:

“Muitos dos maiores males econômicos de nosso tempo são frutos do risco, da incerteza e da ignorância. É porque indivíduos específicos, afortunados em sua situação ou aptidões, são capazes de se aproveitar da incerteza e da ignorância, e também porque, pela mesma razão, os grandes negócios constituem frequentemente uma loteria, que surgem as grandes desigualdades de riqueza; e estes mesmos fatores são também a causa do desemprego dos trabalhadores, ou a decepção das expectativas razoáveis do empresariado, e da redução da eficiência e da produção. Entretanto, a cura reside fora das atividades dos indivíduos; pode até ser do interesse destes o agravamento da doença<!–[if !supportFootnotes]–>[28]<!–[endif]–>.”

Em seguida, ele sugere três agendas:

“Creio que a cura desses males deve ser procurada no controle deliberado da moeda e do crédito por uma instituição central, e em parte na coleta e disseminação em grande escala dos dados relativos à situação dos negócios, inclusive a ampla e completa publicidade, se necessário por força da lei, de todos os fatos econômicos que seria útil conhecer<!–[if !supportFootnotes]–>[29]<!–[endif]–>.”

“Meu segundo exemplo diz respeito à poupança e ao investimento. Creio que é preciso haver algum ato coordenado de apreciação inteligente sobre a escala desejável em que a comunidade como um todo deva poupar, a escala em que esta poupança deva ir para o exterior sob a forma de investimentos externos; e sobre se a atual organização do mercado de capitais distribui a poupança através dos canais produtivos mais racionais<!–[if !supportFootnotes]–>[30]<!–[endif]–>.”

“Meu terceiro exemplo refere-se à população. Já chegou o tempo em que cada país precisa de uma política considerada nacional do que mais lhe convém quanto ao tamanho da população, seja maior, menor ou igual à atual<!–[if !supportFootnotes]–>[31]<!–[endif]–>.”

A partir deste artigo, Keynes procurará embasar muito bem em uma nova teoria econômica estes pontos que ele definiu como a agendo do governo, para poder combater os principais males econômicos que ele já identificou neste momento. A terceira agenda, a do tamanho ideal da população, será abandonada e não mais mencionada, mas ele irá elaborar as outras duas nas suas grandes obras subseqüentes.

Fica claro, a partir deste artigo, que seu projeto é o de acabar com a idéia do laissez-faire, defendendo um papel ativo do Estado e das instituições privadas balizadas pelo bem público para coordenar e regular a sociedade e a economia de forma a evitar a instabilidade econômica do capitalismo. Sua conclusão é suficientemente clara neste aspecto:

“Estas reflexões são dirigidas para os possíveis aperfeiçoamentos na técnica do capitalismo moderno, por meio da ação coletiva. Nada existe neles de seriamente incompatível com o que me parece a característica essencial do capitalismo, ou seja, a dependência de uma intensa atração dos instintos de ganho e de amor ao dinheiro dos indivíduos como principal força motivadora dos mecanismos econômicos<!–[if !supportFootnotes]–>[32]<!–[endif]–>.”

“A confusão de pensamento e sentimento leva à confusão de linguagem. Muita gente que realmente tem objeções ao capitalismo como modo de vida, discute como se estivesse objetando a ele com base em sua ineficiência para atingir seus próprios fins. No outro extremo, os devotos do capitalismo frequentemente são indevidamente conservadores, e rejeitam reformas em sua técnica, que, na verdade, poderiam realmente reforçá-lo e preservá-lo, por medo de que tais reformas possam vir a ser os primeiros passos de afastamento do capitalismo. Apesar disso, poderá chegar um dia em que estaremos mais esclarecidos do que agora, ao falar de capitalismo como uma técnica eficiente ou ineficiente, ou ao falar dele como algo desejável ou censurável. De minha parte, acho que, sabiamente administrado, o capitalismo provavelmente pode se tornar mais eficiente para atingir objetivos econômicos do que qualquer sistema alternativo conhecido, mas que, em si, ele é de muitas maneiras sujeito a inúmeras objeções. Nosso problema é o de criar uma organização social tão eficiente quanto possível, sem ofender nossas noções de um modo satisfatório de vida<!–[if !supportFootnotes]–>[33]<!–[endif]–>.”

