O Exercício da Autonomia na Política Externa Brasileira nos Séculos XIX e XX

08mar08

O Exercício da Autonomia na Política Externa Brasileira nos Séculos XIX e XX

Dezembro, 2005

Felipe Teixeira Gonçalves

Autonomia é um conceito muito vago e impreciso. Em muitas ocasiões ele é empregado para defender coisas completamente diferentes e até opostas. É uma palavra que serve muito bem para se defender praticamente qualquer coisa. Fazer uma analise da autonomia de algo em algum período requer, portanto, que se defina exatamente o que se entende por autonomia no mesmo e como ela foi buscada realmente.

A idéia de autonomia é um componente constante e central na política externa brasileira. A definição de seu conteúdo, contudo, não é algo absoluto, mas dependente de decisões políticas e, portanto, é resultado de conflitos. O presente trabalho não se propõe a fazer uma analise detalhada da política externa brasileira. Nosso objetivo é discutir e refletir sobre o que significou a autonomia para um país periférico em um sistema internacional caracterizado pela hegemonia de uma grande potência – seja ela a Inglaterra ou os Estados Unidos –, por meio da analise da historiografia existente em relação à política externa brasileira desde a independência até o golpe militar de 1964.

A política externa brasileira será dividida aqui em dois períodos. Em primeiro lugar, temos o período imperial, no século XIX, no qual a consolidação do Estado determinou as principais questões relativas à autonomia em relação à Inglaterra: o aparato tributário e o tráfico de escravos.

Em segundo lugar, temos o Século XX, no qual a política externa brasileira oscilou, basicamente entre dois paradigmas. Estes não estão de forma nenhuma dissociados da política interna exercida por cada presidente, excetuando-se os governos Jânio Quadros e, agora, Lula. Assim como a principal clivagem econômica no Brasil durante o Século, a política externa se divide entre o paradigma liberal e o desenvolvimentista.

Antes de tudo, faz-se necessário marcar a idéia de que a política externa é uma política pública e, portanto, uma política do Estado. Sendo assim, consideramos relevante a proposição de José Murilo de Carvalho1, de que a elite econômica, que controla o Estado, não corresponde direta e inteiramente aos interesses da elite econômica deste Estado. A partir disso, entende-se como a política externa do período imperial no Brasil é marcada pelo conflito de interesses entre a elite política, a elite econômica e a potência hegemônica. Esta elite política está comprometida com a tarefa de construção e consolidação do Estado Nacional e é esta tarefa que orienta todas as suas políticas, sobretudo a política externa.

O primeiro momento em que é relevante a discussão acerca da autonomia é a independência. Á parte de todas as questões colocadas no complexo processo da independência, é importante ressaltar que o reconhecimento da independência por parte da Inglaterra – essencial para sua consolidação, devido à condição de potência hegemônica deste país – foi condicionado à assinatura de dois acordos que marcaram profundamente o exercício da autonomia na formulação da política externa do período imperial.

Em 1827 foi realizado um tratado comercial entre o Brasil e a Inglaterra que garantia uma taxa preferencial para a importação das mercadorias inglesas. Sua vigência seria até 1844. A economia brasileira possuía seu dinamismo no setor externo, sendo baseada na agricultura de exportação. A construção do Estado pressupunha uma maneira de financia-lo e, portanto, necessitava da constituição de um aparato tributário eficaz. Como nos mostra Maria Sylvia2, havia atividades econômicas rentáveis, porém sua tributação efetiva era extremamente difícil, dada a influência dos grandes proprietários de terra sobre os homens livres e pobres que seriam os possíveis cobradores dos impostos.

Por outro lado, o comércio exterior, além de muito mais rentável é muito mais facilmente tributado, pois a arrecadação se dá nos portos. A questão que se coloca é sobre quem recairá esse ônus. A tributação da exportação desfavorece o produtor nacional, enquanto a tributação da importação desfavorece o produtor estrangeiro. A autonomia neste momento, portanto, seria a opção pela tributação da importação, de modo a favorecer a economia nacional.

