Abertura: Simpósio Nacional de Pesquisa na Graduação em Relações Internacionais

29dez07
Bom dia todos,
A convite e em nome do NERI (Núcleo de Estudos em Relações Internacionais do Centro Acadêmico Guimarães Rosa), tenho o prazer de dar as boas vindas a todos vocês, na abertura do Primeiro Simpósio Nacional de Pesquisa na Graduação em Relações Internacionais. Este simpósio é uma primeira consumação de um longo processo de discussão e de trabalho realizado por estudantes de Relações Internacionais da USP, em estreita consonância com os objetivos centrais do NERI: promover a discussão e incentivar a pesquisa na área de Relações Internacionais e, a partir disso, refletir sobre a nossa formação, sobre a universidade em suas múltiplas articulações com o restante da sociedade e, por fim, refletir sobre a própria área de Relações Internacionais – tanto nesta universidade, quanto em todo o país. Esses são os objetivos fundamentais deste simpósio: ele visa, sobretudo, à congregação de experiências diversas de pesquisa e de formação e ao estabelecimento de espaços horizontais de construção conjunta de reflexões sobre possibilidades de formação e de atuação intelectual, social e política dos estudantes de Relações Internacionais.
Este evento não poderia ter sido realizado sem o auxílio de um grande número de pessoas e de instituições. Em nome da organização do evento – organização esta aberta a todos os alunos do curso e realizada no espaço público do NERI – gostaria de agradecer ao Instituto de Relações Internacionais da USP, à Pró-Reitoria de Pesquisa, ao Restaurante Sweeden, à UPD da FEA e ao Centro Acadêmico Guimarães Rosa (tanto à sua atual gestão, “Meio da Travessia”, quanto à futura gestão, “A Hora e a Vez”), por todo o apoio financeiro, logístico, burocrático, conceitual, etc. e a todos os professores e pesquisadores que aceitaram participar das atividades do simpósio.
Para que seja possível atingirmos juntos os objetivos deste simpósio, é indispensável a participação de vocês em todos os seus espaços: nas palestras, nos painéis de apresentação de trabalhos e nos grupos de discussão. As palestras ocorrerão sempre às 11 horas, e terão como temas: “A função social do pensamento em Relações Internacionais : a reflexão teórica na periferia”; “A importância da pesquisa na graduação e o reflexo da pesquisa no ensino” e “A interdisciplinarida de nas Relações Internacionais: campo epistemológico autônomo?”. Em seguida, todos os dias, haverá dois horários de painéis de apresentação de trabalhos (às 15 e às 17 horas) e, por fim, os grupos de discussão, sempre às 19 horas, que terão como temas “O ensino de Relações Internacionais no Brasil”, “A questão da extensão em RI” e “Como dar continuidade ao simpósio?”. Esses temas refletem uma série de preocupações que merecem estar na ordem do dia, nas atuais discussões sobre a nossa área. Aproveito para fazer um forte convite à participação de todos vocês nos grupos de discussão: este é o espaço mais institucionalizado, neste simpósio, para uma troca direta de informações, experiências e perspectivas e só poderá funcionar caso haja ampla participação e uma verdadeira disposição para esse diálogo e para o aprendizado conjunto. Estamos certos de que vale a pena aceitarmos o desafio (pedagógico, como todo desafio) de nos engajarmos em um processo reflexivo conjunto sobre essa diversidade de questões que são colocadas a nós – estudantes de Relações Internacionais e pesquisadores da área – e da qual não podemos nos furtar.
E por que não podemos nos furtar dessas questões? De início, diria que, como estudantes (e não importa a área), o exercício reflexivo sobre nosso próprio processo de formação é indispensável para a própria afirmação de nossa autonomia intelectual – autonomia esta que não pode ser confundida com unilateralidade ou fé inabalável em nossas crenças e conhecimentos anteriores, mas que se apresenta, sim, como disposição à apropriação reflexiva do conhecimento, sem o qual não é possível nem compreender ou participar da construção do debate intelectual, nem intervir crítica e construtivamente na realidade. Neste sentido, este simpósio busca realizar o princípio de que esse processo reflexivo só pode ser levado a cabo, definitivamente, em espaços coletivos e horizontais. Mas, além deste primeiro motivo, não podemos nos furtar daquelas questões porque, como todos sabemos, nossa área é muito nova, ainda mal aprendeu a andar: não preciso aqui repetir o histórico de sua formação no país, até o momento. O que, sim, é preciso, é apontar para os notáveis problemas de identidade que a área encontra no país, seja dividida entre uma vocação profissional ou teórica, seja cindida pela opção da autonomia disciplinar das Relações Internacionais ou da afirmação de um caráter multidisciplinar. Acima dessas cisões, contudo, parece que na pequena, mas crescente, comunidade de Relações Internacionais do país ainda não ressoou forte a questão mais fundamental, que é a especificidade de se pensarem as Relações Internacionais “no Brasil”, ou seja, em um contexto indisfarçavelmente periférico (apesar de, com freqüência, nos esquecermos disso), um contexto completamente diferente daquele de onde surgiram as principais teorias e os principais debates que, quase sem mediação, repetimos (com a única diferença, em geral, de que repetimos em português e com alguns anos de atraso). Assim, estamos longe de perceber que as Relações Internacionais podem desempenhar um papel fundamental de compreensão do lugar do Brasil no mundo e, junto das outras ciências sociais, realizar o esforço de compreensão de nossa realidade social e de sua constituição, sem o qual não há possibilidade alguma de transformação dessa própria realidade.
Nesse sentido, e como deliberada provocação, gostaria de citar um dos maiores (se não o maior) pensador das Relações Internacionais do Brasil, professor Florestan Fernandes. Refletindo sobre o Brasil de sua época (final dos anos 60), afirmou Florestan: “O rompimento desse estado (subdesenvolvimento ) não é um negócio e envolve decisões morais e políticas que, de início e a curto prazo, podem parecer decididamente anti-econômicas. Por isso, se o sociólogo quiser ir ao fundo dessas coisas, ele terá de investigar a resistência às mudanças e o incentivo às inovações nos planos estruturais e funcionais mais profundos de organização da sociedade global”. Se substituirmos “sociólogo” por “internacionalista” nessa citação, me parece que temos aí um belo ponto de partida para uma reflexão crítica sobre a área de Relações Internacionais no Brasil.


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  1. 1 Abertura do Simpósio | Centro Acadêmico Guimarães Rosa

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