Esta é a expressão mais clara da filosofia social que Keynes tem em mente nesse momento. E ele segue:

“O próximo passo à frente deve vir, não da agitação política ou de experimentos prematuros, mas da reflexão. Através de um esforço da mente, precisamos esclarecer nossos próprios sentimentos. Atualmente, nossa simpatia e nossa razão estão sujeitos a ficar em lados diferentes, o que constitui um estado de espírito doloroso e paralisador. (…) Atualmente não existe um partido no mundo que me pareça estar querendo atingir os objetivos certos, pelos métodos certos. A pobreza material fornece estímulos à mudança precisamente em situações em que existe muito pouca margem para experiências. A prosperidade material remove tais estímulos justamente quando seria seguro tentar realizá-los. A Europa carece de meios, e a América da vontade de fazer um movimento. Precisamos de um novo conjunto de convicções que saltem naturalmente de um exame ingênuo de nossos sentimentos interiores em relação aos fatos exteriores<!–[if !supportFootnotes]–>[34]<!–[endif]–>.”

É esta a tarefa à qual ele se propõe nos próximos anos: “um esforço da mente” em busca de “um novo conjunto de convicções” para unir a simpatia com a razão. Sua primeira tentativa nesse sentido se dará com o “Tratado Sobre a Moeda”.


A Primeira Tentativa

Na época em que Keynes escreveu suas principais obras, a ciência econômica, dominada pela perspectiva neoclássica, estava dividida em dois ramos de investigação. Por um lado, havia uma teoria que tratava dos preços relativos, derivada principalmente de Alfred Marshall. A principal questão para essa teoria era a determinação do nível de preços. O principal problema enfrentado por essa teoria era encontrar uma teoria monetária que confirmasse os resultados da teoria de preços relativos, ou seja, descobrir se, com a introdução da moeda na teoria, seus modelos ainda seriam válidos. Por outro lado, havia uma teoria que tratava das flutuações econômicas. Nessa época os economistas estavam tentando entender o que causava os períodos de crescimento e de crise das economias capitalistas. A principal questão era entender por que a economia flutuava. Como esta teoria acabava tratando de situações de desequilíbrio – particularmente situações de crise, que envolviam claramente aspectos monetários – ela estava em contradição com a teoria de preços relativos, que tratava das situações de equilíbrio, e se aproximava de uma teoria monetária.

Foi o economista sueco Knut Wicksell quem elaborou uma teoria monetária nova nessa época. Sua principal contribuição foi o fato dele ter descartado a Equação Quantitativa da Moeda como instrumento para se determinar o nível de preços, pois em uma economia com bancos, ou seja, com um sistema de crédito, a velocidade de circulação da moeda tende ao infinito, ou seja, deixa de ser constante, como supunha a Equação. Wicksell, então, propõe um novo instrumento para determinar o nível de preços: a relação entre a poupança e o investimento. Se a poupança se igualasse ao investimento, o nível de preços seria estável; se a poupança fosse maior que o investimento, haveria uma queda na atividade econômica e, portanto, deflação; se a poupança fosse menor que o investimento, haveria um aumento da atividade econômica e, portanto, um aumento no nível de preços. A grande diferença com a teoria dos preços relativos é que na teoria monetária não há nenhum mecanismo de auto-ajuste, ou seja, os preços monetários não voltam a um patamar inicial de equilíbrio.

Essa idéia será desenvolvida por Keynes em seu “Tratado Sobre a Moeda”. De acordo com Skidelsky: “It is an attempt to theorize about economic instability – its causes and its phases, with the aim of suggesting a cure, or at least mitigation<!–[if !supportFootnotes]–>[35]<!–[endif]–>”. Ou seja, é uma obra ainda inserida na teoria dos ciclos econômicos, ele ainda está tentando explicar por que uma economia tem ciclos.

