O conceito de “Internacional” nas teorias póscoloniais

28abr08

O conceito de “Internacional” nas teorias póscoloniais

Jonas Medeiros (jonas.medeiros@uol.com.br)

Trabalho final na forma de projeto de pesquisa, apresentado para a disciplina “Teoria Avançada de Relações Internacionais”, ministrada pelo Prof. Dr. Rafael Villa (Ciência Política/USP) no 2° semestre de 2007

 

1. Resumo

As teorias póscoloniais emergem no debate das ciências humanas no decorrer da década de 1980, tornando-se uma referência para se pensar a condição colonial e periférica em vistas de um processo de descolonização (real, mas também potencial), que seja capaz de abranger os âmbitos social e cultural. Este projeto visa investigar o conceito de “internacional” que embasa tais teorias. Pensar o colonialismo, a descolonização e a póscolonialidade implica em pensar, de alguma forma, as Relações Internacionais. Acredito que tal implicação – qual seja: a articulação entre as teorias póscoloniais e as teorias de RI – não tenha sido suficientemente explorada. Defendo no decorrer do projeto que as teorias póscoloniais se desdobram a partir do encontro de correntes teóricas díspares, como o marxismo e o pós-estruturalismo, sempre com o ímpeto crítico da descolonização em mente. Contudo, a realização do potencial desta escola em se tornar uma Teoria Crítica está comprometido por uma série de tensões e dilemas que atingem a própria concepção de “internacional”, por vezes preso em determinismos que não deixam espaço para a agência ou então em reflexões psicológicas que ignoram a materialidade do internacional.

 

2. Introdução e Justificativa

Para iniciar a justificativa deste projeto de pesquisa, escolhi recorrer ao capítulo dedicado às teorias póscoloniais do livro Teoria das Relações Internacionais de Nogueira e Messari:

 

Optamos por incluir o debate sobre o pós-colonialismo neste livro devido ao lugar a partir do qual escrevemos. Desde a contribuição da teoria da dependência, o pós-colonialismo vem a ser a principal contribuição de acadêmicos que não são norteamericanos ou da Europa ocidental, apesar de muitos autores póscolonialistas residirem e ensinarem em universidades norte-americanas ou européias. Desse ponto de vista, trata-se de uma contribuição teórica que levanta assuntos relevantes para um estudante de Relações Internácionais que vive e estuda no Brasil. (Nogueira e Messari, 2005, p. 222)

 

Os autores buscam justificar sua atenção a estas teorias a partir de uma aproximação do local de onde eles falam e acerca do que tais teóricos falam: da periferia e da sua condição social e cultural. Ao longo do projeto, espero que este ponto se desenvolva e se aprofunde.

As teorias póscoloniais aparecem a partir de meados da década de 1980 no debate das ciências humanas num contexto mais amplo: aquele no qual a filosofia pós-estruturalista e as teorias pós-modernas ganham força no âmbito da academia européia e estadunidense. O avanço da influência de teóricos franceses como Michel Foucault, Jacques Derrida e Jean-François Lyotard atingiu não só o debate filosófico como também a produção de teoria social; neste contexto, temas como a relação entre poder e saber, a análise desconstrucionista de discursos e a recusa de grandes narrativas marcaram os objetos de pesquisa das mais diversas ciências humanas.

No caso específico das teorias póscoloniais, também reconhecemos um amplo espectro disciplinar que foi influenciado pela sua temática: partindo principalmente de estudos de crítica literária, mas passando também pela filosofia, sociologia, antropologia e até mesmo historiografia. Em um mundo que passou por um longo e doloroso processo de descolonização (entre o fim da Segunda Guerra Mundial e meados da década de 1960), as teorias póscoloniais surgem como uma espécie de ímpeto crítico, que pretende identificar a constituição social, econômica, política, cultural e discursiva do sujeito colonizado. Como veremos, este sujeito é definido muito mais pelo caráter de sujeição do que de agente. As teoria póscoloniais, portanto, buscam revelar a construção discursiva da opressão e da discriminação que marcam toda a história de relação do Ocidente com os seus Outros.