Contudo, neste momento a potência hegemônica tem um grande poder de pressão, sobretudo por condicionar o reconhecimento da independência ao acordo. Desse modo, a tributação acaba inevitavelmente recaindo sobre a exportação. Para que o Estado se financie ele acaba tendo que onerar a sua própria economia. A autonomia sucumbe aos limites do poder hegemônico, mas, em grande parte, porque o objetivo do reconhecimento da independência talvez fosse mais importante para que houvesse a possibilidade de algum exercício de autonomia.

Ao mesmo tempo, em 1826, foi assinado um acordo com a Inglaterra no qual o tráfico seria considerado pirataria três anos após sua ratificação – que se deu em 1827. Sua vigência também era até 1844. A questão do tráfico negreiro era um problema de política externa na medida em que os escravos eram encarados como mercadorias e, como tais, eram produzidas fora do país, ou seja, era uma questão de comércio exterior. E, como explicitado acima, era uma questão central, não só pelos tributos próprios do comércio de escravos, mas também na medida em que eles eram essenciais para a produção econômica do país e, portanto, para a economia de exportação, que era a base central dos tributos que mantinham o Estado.

A Inglaterra defendia e estava fortemente empenhada no fim do tráfico negreiro para enfraquecer política e economicamente as sociedades africanas que resistiam à sua expansão imperialista, principal objetivo do governo inglês nesse período. Por outro lado, a elite econômica nacional defendia vigorosamente o tráfico, por depender dele. Neste ponto, porém, a elite política brasileira consegue elaborar e pôr em prática uma certa resistência à potência hegemônica.

Em 1830, quando entra em vigor o acordo, o governo brasileiro não faz nada para implementar o julgamento dos traficantes com participação inglesa, como estava previsto. A Inglaterra pressiona e, em 1831, o governo edita uma lei que acaba com o tráfico. Porém, como demonstra Paulo Roberto de Almeida3, não há nenhuma disposição por parte do governo de fazer cumprir essa lei. Houve muita oposição a ela, pois não havia garantias de que o governo deixaria de cumpri-la, mas foi isso que acabou acontecendo. A única conseqüência prática da lei é o fim da tributação do tráfico por parte do Estado. A elite política abre mão desses tributos em nome dos interesses da elite econômica. A autonomia aqui corresponde à manutenção, na prática, do tráfico de escravos. O Estado cumpre todos os rituais diplomáticos para acalmar os ingleses, enquanto permitia abertamente o tráfico.

Portanto, ao mesmo tempo em que não é capaz de fazer valer sua autonomia na questão do comércio exterior, a pratica efetivamente na questão do tráfico. Nos parece que isso se deve ao fato de que a escravidão era uma questão central na economia do país e, portanto, também para o financiamento do Estado, enquanto que o acordo comercial não era tão importante quanto o reconhecimento da independência naquele contexto histórico.

Em 1844, com o fim da vigência dos dois acordos, a situação se inverte. A Inglaterra fez grande pressão para renovar o acordo comercial, inclusive com a intensificação da repressão ao tráfico. As relações entre os dois países se tornam cada vez mais conflituosas. Porém o governo brasileiro se recusa a assinar um tratado bilateral de comércio, pois sabe que não tem condições de fazer com que tal tratado seja favorável ao Brasil. No mesmo ano é criada a chamada Tarifa Alves Branco. Esta cria taxas diferenciadas para a importação, se constituindo em uma política para garantir o financiamento do Estado colocando mais peso sobre a importação e reduzindo o peso sobre a exportação.