O esquema básico do Tratado é o seguinte: na produção de bens de consumo (R) e de bens de Investimento (C), temos o custo de produção dos bens de investimento (I’) e a poupança (S) vem da Renda dos fatores (E), que é a contrapartida dos custos de produção de bens de consumo e de investimento. A Renda, portanto, é igual ao custo de produção, e é constituída pelos salários e pelo lucro normal. Portanto, se a diferença entre a Renda e a poupança (E – S) – que é igual aos gastos em bens de consumo – for igual à diferença entre a Renda e o custo de produção dos bens de investimento (E – I’) – que é igual ao custo dos bens de consumo –, a poupança será igual ao custo dos bens de investimento (S = I’), ou seja, os custos de produção dos bens de consumo foram cobertos pelos gastos em bens de consumo. Após uma série de operações, Keynes chega à equação que define o nível de preços dos bens de consumo. Este seria a Renda dividida pela quantidade de bens produzidos (O = R + C), somada com o custo dos bens de investimento menos a poupança dividido pela quantidade de bens de consumo produzidos, ou seja:

P = E + ( I’ – S )

O R

Ao generalizar esse procedimento para o produto total, ele chega à uma equação análoga:

Π = E + ( I – S )

O O

Aqui está a base da idéia central de Keynes no Tratado. Como ele tinha colocado em “O Fim do ‘Laissez-Faire’”, uma das agendas do Estado era coordenar a relação entre poupança e investimento. Ele está criticando a idéia difundida na época de que o poupador é um bem-feitor social. O que ele demonstra com essa equação é que, se a poupança é maior que o investimento, o gasto com bens de consumo cai e os custos com os bens de consumo não são cobertos, o que faz com que seus preços caiam, e a atividade econômica se reduz. Portanto, o elemento ativo de uma economia é o investimento e não a poupança, ou seja, é o investimento e não a poupança o principal motor de uma economia capitalista.

Voltando para a teoria das flutuações econômicas, a condição de equilíbrio do sistema econômico seria a igualdade entre a poupança e o investimento, e que o levaria a flutuar, ou seja, crescer ou entrar em crise, seria a divergência entre poupança e investimento<!–[if !supportFootnotes]–>[36]<!–[endif]–>.

O Tratado é um livro muito extenso e confuso e o próprio Keynes não ficou contente com o resultado. Ele escreveu no prefácio:

“I feel like someone who has been forcing his way through a confused jungle. Now that I have emerged from it, I see that I might have taken a more direct route and that many problems and perplexities which beset me during the journey had not precisely the significance which I supposed at the time<!–[if !supportFootnotes]–>[37]<!–[endif]–>.”

O Tratado recebeu muitas críticas e Keynes se empenhou nos próximos anos a elaborar melhor suas idéias e tentar apresentá-las de forma mais clara.

É importante ressaltar, contudo que a diferença entre o Tratado e a Teoria Geral é de enfoque, o primeiro se concentra na teoria das flutuações, enquanto o segundo tenta determinar o nível geral da atividade econômica. Portanto, dependendo do problema econômico, um livro pode ser mais útil do que o outro<!–[if !supportFootnotes]–>[38]<!–[endif]–>.


A Teoria Geral

A “Teoria Geral do Emprego, do Juro e da Renda” é a grande obra teórica de Keynes. É nela que ele desenvolve uma teoria econômica nova que revolucionou o ambiente intelectual da sua época.

Como já explicitamos, a ciência econômica na época de Keynes continha uma teoria dos preços relativos e uma teoria dos ciclos econômicos. Keynes se insere na teoria dos ciclos econômicos, com o Tratado. Mas, no contexto de crise e de desemprego crônico da década de 1930, Keynes muda o foco de preocupação, ele passa a se questionar quais são os determinantes do o nível geral da atividade econômica<!–[if !supportFootnotes]–>[39]<!–[endif]–>. Ou seja, o problema do desemprego não estava em uma fase queda de um ciclo econômico que flutua em torno de um nível de equilíbrio de pleno emprego, o problema era que o nível geral de atividade econômico em torno do qual a economia flutuava estava abaixo do nível de pleno emprego. Com essa mudança no foco da questão que caracteriza a revolução keynesiana, ele cria o que hoje se chama de macroeconomia.