Em um movimento similar ao realizado pelas teorias pós-estruturalistas e pós-modernas, o póscolonialismo quer evidenciar a violência e a exploração que estão escondidas nos valores universalistas e humanistas propagados pelo Ocidente. O pensamento europeu, ao se pretender epistemologicamente neutro e normativamente superior, na realidade se torna cúmplice de um amplo processo histórico de subjugação dos povos não-ocidentais. Torna-se a tarefa central para as teorias póscoloniais a descolonização contínua do pensamento e da realidade, de forma a instaurar uma relação não-coercitiva e, portanto, emancipada entre o Ocidente e as suas periferias. Tal ímpeto crítico – o mesmo que eu descrevi acima – nos leva à suposição de que as teorias póscoloniais, além de se aproximarem do pós-estruturalismo e da pós-modernidade, também partilham com a Teoria Crítica[1] a vontade de realizar uma intervenção epistêmica e normativa na realidade no sentido da libertação da humanidade[2]. Como veremos no decorrer do projeto será esta convivência entre marxismo (a origem da Teoria Crítica) e pós-estruturalismo que ditará as tensões e dilemas (alguns produtivos, enquanto outros mais similares a bloqueios) no interior das teorias póscoloniais.

Minha última justificativa para a escolha deste tema é, retomando o início desta seção e interligando-o com as outras questões levantadas, o potencial das teorias póscoloniais em refletir acerca das especificidades da condição periférica no sentido de produção de uma Teoria Crítica da e para a periferia.

 

3. Revisão Bibliográfica

Tanto críticos quanto defensores apontam como texto inaugural das teorias póscoloniais o livro Orientalism: Western conceptions of the Orient, do teórico palestino (radicado nos Estados Unidos) Edward Said (1935-2003). A originalidade do livro, publicado em 1978, está na sua apropriação das teorias do filósofo francês Michel Foucault e do pensador marxista italiano Antonio Gramsci, com o objetivo de dissolver uma visão consolidada ao longo dos séculos quanto a uma determinada essência do Oriente. Said quis demonstrar, analisando obras literárias, trabalhos acadêmicos, relatos de viajantes, entre outros documentos histórico-textuais, a construção de um discurso e de uma identidade com vistas a “dominar, reestruturar e ter autoridade sobre o Oriente”[3]. O crítico definiu “orientalismo” de diferentes maneiras: um “modo de discurso baseado em instituições, vocabulário, erudição, imagens, doutrinas, burocracias e estilos coloniais”[4], assim como um “estilo de pensamento baseado numa distinção ontológica e epistemológica feita entre o ‘Oriente’ e (na maior parte do tempo) o ‘Ocidente’”[5].

Em outras palavras, a construção social e discursiva de um Outro serviu, por um lado, para afirmar a identidade da própria Europa e, por outro, foi funcional para a expansão colonial européia rumo ao controle e à exploração de grandes áreas territoriais, além de diversos povos não-ocidentais. É a transformação do não-ocidente real em uma representação do Oriente (que por si só simplesmente não existe) o objeto do estudo de Said. O orientalismo faz parte de uma estratégia colonial e discursiva na qual o Ocidente é identificado com a razão, a civilização e o masculino, enquanto o Oriente o é com a irracionalidade, a barbárie e o feminino. No fundo, o que possibilita esse discurso é um padrão de força relativa entre o Leste e o Oeste: “A relação entre o Ocidente e o Oriente é uma relação de poder, de dominação, de graus variáveis de uma hegemonia complexa (…)”[6]. O discurso do orientalismo é tanto decorrência quanto reforçador desse padrão de dominação colonial.

Said estabeleceu os termos do debate no campo das teorias póscoloniais: o centro de seu estudo sobre o orientalismo é entender a relação entre o conhecimento acadêmico e a cultura literária de um lado, e instituições imperialistas de poder, de outro. Entretanto, o debate começa a se desenvolver a partir da constatação de uma espécie de determinismo e funcionalismo no próprio discurso de Said. Ao distinguir um orientalismo manifesto (o corpo de textos acadêmicos, literários e de outras naturezas) e um orientalismo latente (a vontade de poder colonial e imperialista que determina a função destes textos), Said está dizendo que o Ocidente é incapaz de entrar em contato com os povos não-ocidentais de uma maneira não-coercitiva. A questão que se coloca para o autor é: como realizar a crítica desta estrutura de conhecimento e de poder? De que lugar e com que distância crítica, o próprio Said pode reconhecer essa estrutura e dela sair no momento que a sua própria produção acadêmica está atrelada à instituições acadêmicas ocidentais? Ao afirmar a determinação em última instância do interesse imperialista com relação à produção discursiva sobre o não-Ocidente, o crítico acaba por minar o seu próprio ímpeto crítico. Mais tarde, com o desenrolar do debate, Said irá sustentar que a garantia de sua posição e de sua distância crítica é a sua vivência pessoal como exilado palestino que lhe confere uma consciência crítica individualizada; seus críticos argumentarão ou que isso não garante que a sua obra não reproduza a estrutura do orientalismo ou então que é preciso pensar formas mais coletivas de reflexão e intervenção rumo à descolonização social e cultural do mundo.