Autores como Guilherme Deveza4 e Paulo Roberto de Almeida5 defendem que a Tarifa Alves Branco tenha sido uma primeira política protecionista e até uma política de defesa da indústria nacional. Porém, a indústria existente no Brasil era pífia. Os primeiros esboços de política protecionista só irão aparecer no Brasil na década de 1930. Além disso, o único produto que sofria concorrência externa era o charque, e este não foi protegido pela Tarifa. Parece mais razoável entende-la como uma decisão de colocar o peso do financiamento do Estado na importação e aliviar a exportação, como sempre tinha sido o objetivo da autonomia nesta matéria.

Neste momento, portanto, a elite política faz a opção por uma política externa autônoma, na medida em que confronta os interesses da Inglaterra, jogando o peso de sua tributação para o exterior e aliviando o produtor nacional. Esta autonomia é impulsionada pelas necessidades do Estado, que se impõem, apesar da ideologia liberal predominante na época.

Já com relação ao tráfico vemos exatamente o contrário. A Inglaterra novamente pressiona pela renovação do acordo, para continuar participando da repressão ao tráfico. O Brasil mantém o discurso de que reprime o tráfico e se recusa a assinar novo acordo, por rejeitar interferência inglesa nessa tarefa. A Inglaterra, então, abandona a diplomacia e, em 1845 aprova o Bill Aberdeen, lei do Parlamento inglês que define o tráfico negreiro como crime internacional e dá o direito à marinha inglesa de reprimi-lo em qualquer lugar. A Inglaterra utiliza sua força de potência e chega a bombardear navios no porto do Rio de Janeiro. O que passa a estar em jogo aqui é a própria soberania do Estado. Finalmente em 1850 é aprovada uma lei que realmente acaba com o tráfico, pois o governo passa a tomar medidas efetivas na sua repressão. A autonomia não pôde mais ser defendida, pois ela implicaria a guerra contra a Inglaterra.

Alguns defendem que o fim do tráfico foi mais uma vontade do governo brasileiro que uma imposição da Inglaterra, pois o medo do haitianismo e a tentativa de salvar a própria escravidão em si teriam levado à decisão do fim do tráfico. Porém, como nos mostra Jaime Rodrigues6, existiam muitas propostas divergentes com relação ao fim do tráfico e é difícil se imaginar que o consenso veio por uma decisão autônoma e que a pressão da ameaça à soberania não tenha sido determinante.

Neste período, portanto, o governo brasileiro testa até o limite qual é a sua capacidade de autonomia. Esta possibilidade existe, como demonstra o caso do tratado comercial, mas tem limites impostos pelos interesses da potência hegemônica, como demonstra o caso do tráfico. Aqui nos parece que o foco deve ser o interesse inglês. Para a Inglaterra, o fim do tráfico parecia ser uma questão muito mais central que algumas vantagens comerciais com o Brasil.

A outra questão existente nesse período em termos de política externa é a questão do Prata. Porém essa questão não possui nenhum elemento de possível restrição da autonomia brasileira, já que se resume a uma busca de expansão e hegemonia na América Latina. A autonomia nunca esteve em jogo.

Durante a República Velha, o sistema mundial presencia uma mudança de eixo na hegemonia global. A Inglaterra declina com a Primeira Guerra Mundial e os Estados Unidos passam a ocupar seu papel, se consolidando após a Segunda Guerra Mundial.

O Barão de Rio Branco é tido como o grande fundador da política externa moderna no Brasil. Foi ele quem resolveu todos os problemas fronteiriços, característicos das políticas externas do século XIX, e possibilitou que a atenção do país nas relações internacionais se voltasse para outras coisas, como a busca do desenvolvimento econômico.