Keynes começa a Teoria Geral explicando como a teoria clássica (ou seja, marginalista) explica o nível do emprego e da renda, na sua visão. Ela utiliza dois postulados – oferta de trabalho e demanda por trabalho – para determinar um preço relativo (nível de salário) e uma quantidade (empregos). A demanda é dada pela produtividade marginal do trabalho e a oferta por uma escolha entre renda e lazer. Dentro deste esquema, só há dois tipos de desemprego, um friccional, ou seja, temporário – decorrente de ajustes na mão de obra dos diferentes setores – e um voluntário – decorrente da escolha pelo trabalhador de não receber o equivalente a sua produtividade marginal<!–[if !supportFootnotes]–>[40]<!–[endif]–>. Ambos são decorrentes de uma decisão do próprio trabalhador. Um alto nível de desemprego é explicado pelo fato do salário real estar acima do nível de equilíbrio.

Keynes, então, faz duas críticas à determinação da oferta de trabalho feita pela teoria neoclássica. Em primeiro lugar, Keynes diz que:

“(…) embora uma redução do salário nominal em vigor leve à saída de certa quantidade de mão-de-obra, isso não quer dizer que uma redução do salário nominal medido em termos de bens de consumo de assalariados produza o mesmo efeito, caso resulte de uma alta de preços desses bens. Em outras palavras, pode acontecer que, dentro de certos limites, as exigências da mão-de-obra tendam a um mínimo de salário nominal e não a um mínimo de salário real<!–[if !supportFootnotes]–>[41]<!–[endif]–>.”

“Ora, a experiência comum ensina-nos, sem a menor sombra de dúvida, que, em vez de mera possibilidade, a situação em que a mão-de-obra estipula (dentro de certos limites) um salário nominal, em vez de um salário real, constitui o caso normal<!–[if !supportFootnotes]–>[42]<!–[endif]–>.”

Ou seja, a barganha salarial dos trabalhadores é por salários nominais e não reais. Se o salário real cai, por um aumento nos preços, o trabalho não aumenta. Esta crítica já é forte o suficiente para descartar a forma como a teoria clássica concebe a oferta de trabalho, pois:

“(…) se a oferta de trabalho não for uma função dos salários reais como sua única variável, seu argumento desmorona-se por completo, deixando totalmente indeterminada a questão do que será o nível efetivo de emprego. (…) sua curva de oferta de mão-de-obra se deslocará a cada movimento dos preços. A não ser que tal oferta seja função exclusiva do salário real<!–[if !supportFootnotes]–>[43]<!–[endif]–>.”

Porém Keynes ainda oferece um segundo argumento para desconstruir a oferta de trabalho neoclássica:

“A teoria tradicional sustenta, em essência, que as negociações salariais entre trabalhadores e empresários determinam o salário real, de tal modo que, supondo que haja livre concorrência entre os empregadores e a ausência de combinação restritiva entre os trabalhadores, os últimos poderiam, se desejassem, fazer coincidir os seus salários reais com a desutilidade marginal do volume de emprego oferecido pelos empregadores ao dito salário. Não sendo assim, desaparece qualquer razão para se esperar uma tendência à igualdade entre o salário real e a desutilidade marginal do trabalho<!–[if !supportFootnotes]–>[44]<!–[endif]–>.” (Grifo do autor)

“Ao supor que as negociações sobre salários determinam o salário real, a escola clássica descambou para uma hipótese arbitrária, pois os trabalhadores, em conjunto, não dispõem de nenhum meio de fazer coincidir o equivalente do nível geral de salários nominais expresso em bens de consumo com a desutilidade marginal do volume de emprego existente. Provavelmente não existe nenhum expediente por meio do qual a mão-de-obra, em conjunto, possa reduzir os seus salários reais a uma cifra determinada, revisando as cláusulas monetárias dos acordos celebrados com os empregadores<!–[if !supportFootnotes]–>[45]<!–[endif]–>.” (Grifo do autor)

Após essas duas críticas fulminantes, Keynes chega à conclusão de que o nível de emprego não é determinado no mercado de trabalho. Ele demonstra como a teoria tradicional não bate com a realidade. Ele introduz, então, o conceito de desemprego involuntário, que ocorre quando o nível de emprego está abaixo do nível máximo de emprego, sendo este determinado, no curto prazo, pela estrutura de capital, ou seja, pela capacidade produtiva instalada. Com isso ele opera uma mudança de enfoque revolucionária para a época, defendendo que o problema do desemprego não diz respeito aos trabalhadores, mas aos patrões. A única coisa que é definida no mercado de trabalho é o salário real, dados o nível de salários nominais e o nível de emprego. Se o nível de emprego aumenta, cai o salário real, pois aumenta o nível de preços.