A partir de Orientalism, diversas portas se abriram e, no decorrer da década de 1980, se consolidou um vasto campo multidisciplinar que podemos denominar de teorias póscoloniais. Neste ponto do projeto de pesquisa, as possibilidades eram tantas e o material tão extenso, que algumas escolhas se impuseram. Decidi por seguir a orientação de alguns autores, como Robert Young e Bart Moore-Gilbert, os quais colocam no mesmo patamar de importância que Said tem para a área os nomes de Gayatri Chakravorty Spivak e Homi Bhabha (ambos críticos literários indianos, ela nascida em 1942 e ele em 1949, respectivamente). Young e Moore-Gilbert chegam a denominar os três autores como formando a “trindade sagrada”[7] das teorias póscoloniais. Dessa forma, seguirei a revisão bibliográfica com as obras de Spivak e Bhabha, muito embora eu admita que diversos outros caminhos poderiam ter sido trilhados.

Spivak poderia ser rotulada como uma “feminista marxista desconstrutivista”, contudo, sua obra heterogênea e fragmentada talvez não comporte rótulo algum, uma vez que tal denominação poderia não dar conta da complexidade da sua produção – sem contar as dificuldades teóricas contidas neste rótulo, já que a passagem do feminismo para o marxismo e deste para o descontrutivismo não são de modo algum transparentes e não-problemáticas. Ela se tornou conhecida na academia do Primeiro Mundo ao traduzir obras do filósofo francês Jacques Derrida. Além disso, suas intervenções teóricas vão desde a crítica ao mainstream da teoria feminista até uma colaboração pontual com o Subaltern Studies, um grupo de historiografia colonial indiana[8].

No caso do feminismo, podemos perceber em diferentes artigos, a tentativa da autora em demonstrar como a crítica radical feminista ao patriarcado pode ser cúmplice do projeto imperialista quando compreendida a partir de um outro contexto. Em um de seus textos mais marcantes, o artigo “Can the subaltern speak?”, Spivak procura demonstrar como os intelectuais radicais do Primeiro Mundo, ao pretenderem representar os oprimidos deixando-os “falar por si sós” – neste caso, ela se refere, por um lado, ao trabalho de Foucault dedicado aos presos e aos loucos psiquiátricos e, por outro, ao feminismo primeiro-mundista aplicado às “mulheres do Terceiro Mundo” – estes intelectuais inadvertivamente estão se apresentando como transparentes, quando, na realidade, sua própria posição como investigadores está comprometida por uma estrutura muito mais ampla, aquela da divisão internacional do trabalho.

Spivak segue argumentando que, para ela, o exemplo mais claro de subalternidade não é o homem-branco-proletário-urbano (como no caso do marxismo clássico), mas a da mulher no Terceiro Mundo, geralmente trabalhadora rural e não-branca. Nesta condição subalterna, a mulher está silenciada, presa numa situação que a autora descreve como uma aporia entre o status de sujeito e o de objeto[9]. O exemplo histórico ao qual Spivak recorre é à proibição do poder colonial britânico na Índia, que criminalizou o suicídio de mulheres viúvas, até então um rito muito comum naquela sociedade. O discurso ocidental da Missão Civilizatória irá impor a versão histórica de que “the white man [are] saving brown women from brown men[10]. A visão alternativa que poderia ser afirmada é a de que as mulheres indianas queriam morrer e o poder britânico estaria impedindo a realização de sua livre vontade. No fundo, o ponto de vista de Spivak, enquanto intelectual feminista e póscolonial é a de que a mulher indiana subalterna está condicionada tanto pela sua constituição como sujeito no patriarcado tradicionalista como a sua formação enquanto objeto a ser protegido no âmbito da legalidade colonial britânica. Não resta um espaço ou um lugar do qual ela (a mulher subalterna) poderia se afirmar como sujeito livre e emancipado. Spivak termina o artigo respondendo negativamente ao seu próprio título-pergunta.

