Uma análise das “Relações raciais entre negros e brancos em São Paulo”

25jan08

Trabalho realizado para a disciplina Temas da Sociologia Brasileira ministrada pelo profº. Luiz Carlos Jackson (USP – 2007).

Por Andreza Tonasso Galli

  

A obra a ser analisada foi produzida em 1951 por um grupo coordenado por Roger Bastide e patrocinada pela UNESCO e pela revista Anhembi. A UNESCO, após o holocausto da Segunda Guerra Mundial, incorporou à sua agenda a temática do combate ao racismo. E começou a patrocinar pesquisas no Brasil devido ao mito da democracia racial, que descrevia uma relação harmoniosa entre as pessoas de diferentes origens raciais. Já a revista Anhembi havia demonstrado interesse a Roger Bastide em apoiar uma investigação das relações entre brancos e negros em São Paulo. Desse modo, ambos os projetos foram congregados em Relações raciais entre negros e brancos em São Paulo.

Junto a Roger Bastide, colaboraram com artigos Florestan Fernandes, Virgínia Leone Bicudo, Aniela Meyer Ginsberg e Oracy Nogueira. Irei me deter na análise dos capítulos redigidos por Roger Bastide e Florestan Fernandes, sendo eles: “Introdução”, “Manifestação do preconceito de cor” e “Efeito do preconceito de cor”, escritos por Bastide, e “Do escravo ao cidadão”, “Cor e estrutura social em mudança” e “As lutas contra o preconceito de cor”, escritos por Fernandes.

Dois eixos temáticos relacionam Bastide e Florestan: o folclore e as relações raciais[i]. O ponto de discussão adotado pelos autores nessa obra são as relações raciais na cidade de São Paulo, que vivia um intenso processo de modernização.

Na “Introdução”, Bastide descreveu o método sociológico utilizado na elaboração do relatório, que apresentava uma minúncia científica bem ao gosto da corrente sociológica que vinha se formando na Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da USP. Essa corrente era encabeçada por Florestan Fernandes e visava consolidar o campo científico das ciências sociais.

Já nas primeiras linhas do livro, foi apresentada a questão da modernização de São Paulo como um aspecto importante para o estudo do preconceito de cor. A função do preconceito de cor sofreria mudança no novo ordenamento social. “Entretanto, um novo tipo de preto afirmava-se cada vez mais, com a transformação do escravo em cidadão, e o branco não sabia mais que atitude tomar para com ele, pois os estereótipos tradicionais já não se aplicavam a esse negro que subia na escala social”[ii].

Bastide ainda finalizou essa primeira parte com um alerta de que a questão do preconceito de cor poderia ser superada, pois se verificou que “as fricções ou os problemas produzidos pela cor constituíam apenas momentos, e que, no seu conjunto, a vida dos pretos nada oferecia de uma perpétua tragédia”[iii].

Nos capítulos seguintes é possível observar uma aparente divisão do trabalho de pesquisa. Florestan ficou encarregado de uma análise mais material, preocupada com a estrutura social, que leva em conta a história econômica do negro, desde a escravidão em São Paulo, passou pelo processo de incorporação do negro livre à sociedade de classes paulista e, finalmente fez um balanço objetivo do movimento negro e demais reações ao racismo.

Bastide concentrou-se nos comportamentos e nas mentalidades, partindo para um estudo dos impactos mais simbólicos do preconceito racial nos estratos da sociedade paulista, sem deixar de lado que esta estava sujeita a diversas mudanças. Esse tipo de olhar sociológico que admite a complementaridade de outros saberes é comum na obra de Bastide. Os aspectos mais psicológicos[iv] que são valorizados pelo autor, auxiliam-no a entender os mecanismos de aproximação e afastamento que caracterizam as relações entre brancos e negros no Brasil.

Contudo, essa divisão acima colocada é mesmo apenas aparente, pois também nos textos de Florestan encontram-se reflexões sobre a dimensão psico-social e sobre a esfera cultural, assim como Bastide também demonstra alguma influência marxista em suas análises. [v]

No capítulo “Manifestações do preconceito de cor”, Bastide analisou os comportamentos dos brancos e negros de diferentes classes sociais no que dizia respeito ao preconceito. A urbanização, a industrialização, a existência de imigrantes e de classes sociais e a permanência de valores e características da antiga sociedade tradicional gerariam uma heterogeneidade de comportamentos da sociedade paulista relacionados ao preconceito.

Por isso, Roger Bastide partiu para uma investigação dos comportamentos e da origem das mentalidades dos diversos grupos sociais. As famílias tradicionais mantinham as ideologias do tempo da escravidão, aproximando os negros quando as relações eram privadas, restritas ao ambiente familiar, e afastando-os quando as relações eram públicas e aconteciam fora de casa. O grupo dos imigrantes, segundo o entendimento dos negros, chegara ao Brasil isento de preconceitos, mas como meio de se integrar e de ascender, “aprenderam” a forma de pensar das famílias tradicionais. Essa impressão que têm os negros a respeito dos imigrantes foi confirmada em maior ou menor grau de acordo com o grupo de imigrantes pesquisado.