Clodoaldo Bueno nos mostra com clareza o alinhamento aos EUA seguido por Rio Branco7. Esta visão decorria da análise de Rio Branco de que o eixo de poder mundial havia se deslocado da Europa para os EUA e que, portanto, o eixo da política externa deveria seguir o mesmo caminho. Isso porque o Brasil detinha um poder reduzido, que poderia ser potencializado por esse alinhamento. O Barão aceitava e defendia abertamente o corolário Roosevelt, se recusando a endossar iniciativas latino-americanas contrárias às intervenções, além de sempre procurar seguir as propostas de Washington para manter uma boa relação. Episódios como o esforço pela elevação das legações em Washington e no Rio de Janeiro à categoria de embaixada demonstram ainda uma estratégia de tentar se configurar como um aliado preferencial dos EUA na América do Sul. Para não por em risco esta “aliança não escrita”8 concessões eram realizadas à vontade dos EUA.

Porém, há de se ressaltar, como o fazem Ricupero9 e Bueno, o caráter pragmático da política de Rio Branco. Suas ações estavam ancoradas na busca da melhor estratégia para conseguir os interesses do Brasil e a aliança com os EUA estavam dentro dessa idéia. Não se configuraria, portanto, um alinhamento cego e incondicional, dado que este estaria condicionado a ganhos por parte do Brasil.

O problema é que pragmatismo, assim como autonomia, não diz nada. Os dois acabam muitas vezes sendo usados como sinônimos. Pragmatismo é adotar as melhores estratégias para obter os maiores ganhos em nome do interesse nacional. Mas o importante não é isso, o importante é a definição de quais são essas estratégias e qual é esse interesse nacional, pois estes não são verdades absolutas, ou consensos. Na prática, portanto, a política externa de Rio Branco em relação aos EUA se configurou em um alinhamento que serviu muito bem aos interesses estadunidenses e se mostra como um reflexo da adoção de uma perspectiva política e econômica liberal. Portanto a autonomia aqui não teve vez. Isto se vê na posição que o Brasil acabava adotando no exterior por seu apoio aos EUA e é demonstrado por Bueno10.

Este paradigma, no entanto, irá mudar com a Revolução de 30 e o governo Vargas. Chega ao poder um projeto nacionalista, centralista, modernizante e antiliberal, oposto à ordem vigente na República Velha. Isso por si só já representaria um certo distanciamento em relação aos EUA, como grandes defensores do liberalismo e, portanto, uma maior procura de autonomia .

Para Gérson Moura11, no entanto, o contexto interno da época é caracterizado por um vácuo de poder. Os grupos que detinham o poder são derrubados por uma aliança heterogênea que não consolida nenhum grupo específico em relação aos outros. Além disso, no plano internacional, também ocorre um processo semelhante, em que a Inglaterra perde a hegemonia mundial, surgindo uma disputa entre os EUA e a Alemanha pela nova hegemonia. Esta conjuntura internacional favoreceria que a política externa fosse condicionada de modo mais efetivo por um grupo hegemônico interno. Porém, a fragmentação das posições com relação à política externa dentro do governo Vargas, caracterizada pela disputa entre nacionalistas e liberais, levaria a uma indefinição que geraria uma política de eqüidistância pragmática em relação aos dois concorrentes a potência.

Vargas faria então uma política de negociação com os dois países de modo a conseguir o maior número de benefícios possíveis, aproveitando essa disputa internacional. Sua aproximação com a ideologia fascista marcaria ainda um maior empenho dos EUA em conseguir o apoio brasileiro.

Com a eclosão da guerra e o bloqueio marítimo da Inglaterra, contudo, os constrangimentos externos acabam sendo mais fortes e Vargas é forçado a se aliar aos EUA, aproveitando, contudo, esse quadro para obter ainda mais benefícios econômicos e políticos. O envio de tropas à guerra, além disso, foi uma tentativa de participar mais ativamente do cenário internacional após a guerra.

De acordo com Gerson Moura, portanto, o paradigma de política externa deixa de ser o alinhamento incondicional aos EUA e passa a ser uma busca de maior autonomia, que aqui significa que o objetivo é a industrialização nacionalista e o meio para conseguir isso, é um relativo distanciamento dos EUA e uma tentativa de barganha internacional.