As dificuldades teóricas e políticas tanto do estruturalismo de Said (o orientalismo latente como uma vontade de poder colonial do Ocidente que tudo determina quando o Oriente é levado em conta) quanto da falta de perspectiva emancipatória em Spivak (a impossibilidade da mulher transcender a sua própria condição subalterna, frente ao domínio tradicional do patriarcado e a afirmação de uma modernidade que não passa de uma dominação imperial), nos vemos frente a um dilema. Como dito na introdução, as teorias póscoloniais parecem ser indissociáveis de um ímpeto crítico que supusemos ser um potencial de produção de uma Teoria Crítica da Periferia. No entanto, a inter-penetração de influências marxistas com referências pós-estruturalistas produziu nas obras rapidamente revisadas neste projeto a uma espécie de derrotismo no campo prático-político e um funcionalismo no âmbito teórico. Como seria possível, então, sair deste bloqueio?

A obra de Homi Bhabha é, entre outras coisas, uma tentativa de desenvolver uma resposta à esta questão. Bhabha, assim como Spivak, parte do campo aberto pelo Orientalismo de Said. Seu trabalho também tem um caráter fragmentário, sempre produzindo artigos pontuais e livros que não passam de coletâneas, sem nunca buscar uma sistematização teórica de grandes proporções. Young chega a sugerir que a trajetória de seu projeto intelectual se assemelha a um “anarquismo teórico”[11], buscando sempre inovar e nunca se atendo dogmaticamente aos conceitos ou influências no propósito de desenvolver continua e abertamente uma análise do discurso colonial.

Como dito acima, Bhabha busca superar as dificuldades do funcionalismo derrotista que pudemos notar nas obras de Said e Spivak, ao propor uma dissolução das oposições binárias rígidas que percorrem a reflexão destes dois autores: ocidente/oriente, colonizador/colonizado, universal/particular, entre outras. Tal dissolução será visada por conceitos como “ambivalência”, “mímica” e “hibridismo”. Bhabha buscará caracterizar o discurso colonial não como intencional e unidirecional como no caso de Said, mas a partir do seu caráter primariamente ambivalente[12]. Em outras palavras, o discurso colonial é constituído a partir de uma estratégia discursiva que o autor denomina de mimíca ou então de estereótipo. Ao contrário do que possa parecer de início, a necessidade de afirmação contínua e repetitiva da superioridade do colonizador não implica numa identidade e autoridade rígidas; na realidade, o estereótipo e a constituição mímica do Outro faz parte de uma “economia psíquica” que é intrinsecamente ambivalente. Em vez de ser a prova da força e da autoridade coloniais, esta estrutura está fundada numa falta essencial interior à psique do colonizador. O colonizador ao mesmo tempo que deseja ter o Outro como seu objeto, tem essa relação afetiva envolvida com sentimentos de outra ordem, sentimentos paranóicos de medo e de hostilidade, uma vez que a demanda pelo Outro pode ser e será rejeitada: o objeto de desejo que é o colonizado, além de representar uma cópia grotesca do colonizador, leva a suspeitas quanto à lealdade e reciprocidade daquele sentimento de desejo. Assim, a partir de uma leitura psicanalítica (com influências tanto de Sigmund Freud quanto de Jacques Lacan), Bhabha acredita ter reconhecido uma ambivalência no interior do discurso colonial, devido à vontade do colonizador em ser reconhecido pelo seu objeto de desejo e à falta e à ansiedade decorrentes do fracasso dessa demanda ser totalmente realizada. Para Bhabha, isso significaria instaurar um potencial desestabilizador na relação colonial, que apontaria para uma descolonização discursiva e restauraria o papel da agência e da resistência em detrimento da estrutura.

A grande força do argumento de Bhabha é, contudo, a sua maior fraqueza. Se, por um lado, ele consegue quebrar o funcionalismo unidirecional do dispositivo orientalista tal como descrito por Said, além de apontar a possibilidade de intervenção transformadora a partir de dentro do próprio discurso colonial, por outro, sua empreitada teórica é demasiadamente marcada pelo pós-estruturalismo, a ponto de simplesmente não reconhecer formas materiais de resistência à relação colonial, tais como insurgências, desobediência civil, além de oposições democráticas e pacíficas[13]. A operação teórica de Bhabha que permite dissolver a oposição colonizador/colonizado e evidenciar a fraqueza da própria autoridade colonial só se dá no campo discursivo e no psíquico, enquanto que uma Teoria Crítica de fato precisaria necessariamente articular o âmbito da representação com o da realidade material. Sem repensar ou mesmo visar as relações materiais de desigualdade, opressão e exploração, o desvelamento da fragilidade do discurso colonial se torna um mero exercício teórico feito por intelectuais.