Sendo assim, Keynes passa a expor o que determina o nível de emprego. Keynes defende que, para qualquer nível de produção, a oferta e a demanda agregadas partem do mesmo agente, o empresário. A oferta agregada é definida como a receita mínima necessária para a produção. É uma variável concreta, ou seja, são os custos mínimos de produção. Já a demanda agregada é definida como a expectativa de receitas que o empresário espera receber pela sua produção. Esta é uma variável que não se observa, pois é apenas uma expectativa. O nível da produção é determinado pelo ponto em que a demanda agregada se encontra com a oferta agregada, dados um nível de salários e a capacidade produtivo instalada. É importante ressaltar que há uma causalidade no argumento de Keynes. Ele parte da demanda agregada, para a quantidade produzida e, dada a tecnologia, para o nível de emprego.

Para explicitar melhor o princípio da demanda efetiva de Keynes, utilizaremos a exposição de Luigi Pasinetti, que apresenta de forma clara e concisa a essência do argumento de Keynes. A demanda efetiva total é a soma da demanda de bens de consumo (C) – ou seja, os gastos das pessoas e empresas com o consumo – com a demanda de bens de investimento (I) – ou seja, os gastos das empresas com equipamentos de capital. A demanda efetiva pode ser encarada como a renda (Y), pois é ela que gera a renda<!–[if !supportFootnotes]–>[46]<!–[endif]–>. Portanto:

Y = C + I

O consumo pode ser definido como uma função da renda<!–[if !supportFootnotes]–>[47]<!–[endif]–>:

C = ƒ (Y) ; ou C = a + bY

Keynes considera essa função razoavelmente estável, sendo que o valor de “b”, que é a propensão marginal a consumir, está entre 0 e 1. Isso significa que quando a renda cresce, os gastos em consumo também crescem, mas não na mesma proporção. É por isso que o investimento é tão importante, para complementar essa gasto. O investimento é definido como uma função da taxa de lucros esperada (E) – uma variável da esfera da produção – e da taxa de juros (i) – um fenômeno monetário que não tem a ver com a produção<!–[if !supportFootnotes]–>[48]<!–[endif]–>:

I = ƒ ( E ; i )

Agora Keynes precisa definir a taxa de juros. Para ele, ela é determinada pela oferta de moeda (M) e pela demanda por liquidez (L), ou preferência pela liquidez<!–[if !supportFootnotes]–>[49]<!–[endif]–>:

i = ( M ; L )

A oferta de moeda é dada, determinada pelo Estado, portanto é uma variável exógena. A preferência pela liquidez é a quantidade de moeda que as pessoas preferem reter por motivos de especulativos, transacionais ou precaucionais. Ela é determinada pelo grau de incerteza dos agentes. Terminamos com quatro equações que determinam quatro variáveis (Y, C, I e i)<!–[if !supportFootnotes]–>[50]<!–[endif]–>.

É curioso notar que essa ordem em que Keynes expõe seu argumento é inversa à ordem lógica do mesmo. No capítulo 18, Keynes refaz o argumento da Teoria Geral em ordem inversa. Ele parte das variáveis que são mais influenciadas pela incerteza e vai para as que são menos, ou seja, começa pelo setor financeiro e vai para o setor produtivo. Primeiro ele define a taxa de juros (i = (M;L)). Depois entra no setor produtivo e define o investimento (I = ƒ (E;i)). Por meio do multiplicador, o investimento define a renda (Y = C + I) e o consumo (C = ƒ (Y)). A diferença entre os dois (I – C) será igual à poupança (S). Essa é a ordem causal que Keynes insere em seu argumento.