Florestan no capítulo “Do escravo ao cidadão”, contou a história do negro em São Paulo a partir de uma perspectiva econômica que pontuava o lugar ocupado pelo escravo em cada momento.

O fim da escravidão teria retirado do negro a função econômica que ele ocupava no regime escravista. A sociedade de classes reincorporava o negro de uma forma muito lenta e reservando-lhe as piores posições no novo sistema de trabalho.

No entanto, Florestan acreditava que, com a intensificação dos processos de modernização na cidade de São Paulo, os negros conseguiriam alterar suas posições desfavoráveis. Sendo “a disposição de competir com o branco relativamente recente” e tendo nascido “da incorporação dos ideais de vida urbanos à personalidade do negro”.[vi]

Bastide enxergava uma convivência entre o arcaico (do tempo da escravidão) com o moderno (do processo de industrialização) na configuração da sociedade de São Paulo. Essas mudanças também eram visíveis na formação de classes sociais. E nessa sociedade escravista que se tornava uma sociedade de classes, cabia perguntar se o preconceito era de classes ou de cor.

As pesquisas mostraram que dentro de uma mesma classe social existia preconceito de cor. Muitas vezes o preconceito de cor estava associado a um preconceito de classe. Porém, era o preconceito de cor que prevalecia apesar de se esconder sob uma fachada de preconceito de classe, alimentando o mito de democracia racial. Nas palavras de Bastide, “um certo número de fatos já nos permite discernir um preconceito de cor independente do de classe”[vii]. E nessa sociedade de classes, “o preconceito de cor torna-se um instrumento na luta econômica, a fim de permitir a dominação mais eficaz de um grupo sobre o outro”[viii].

As facilidades de acesso à instrução e a oportunidades e a desestruturação da sociedade tradicional fariam do negro um possível concorrente às posições ocupadas pelo branco na cidade de São Paulo. A resposta a essa ameaça seria uma intensificação do preconceito de cor, seja no tratamento do negro na escola, nas barreiras impostas ao negro na vida profissional, seja na aceitação pela sociedade de matrimônios inter-raciais.

“Os estereótipos recalcados agem nas fronteiras indecisas do inconsciente, menos por construções sociais, um ritual institucionalizado, do que por repulsões instintivas, tabus pessoais” [ix], e funcionam na medida em que essa ideologia dos brancos é assimilada pelos negros.

A conseqüência disso tudo era uma aceitação pelo negro de “ficar no seu lugar”[x], baixando-lhe a auto-estima e impossibilitando-o de lutar por melhores posições na sociedade. A função de controle social era cumprida pelas instituições (igreja, polícia e escola, etc), cujas ações são analisadas no capítulo “Efeito do preconceito de cor” por Bastide.

E esse sentimento era compartilhado por praticamente todos os setores negros da sociedade paulista. Bastide, porém, via na classe dos intelectuais e líderes negros uma possibilidade de saída da condição desfavorável em que o negro se encontrava. Esses grupos seriam capazes de organizar os negros para acelerar seu progresso. “Mas o que nos chama a atenção quando abordamos essa classe, é a ausência de uma ideologia coerente, a multiplicidade dos pontos de vista, multiplicidade que manifesta a não-existência de um sentimento racial comum, mas ao contrário, a importância das diferenças de personalidades.”[xi] Evidenciando a necessidade de uma melhor articulação, organização e maturação desses grupos que se encontrariam muito desagregados naquele momento.

Já a avaliação de Florestan dos movimentos negros aparece em “A luta contra o preconceito de cor”. Ele identificou a criação de alguns movimentos negros a partir de “necessidades sociais bem definidas”. E considerava que faltaria a esses movimentos uma maior contribuição aos “problemas práticos” da população negra de São Paulo.

A miscigenação também foi problematizada por Bastide. O mulato, resultado da miscigenação, ocupava uma posição de ambivalência, pois não se enquadrava nem como negro, nem como branco[xii]. Quanto mais claro ele era, mais se aproxima do branco e, consequentemente, maiores eram suas chances de ascensão social.

No mundo urbano, caracterizado pelo anonimato, as origens familiares eram desconhecidas e, por isso, havia uma maior facilidade em esconder uma ascendência negra. Bastide via com otimismo “a mistura incessante dos sangues”, que acontecia no Brasil, e que fazia “desaparecer progressivamente as oposições de cor”[xiii], pois ela poderia suprimir as diferenças de raças ao fundi-las em uma única “raça morena”. Mas admitia que, durante esse processo, não ocorreria um desaparecimento do preconceito de cor e que “a repugnância física entre as raças nada tem de instintivo”, sendo “um produto da cultura”[xiv].

Por tudo isso, Bastide considerava que “se o negro é repelido como classe, uma melhora da situação econômica fará automaticamente desaparecer o problema. Se é repelido como negro, a questão torna-se mais grave”[xv]. Ou seja, um preconceito, se de classe, poderia ser superado com o desenvolvimento do país. Porém, se fosse um preconceito de cor, sua solução estaria na construção subjetiva das mentalidades, algo muito mais difícil de mudar de uma hora para outra.