 

4. Objetivos

O objetivo inicial dessa pesquisa era buscar enquadrar ou mesmo apontar qual o conceito de “internacional” que permeia as teorias póscoloniais. Ao entrar em contato com a bibliografia da pesquisa, surgiram algumas temáticas que me pareceram indissociávies do questionamento inicial. A fim de manter a fidelidade ao eixo central – qual seja: a aproximação entre as teorias póscoloniais e a reflexão acerca do internacional – acredito que o principal objetivo da pesquisa deva ser mapear as diversas maneiras pelas quais o imperialismo é tratado na obra da “trindade sagrada” do póscolonialismo. Me refiro ao “imperialismo” porque um rápido contato com a bibliografia póscolonial é suficiente para compreendermos a centralidade do projeto imperial, como encarado pelos autores para a caracterização das relações internacionais entre o Ocidente e o seu Outro, o não-Ocidente[14]. Se o conteúdo central do conceito de “internacional” nas teorias póscoloniais se aproxima de uma reflexão acerca do imperialismo, além de buscar a identificação exaustiva desta hipótese ao longo das obras dos três autores analisados, acredito que seria importante buscar os autores que influenciaram a obra de Said, Spivak[15] e Bhabha no tocante a definição de como desenvolvem-se tais relações imperialistas.

Este caminho da pesquisa se aproximaria, num primeiro momento, de uma delimitação daquilo que poderíamos chamar de “economia política do imperialismo”. Reconhecemos neste ponto, uma clara influência do marxismo, a primeira escola teórica a produzir reflexões sistemáticas sobre o fenômeno do imperialismo. Como dito desde o início, é importante também reconhecermos a ampla influência do pós-estruturalismo nas teorizações póscoloniais. Percebemos no decorrer da revisão bibliográfica, como as teorias póscoloniais produziram, em um determinado momento da sua história, um dilema entre o seu ímpeto crítico e a sua descrição funcionalista do discurso colonial. Bhabha talvez tenha sido aquele que mais percebeu o perigo dessa trajetória, buscando incessantemente criar e inventar soluções. Entretanto, o dilema permaneceu, uma vez que a recuperação do ímpeto crítico e da ação de resistência se deram ao custo de privilegiar demasiadamente uma “economia psíquica da ambivalência”, em substituição à “economia política do imperialismo”. A indissociabilidade dessas questões me parece uma hipótese produtiva para esse projeto de pesquisa: a reflexão póscolonial do “internacional” não está descolada dos dilemas internos à própria empreitada póscolonial, entre marxismo e pós-estruturalismo, entre materialidade e discursividade e, finalmente, entre estrutura e agência[16]. É no desdobramento dessas ínumeras tensões que o projeto de pesquisa se centrará para compreender a complexidade do papel do “internacional” nas teorias póscoloniais.

 

5. Desenho da Pesquisa

Qualquer Teoria Crítica da Periferia terá que articular uma reflexão sobre o “internacional” e as formas de opressão e de resistência. Será a partir da busca da identificação destes três momentos que a pesquisa se desenhará. O primeiro momento é mapear quais os escritos principais dos três autores a serem tratados. A dificuldade em definir as leituras da “trindade sagrada” do póscolonialismo está no caráter fragmentado de sua obra. Com a exceção do Orientalismo de Said, não encontramos nenhuma obra mais sistematizada, apenas artigos e coletâneas. A forma de escrita de Spivak e Bhabha é coerente com o seu conteúdo, fortemente influenciado pelo pós-estruturalismo e pelas teorias pós-modernas que recusam as grandes narrativas; o próprio Said com o passar dos anos abdicou da busca por grandes sistematizações. Segue na bibliografia o que acredito serem as principais obras de referência para a temática aqui em questão.