Aqui aparece um argumento já iniciado no Tratado, mas de forma diferente. Esse esquema demonstra que é o investimento que gera a poupança e não o contrário, assim como ele já tinha ressaltado o papel ativo do investimento no Tratado. Porém, aqui o investimento e a poupança são tidos como sendo sempre iguais, ao contrário do Tratado, sendo que a variável de ajuste entre os dois é a renda.

O papel da incerteza é interessante, pois ela deixa claro que é o dinheiro que faz a ponte entre o presente e o futuro. Essa idéia vai ao encontro da idéia já esboçada por ele em “As Conseqüências Econômicas da Paz” de que o dinheiro, o valor real d a moeda, é fundamental para o sistema capitalista. Da mesma forma, é a taxa de juros – determinada pela incerteza e pelo dinheiro – que conecta o sistema financeiro ao sistema produtivo.

A grande novidade da Teoria Geral de Keynes é mostrar que o sistema econômico capitalista pode operar em equilíbrio – entre oferta agregada e demanda agregada –, mas abaixo do pleno emprego<!–[if !supportFootnotes]–>[51]<!–[endif]–>, o que era inconcebível para a teoria neoclássica. Este é um dos principais problemas que podem ocorrer em uma sociedade capitalista.

<!–[if gte vml 1]> <![endif]–><!–[if !vml]–>

<!–[endif]–><!–[if !mso]–>

<!–[endif]–>

1 .

1 – b

<!–[if !mso]–>

<!–[endif]–><!–[if !mso & !vml]–> <!–[endif]–><!–[if !vml]–>

<!–[endif]–>Contudo, Keynes não se contenta em apenas fazer um diagnóstico profundo e preciso desse problema, sua teoria oferece um meio de resolvê-lo. A partir de algumas operações nas equações apresentadas, ele chega à idéia do multiplicador, ou seja, de que um aumento no investimento gera um aumento no fluxo de renda líquida vezes maior<!–[if !supportFootnotes]–>[52]<!–[endif]–>.

A partir disso:

“(…) torna-se imediatamente evidente que não há necessidade de que o aumento na demanda efetiva provenha do investimento. Qualquer aumento autônomo da demanda efetiva gerará precisamente os mesmos efeitos multiplicadores. Portanto, quando o investimento corrente está demasiadamente baixo para provocar o pleno emprego, o Governo sempre pode entrar com despesa pública (através do dispêndio deficitário) e fazer um acréscimo líquido à demanda efetiva. O pleno emprego pode, dessa maneira, ser ocasionado por política governamental<!–[if !supportFootnotes]–>[53]<!–[endif]–>.” (Grifo do autor)

Vemos, portanto, que a idéia de incerteza e preferência pela liquidez e o princípio da demanda efetiva concretizam as duas agendas para o Estado que ele tinha colocado em “O Fim do ‘Laissez-Faire’”. Dessa forma, ele concretizou seu projeto de “um esforço da mente” em busca de “um novo conjunto de convicções” para unir a simpatia com a razão, respaldando-o em um arcabouço teórico suficientemente robusto para causar uma revolução na teoria econômica e na prática das principais economias do mundo no século XX.


Conclusão

A partir do panorama histórico, não é difícil perceber como os transformadores processos do período influenciaram a gênese do pensamento de Keynes. Como um liberal inglês, ele não pode deixar de se preocupar com os rumos que a Europa estava seguindo. Uma guerra devastadora e bárbara, seguida pela depressão econômica e pela extrema instabilidade política, sempre à sombra da ameaça comunista, que agora se tornara real e efetiva em uma das Grandes Potências européias, o maior país do mundo.

Keynes teve a visão necessária par perceber quais eram realmente os males que assolavam os principais países capitalistas do mundo e a ousadia de se desvencilhar das idéias ortodoxas que o tinham formado para poder dar novas respostas aos novos desafios que se apresentavam à sua época. Apesar de reconhecer que o sistema capitalista possuía diversas falhas intrínsecas, fez questão de demonstrar que, se deixado a sua própria sorte, poderia trazer conseqüências ainda mais catastróficas.