Esta política externa pode ser caracterizada como desenvolvimentista por seu caráter nacionalista, protecionista, pela forte intervenção do Estado na economia, pela tentativa de transformar o papel do Brasil no sistema internacional e pela tentativa de procura de novos parceiros. Por isso tem um caráter fortemente autônomo. Esta política teve um retrocesso com Dutra, mas voltou com o próprio Vargas, continuou com Juscelino e atingiu seu auge com a formulação da Política Externa Independente, com Jânio e Jango.

Com o fim do Estado Novo, é eleito o general Dutra como presidente, exatamente na época em que começava a Guerra Fria. Como nos mostra Vizentini12, os grupos conservadores que agora estavam no poder colocaram em prática uma política econômica liberal, ao mesmo tempo em que elaboraram uma política externa que visava uma aliança preferencial com a nova superpotência, os Estados Unidos. A base ideológica dessa opção vinha Escola Superior de Guerra, que tinha a segurança e o desenvolvimento como ideais que significavam uma política econômica associada ao bloco internacional capitalista e uma luta contra a ameaça do comunismo interno.

Neste momento, o Brasil abandona, de fato, qualquer opção pela autonomia. A política externa se alinhava automaticamente aos Estados Unidos, até para demonstrar para a potencia sua disposição em lutar contra a subversão comunista. É nessa época que o Brasil assina o Tratado Interamericano da Assistência Recíproca (TIAR), projeto de pan-americanismo anticomunista patrocinado pelos EUA, que previa o apoio militar dos países latino-americanos a qualquer outro em caso de ameaça externa. Também é criada a Organização dos Estados Americanos (OEA), como forma de isolar a América do resto do mundo e legitimar a intervenção dos EUA em qualquer país da região em caso de ameaça subversiva. Contudo, os resultados econômicos esperados da Comissão Brasil-estados Unidos foram muito menores que o esperado, o que frustrou as expectativas de desenvolvimento no período.

Essas decepções geradas no governo Dutra inspiraram, novamente uma tentativa de política externa mais autônoma com relação aos Estados Unidos, de forma a contribuir com o desenvolvimento e a industrialização do país. O problema é que o contexto internacional da Guerra Fria nos anos 50 tornava muito difícil tanto atrair a atenção dos EUA quanto buscar parceiros alternativos para a obtenção de capitais e de tecnologia. Vargas volta a implantar uma política econômica desenvolvimentista e volta a tentar barganhar com os EUA, oferecendo um certo apoio político internacional em troca de apoio ao desenvolvimento nacional. Porém a conjuntura internacional realmente restringiu a possibilidade da política externa desenvolvimentista e os EUA não deram o apoio esperado. Isso acabou complicando a situação política interna de Vargas e causando seu suicídio.

No período Café Filho, voltam as políticas econômica e externa liberais. A ESG volta a influir na elaboração de uma política externa que encara a segurança interna como fator essencial a um desenvolvimento conquistado por meio de um alinhamento incondicional aos EUA.

Como nos lembra Maria Victoria Benevides13, é no governo de Juscelino que se consagra o próprio termo “desenvolvimentismo”. Suas políticas econômica e externa não fogem a esse paradigma, retomando as políticas de Vargas.

Apesar de ainda depender dos Estados Unidos como parceiro importante para o desenvolvimento nacional, o reaparecimento da Europa Ocidental com relativo peso econômico e o contínuo fechamento dos EUA para o desenvolvimento latino-americano, reforçam o caráter desenvolvimentista e autônomo da política externa. É elaborada a Operação Pan-Americana (OPA), como forma de barganha para que os EUA investissem na América Latina e contribuíssem com o seu desenvolvimento. Ela foi feita em oposição à Aliança para o Progresso proposta pelos EUA, pois enfatizava capitais públicos e relações multilaterais, em vez de capitais privados e relações bilaterais. Além disso, JK procurou diversificar os parceiros internacionais, iniciando contatos com o Bloco Socialista e com o terceiro-mundismo. Essas iniciativas, contudo sofriam uma grande restrição, dado o contexto rígido que a Guerra Fria vivia naquele momento.