Para melhor compreender a concepção de “internacional” destes três autores, sugiro basicamente dois caminhos. O primeiro é tracar as influências mais imediatas para a sua teorização do internacional e do imperialismo. Em um dado momento de “Can the subaltern speak?”, Spivak se refere a um artigo do historiador marxista Mike Davis, sobre as estruturas imperialistas no pós-segunda guerra. Este exemplo abre espaço para que procuremos outros autores que servem de baliza para nossos três intelectuais póscoloniais versarem acerca do imperialismo. O segundo caminho é o reconhecimento de que as teorias póscoloniais não são totalmente inéditas e originais. O esforço de se pensar a condição e o discurso colonial data de algumas décadas anteriores, o que é visível na obra do ensaísta nascido na Martinica, Frantz Fanon (1925-1961), que escreveu importantes obras como Os condenados da terra e Pele negra, máscaras brancas, as quais serviram de inspiração para a teorização póscolonial, inclusive articulando uma leitura psicanalítica da opressão colonial com possíveis formas de resistência. O próprio Fanon remonta a outros autores, tais como Aimé Césaire (também nascido na Martinica em 1925, mas radicado na França) e o psicanalista francês Octave Mannoni (1899-1989).

Restam, ainda, os comentadores e as compilações de artigos que têm se amontoado no decorrer dos anos sobre as teorias e os teóricos póscoloniais. Provavelmente exista, por fim, a necessidade no decurso da pesquisa em aprofundar algumas temáticas externas ao póscolonialismo, tais como a relação entre marxismo, Teoria Crítica e pós-estruturalismo, a fim de desenvolver as questões colocados nos nossos objetivos.

 

Bibliografia

 

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CÉSAIRE, Aimé. Discurso sobre o colonialismo. Porto: Poveira, 1971.

 

DARBY, Philip (org.). Postcolonizing the International: Working to Change the Way We Are. University of Hawaii Press, 2006.

 

DAVIS, Mike. “The Political Economy of Late-Imperial America”. New Left Review (Jan/Fev 1984), 143, pp. 6-38.

 

FANON, Frantz. Os condenados da terra. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1968.

 

__________. Pele negra, máscaras brancas. Porto: A. Ferreira, 1969.

 

MANNONI, Octave. Prospero and Caliban: The Psychology of Colonization. Ann Arbor Paperbacks, 1991.

 

MOORE-GILBERT, Bart. Postcolonial Theory: Contexts, Practices, Politics. Londres: Verso, 1997.

 

NOGUEIRA, João Pontes; MESSARI, Nizar. Teoria das Relações Internacionais. Rio de Janeiro: Campus, 2005.

 

RAY, Sangeeta; SCHWARZ, Henry (orgs.). A Companion to Postcolonial Studies. Oxford: Blacwell Publishing, 2000.

 

SAID, Edward. Cultura e imperialismo. São Paulo: Companhia das Letras, 1995.

 

__________. Orientalismo: o Oriente como invenção do Ocidente. São Paulo: Companhia das Letras, 2007.

 

SPIVAK, Gayatri. “Can the subaltern speak?” In: GROSSBERG, Lawrence et al (orgs.). Marxism and the interpretation of culture. Univ. of Illinois Press, 1988.

 

__________. “French feminism in an international frame”. In: Other Worlds: Essays in Cultural Politics. Nova Iorque: Methuen, 1987.

 

__________. “Imperialism and Sexual Difference”. Oxford Literary Review (1986), 8(1-2):225-240.

 

__________. “Three Women’s Texts and a Critique of Imperialism”. In: GATES, Henry Louis. (org.) “Race”, Writing and Difference. Chicago: University of Chicago Press, 1986

 

YOUNG, Robert. Colonial desire: Hybridity in Theory, Culture and Race. Londres: Routledge, 1995.

 

__________. “Neocolonialism and the Secret Agent of Knowledge: An Interview with Gayatri Chakravorty Spivak”. Oxford Literary Review, 1991, 13(1-2), p. 220-251.

 

__________. White mythologies: writing history and the West. Londres: Routledge, 1990.



[1] Para a definição originária de Teoria Crítica, cf. HORKHEIMER, Max. “Teoria tradicional e teoria crítica”. In: Os Pensadores. Para uma abordagem similar que leva em conta o debate da Teoria de Relações Internacionais e pensa o conceito de Teoria Crítica neste âmbito, cf. COX, Richard. “Social Forces, States and World Orders: Beyond International Relations Theory”. In: KEOHANE, Robert (org.). Neorealism and its Critics. Nova Iorque: Columbia University Press, 1986.