No capítulo “Cor e estrutura social em mudança”, Florestan foi buscar as origens do preconceito no período da escravidão. Ele defendia que a cor foi o símbolo social escolhido para identificar as diferenças de estratos sociais: o homem livre era branco e o escravo era negro. A marca que era racial tornou-se também “um ponto de referência imediatamente visível e inelutável, através do qual se poderia presumir a situação de indivíduos isolados, como socius e como pessoa, tanto quanto definir o destino de uma ‘raça’.”[xvi]

‘Negro’ e ‘escravo’ eram correlatos. Preservando, mesmo na sociedade de classes, a “antiga representação da personalidade-status do negro, elaborada pelos brancos, e da auto-concepção de status e papéis, desenvolvida anteriormente pelos negros e mestiços”.[xvii] Portanto, apesar das mudanças na constituição do agrupamento social, permaneceram o preconceito e a discriminação racial como forma de manutenção da ordem social escravocrata.

Florestan conclui que a modernização de São Paulo aponta no sentido de “tendências emergentes” de superação do preconceito de cor. Mas que, mesmo assim, era possível que “o preconceito de cor encontrasse na sociedade de classes condições estruturais favoráveis à sua perpetuação” e era “provável que se desenvolvessem, na população negra e mestiça, preconceitos de classe, aplicáveis nas relações dos indivíduos de cor entre si”[xviii].

É possível falar que Bastide voltava seu olhar mais para o passado e para a permanência de certos fenômenos, enquanto que Florestan pensava o presente e as mudanças em curso. Porém, ambos faziam um esforço de entender o mundo em mudança em que viviam e, especialmente nessa obra, buscavam analisar a inserção do negro no processo econômico e na constituição do agrupamento social que se alteravam.

  

BIBLIOGRAFIA

  

BASTIDE, Roger; FERNANDES, Florestan. Relações raciais entre negros e brancos em São Paulo. UNESCO, 1955.

PEIXOTO, Fernanda Áreas. Diálogos brasileiros: uma análise da obra de Roger Bastide. Edusp; Fapesp, 2000.

NOTAS


[i] PEIXOTO, Fernanda Áreas. Diálogos brasileiros: uma análise da obra de Roger Bastide. Edusp; Fapesp, 2000, p. 157.

[ii] BASTIDE, Roger; FERNANDES, Florestan. Relações raciais entre negros e brancos em São Paulo. UNESCO, 1955, p. 11.

[iii] Idem, p. 15.

[iv] A multidisciplinariedade é explícita em alguns momentos, como no trecho “tentamos, com o auxílio de técnicas psicanalíticas, mostrar, até nesses conformados, a presença de um ressentimento recalcado que só se revela na filigrana das imagens noturnas” em BASTIDE, Roger; FERNANDES, Florestan. Relações raciais entre negros e brancos em São Paulo. UNESCO, 1955, p. 127.

[v] PEIXOTO, Fernanda Áreas. Diálogos brasileiros: uma análise da obra de Roger Bastide. Edusp; Fapesp, 2000, p. 194.

[vi] BASTIDE, Roger; FERNANDES, Florestan. Relações raciais entre negros e brancos em São Paulo. UNESCO, 1955, p. 59.

[vii] Idem, p. 133.

[viii] Idem, p. 142.

[ix] Idem, p. 124.

[x] Idem, p. 160.

[xi] Idem, p. 165.

[xii] Idem, p. 140.

[xiii] Idem, p. 150.

[xiv] Idem, p. 151.

[xv] Idem, p. 133.

[xvi] Idem, p. 70.

[xvii] Idem, p. 115.

[xviii] Idem, p. 122.



2 Responses to “Uma análise das “Relações raciais entre negros e brancos em São Paulo””

  1. Andreza,
    impressionante como as avaliações do Bastide e do FF acerca da organização dos negros, embora diversas, permanecem atuais. Não existe uma ideologia coerente no movimento negro, e até questões como demarcação de quilombos e ações afirmativas não encontram consenso nesse grupo, infelizmente, na minha opinião. Já com relação às “necessidades sociais bem definidas”, embora estejam bem definidas, essa definição não ajudou muito para dar contribuição aos “problemas práticos”.
    E avante nós vamos, mas com passos de tartaruga.

    Grande beijo, de longe!
    Marcão

  2. 2 D

    Pois é, Marcão.. Acho que na verdade o que acontece é um descolamento de uma elite (intelectual) negra que compõe esses movimentos em relação a massa, que é a mais prejudicada pelo preconceito e pela discriminação. O interessante é que esse diagnóstico já aparece no Florestan (e isso na década de 50!!) quando o movimento negro, não só o nacional, passava por um momento de extrema politização.

    Acredito que esse seja o grande desafio (não só nessa questão): como a construção de idéias e propostas não se restringir a um grupo reduzido de pessoas..
    para mim, a saída não se dará por vanguardas..
    um beijo
    D


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