Aprofundava-se com JK, portanto, os princípios de política externa desenvolvimentista que atingiriam seu auge com a Política Externa Independente. A autonomia foi exercida na medida do possível, esbarrando em certos aspectos em problemas colocados pela estrutura de um sistema internacional extremamente polarizado pela Guerra Fria. Não há dúvidas, porém de que o objetivo de desenvolvimento e industrialização foi alcançado, tendo o Plano de Metas atingido a maioria dos seus objetivos.

Os princípios da Política Externa Independente incluíam: a ampliação dos mercados para os produtos brasileiros, a autonomia pragmática, a defesa da coexistência pacífica, a defesa do desarmamento e a defesa da não-intervenção.

O período em que vigorou a Política Externa Independente foi marcado, como nos mostra Vizentini14, por um distanciamento em relação aos Estados Unidos. Há um reatamento de relações diplomáticas com a União Soviética e com países do leste europeu, uma defesa enfática do princípio de não-intervenção em relação a Cuba e a recusa de romper relações com a mesma, assim como um apoio à independência das nações africanas e um distanciamento com relação à ditadura salazarista de Portugal. Mas isso é feito também com bases pragmáticas, ou seja, o objetivo é conseguir a diversificação das fontes de recursos e de mercados externos. Há, portanto, uma recusa da lógica da Guerra Fria, vista como insuficiente para os interesses dos países do terceiro mundo, e uma aproximação ainda maior com os ideais do movimento dos não-alinhados. Pode-se até dizer que o Brasil procurava se configurar como uma liderança do terceiro mundo.

A tensão gerada com os EUA se tornou, portanto, inevitável, dentro de um contexto de Guerra Fria. Além da Política Externa Independente, os EUA se preocupavam muito com a radicalização interna provocada pelas medidas reformistas de Jango, sempre tendo em mente a ameaça de uma nova Cuba na América Latina. A CIA passou a apoiar setores golpistas e os EUA passaram a negociar acordos com governadores da oposição, passando por cima do governo federal. Os EUA apoiaram o golpe militar no Brasil, assim como em diversos outros países da América Latina, com níveis de envolvimento variáveis caso a caso.

Para Vizentini15, a Política Externa Independente foi a resposta brasileira ao crescente fechamento dos EUA em relação à América Latina, dada a prioridade da Guerra Fria. Diversas mudanças ocorridas no sistema internacional – com a emergência de novas potências econômicas, a consolidação do campo socialista, a descolonização da África e o Movimento dos Países Não-Alinhados – possibilitaram um maior distanciamento com relação ao poder dos EUA. Esse distanciamento era necessário, pois, segundo ele, é apenas com a Política Externa Independente que a política externa passa a ser um instrumento indispensável para o projeto de desenvolvimento industrial e capitalista brasileiro. É só nesse momento que o paradigma de Rio Branco é quebrado. Até então, os EUA sempre foram o parceiro prioritário da política externa brasileira.

Segundo esta interpretação, as tentativas anteriores de distanciamento dos EUA se explicam apenas como uma tentativa de barganhar e obter maiores ganhos dos próprios EUA, que seriam o parceiro prioritário. Porém o modelo de desenvolvimento existente no Brasil é o mesmo desde Vargas. A política externa já se colocava como instrumento indispensável do desenvolvimento econômico. Aliás, o objetivo desse modelo era exatamente reduzir a situação dependência econômica do Brasil. A preocupação dos EUA em apoiar o desenvolvimento da América Latina não sofreu uma mudança significativa desde o fim da Segunda Guerra. Parece mais razoável supor que a estratégia brasileira foi a mesma, sendo que a mudança ocorreu na conjuntura internacional, que possibilitou uma maior autonomia brasileira em relação à hegemonia dos EUA. E por isso, foi possível uma Política Externa Independente. Dessa forma, a idéia de Amado Cervo16 de que se tentou – com Vargas, Juscelino, Jânio e Jango – ir ao limite da possibilidade de uma política externa desenvolvimentista e autônoma face à hegemonia dos EUA, sendo que seu ápice foi a Política Externa Independente parece mais correta.