[2] A citação a seguir, eu acredito, embasa tal suposição: “As Edward Said argued so brilliantly in 1978, European knowledge is colonialism. The archives of the great Western universities were built from the orientalist acquisition of information about the other. Postcolonial studies works to make this relation of unequal power more visible, with the goal of ending it. Postcolonial studies in this sense is the radical philosophy that interrogates both the past history and ongoing legacies of European colonialism in order to undo them. Thus is not merely a theory but a “theoretical practice”, a transformation of knowledge from static disciplinary competence to activist intervention. Postcolonial studies would be pointless as a mere intellectual enterprise, since Western intellectual enterpreise itself is fundamentally dependent on Europe’s conquest and exploitation of the colonial world. This lesson of Marx’s is as relevant today as it was in 1845: “The philosophers have only interpreted the world, in various ways; the point is to change it”. Postcolonial studies at its best changes the world, providing interpretations that have practical consequences.” SCHWARZ, Henry. “Mission Impossible: Introducing Postcolonial Studies in the US Academy”. In: SCHWARZ, Henry; RAY, Sangeeta  (orgs.). A Companion to Postcolonial Studies. Oxford: Blacwell Publishing, 2000.

[3] Said, 2007, p. 29.

[4] idem, p. 28.

[5] idem, p. 29.

[6] idem, p. 32.

[7] “Holy Trinity”. Moore-Gilbert, 1997, p. 1

[8] Um dos caminhos possíveis aos quais eu estava me referindo logo acima, envolvia o estudo destes Estudos Subalternos. No início da década de 1980, um grupo de historiadores indianos interessados em contestar as linhas de pesquisa hegemônicas, demasiadamente calcadas na importância das elites nacional-burguesas no processo de independência da Índia, se uniram, tendo como base a obra de Antonio Gramsci, para compreender o papel da agência, organização e consciência dos camponeses insurgentes ao longo da história indiana – a “política do povo”, nos seus termos. Décadas atrás, Gramsci criou o termo “subalterno” nos escritos que mais tarde seriam conhecidos como os Cadernos do cárcere, para poder se referir ao proletariado italiano sem que os censores fascistas percebessem suas referências subversivas. Este grupo de historiadores indianos, sob a influência da historiografia marxista britânica – representada por Eric Hobsbawn, Perry Anderson, E. P. Thompson, entre outros – e da recepção dos textos de Gramsci na Índia, dedicaram 10 volumes de Estudos Subalternos entre os anos de 1982 e 1999. Minha escolha em não tratar deste corpo de textos se deve à complexidade relacionada à mudança de temática e de influência teórica no decorrer destes anos: de uma clara influência do marxismo em direção à primazia do pós-estruturalismo na forma de análises de discursos e de silêncios dos camponeses indianos. Fica, ao menos, a menção a esta empreitada teórica e historiográfica nesta  “pequena” nota. Para maiores informações, cf. CHATUVERDI, Vinayak (org.). Mapping Subaltern Studies and the Postcolonial. Londres: Verso, 2000.

[9] Spivak, 1988, p. 306.

[10] Spivak, 1998, p. 297.

[11] Young, 1990, pp. 146-7.

[12] O desenvolvimento a seguir se baseia na reconstrução do argumento de Bhabha em seu artigo “The Other Question”.

[13] Moore-Gilbert, 1997, pp.140-151.

[14] Para reforçar meu ponto, gostaria de citar o nome de algumas obras: Cultura e imperialismo, por exemplo é, após Orientalismo, o segundo livro de referência de Said; já Spivak escreveu inúmeros artigos que fazem referência ao imperialismo no título: “Three Women’s Texts and a Critique of Imperialism”, “Imperialism and Sexual Difference” e “Neocolonialism and the Secret Agent of Knowledge”. A ausência de referências explícitas no título de alguma obra de Bhabha será parcialmente explicada no decorrer do texto.

[15] No caso de Spivak, acredito que o conceito de “divisão internacional do trabalho” seja central para sua teorização do capitalismo global e suas estruturas sexistas e racistas de opressão. Torna-se necessário, dessa forma, mapear o conteúdo, a função e a origem deste conceito.

[16] A resolução da dicotomia estrutura-agente me parece central para que o ímpeto crítico das teorias póscoloniais em descolonizar social e culturalmente o mundo se torne, de fato, uma Teoria Crítica da Periferia (associando o diagnóstico de uma estrutura opressora com a identificação de possibilidades de resistência e de agência transformadora).



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