Para salvar o sistema capitalista da ruína e da sua substituição por outro que não lhe parecia nada desejável à luz da experiência soviética, Keynes procurou influenciar os rumos dos países capitalistas, cujos governantes insistiam em velhos erros, baseados em velhas teorias, que só contribuíam para essa ruína. Para isso, era necessária uma nova teoria econômica fundada em novas bases, mais condizentes com seu tempo. Foi essa a tarefa a que ele se propôs e que cumpriu com maestria. O abalo gerado pela Teoria Geral e sua influência na formulação da política econômica das principais potências capitalistas no século XX comprovam o seu feito. Fica claro, portanto, que o principal objetivo de Keynes era atuar sobre a realidade, enquanto que sua teoria econômica foi apenas um meio necessário para se fazer isso.

É importante notar, contudo, que o que veio a ser conhecido como teoria keynesiana, após Keynes, é, na verdade, uma interpretação neoclássica de Keynes. Como bem coloca Pasinetti:

“A literatura que se seguiu à publicação da General Theory é, agora, imensa. (…) Mas grande parte dela (e que não foi a menos bem sucedida) visou também diluir as inovações de Keynes – atenuar ruptura com a tradição e remodelar a análise de Keynes de modo a “digeri-la” em modos de pensar pré-keynesianos<!–[if !supportFootnotes]–>[54]<!–[endif]–>.”

“Esta é, de fato, a distorção realmente básica em grande parte da literatura “keynesiana”: o que Keynes diz com referência a uma sociedade industrial é reinterpretado como referindo-se a alguma outra coisa (…) na qual não pode ter qualquer significado ou qualquer relevância. Infelizmente, as conseqüências são bastante sérias. Dá-se a impressão enganosa de que todos os problemas de nosso tempo desapareceriam se unicamente a “rigidez” fosse eliminada. Como se a “rigidez” fossa causa e não, ela própria, uma das muitas conseqüências inerentes da sociedade industrial em que vivemos<!–[if !supportFootnotes]–>[55]<!–[endif]–>.”

Estas palavras deixam clara a importância de se procurar retomar o sentido original do pensamento deste autor que tanto nos ajudou a compreender o funcionamento da economia capitalista no século XX.

<!–[if !supportFootnotes]–>


<!–[endif]–>

<!–[if !supportFootnotes]–>[1]<!–[endif]–> KEYNES, J. M. The Collected Writings of John Maynard Keynes – Volume II: The Economic Consequences of the Peace. London, Macmillan, 1971.

<!–[if !supportFootnotes]–>[20]<!–[endif]–> KEYNES, J. M. “O Fim do ‘Laissez-Faire’”. In KEYNES, J. M. (ed.) SZMRECSÁNYI, Tamás. John Maynard Keynes. São Paulo, Ática, 1978, pp. 108-109.

<!–[if !supportFootnotes]–>[35]<!–[endif]–> SKIDELSKY, R. John Maynard Keynes: a biography – Volume Two. The Economist as a Saviour 1920-1937. London, Macmillan, 1983, p. 314.

<!–[if !supportFootnotes]–>[37]<!–[endif]–> KEYNES, J. M. The Collected Writings of John Maynard Keynes – A Treatise on Money. London, Macmillan, 1971.

<!–[if !supportFootnotes]–>[38]<!–[endif]–> SKIDELSKY, R. Op. Cit., p. 318-319.

<!–[if !supportFootnotes]–>[39]<!–[endif]–> LAIDLER, D. Fabricating the Keynesian Revolution. Cambridge, Cambridge University Press, 1999, p. 248.

<!–[if !supportFootnotes]–>[40]<!–[endif]–> KEYNES, J. M. Os Economistas – A Teoria Geral do Emprego, do Juro e da Moeda; Inflação e Deflação. São Paulo, Nova Cultural, 1985, p. 18.

<!–[if !supportFootnotes]–>[46]<!–[endif]–> PASINETTI, Luigi L. Crescimento e Distribuição de Renda – Ensaios de teoria econômica. Rio de Janeiro, Jorge Zahar, 1979, pp. 43-44.



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