Esse paradigma sofre uma derrota com a ascensão do grupo dos sorbonistas da Escola Superior de Guerra ao poder com o golpe de 64, mas será retomada ainda na ditadura militar, tanto pela Linha Dura, quanto pela volta dos sorbonistas com Geisel, onde aliás, ele atinge o seu ápice no período militar. Portanto, antes do golpe, o alinhamento com os Estados Unidos se dá na gestão do Rio Branco e no governo Dutra, ou seja, momentos em que prevaleceu uma política liberal no Brasil. Nos governos Vargas, Juscelino, Jânio e Jango, períodos de política desenvolvimentista, a política externa procurou uma certa autonomia com relação aos EUA.

Portanto, o que verificamos durante todo esse período de política externa brasileira é que a autonomia pode ser executada em um contexto de hegemonia mundial, porém sempre encontrará um limite no real exercício por parte da potência de seu poder hegemônico.

Bibliografia

 

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1 CARVALHO, José Murilo. A Construção da Ordem – A Elite Política Imperial. Brasília, UNB, 1981.

2 FRANCO, Maria Sylvia de Carvalho. Homens Livres na Ordem Escravocrata. 2A ed., São Paulo, Kairós, 1983.

3 ALMEIDA, Paulo Roberto de. Formação da Diplomacia Econômica no Brasil. Brasília, Funag, 2001.

4 DEVEZA, Guilherme. “Política tributária no período colonial”. In HOLANDA, Sérgio B. de. História da Civilização Brasileira. 4A ed., São Paulo, Difel, 1985.

5 ALMEIDA, Paulo Roberto de. Formação da Diplomacia Econômica no Brasil. Brasília, Funag, 2001.

6 RODRIGUES, Jaime. O Infame Comércio. Campinas, Unicamp, 2000.

7 BUENO, Clodoaldo. Política externa da Primeira República. SP, Paz e Terra, 2003.

8 Termo utilizado por Ricupero para definir a relação do Brasil com os EUA (RICUPERO, Rubens. Rio Branco. O Brasil no mundo. RJ, Contraponto, 2000).

9 RICUPERO, Rubens. Rio Branco – O Brasil no Mundo. Rio de Janeiro, Contraponto, 2000.

10 BUENO, Clodoaldo. Política externa da Primeira República. SP, Paz e Terra, 2003.

11 MOURA, Gérson. “A Revolução de 1930 e a política externa brasileira: ruptura ou continuidade?”. In A Revolução de 30. Seminário Internacional. Brasília, Editora da UNB, 1983.

12 VIZENTINI, Paulo G. Fagundes. “Do nacional-desenvolvimentismo à Política Externa Independente (1945-1964)”. In FERREIRA, Jorge & DELGADO, Lucilia (orgs.). O Brasil Republicano. RJ, Civilização Brasileira, 2003, vol.3.

13 BENEVIDES, Maria Victoria. “O governo Kubitschek: a esperança como fator de desenvolvimento”. In GOMES, Ângela de Castro (org.). O Brasil Republicano. RJ, Civilização Brasileira, 2003.

14 VIZENTINI, Paulo G. Fagundes. “Do nacional-desenvolvimentismo à Política Externa Independente (1945-1964)”. In FERREIRA, Jorge & DELGADO, Lucilia (orgs.). O Brasil Republicano. RJ, Civilização Brasileira, 2003, vol.3.

15 idem.

16 CERVO, Amado. Relações Internacionais da América Latina. Brasília, IBRI, 2001.



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