As Disciplinas e a Fabricação do Indivíduo: O Corpo Útil e Dócil

09maio08

Cristiana de Oliveira Gonzalez

Leonardo de Oliveira Fontes

Nádia Nakamura Vieira

Sérgio Roberto Guedes Reis

Monografia final originalmente apresentada para a disciplina Temas do Pensamento Sociológico Contemporâneo, ministrado pela profª drª. Vera da Silva Telles no segundo semestre de 2007.

Introdução

Objetivo deste livro: uma história correlativa da alma moderna e de um novo poder de julgar; uma genealogia do atual complexo científico-judiciário onde o poder de punir se apóia, recebe suas justificações e suas regras, estende seus efeitos e mascara sua exorbitante singularidade” 1.

A partir dos anos setenta, quando Foucault passou a estudar a constituição do sistema punitivo moderno, com seu ordenamento jurídico e suas prisões, as práticas governamentais de gestão social e a história da sexualidade, ele procurava apenas uma coisa: compreender como a razão é indissociável de um mecanismo de normatização da vida. Seu programa caminhará em direção àquilo que chamamos de “genealogia do poder” e seus textos serão dedicados à maneira com que a razão moderna sempre foi indissociável de modos de racionalização da dimensão prática vinculados às premissas de um bio-poder.

Neste sentido, encontramos na obra Vigiar e Punir (1975) uma análise singular das formas com que o corpo se encontra mergulhado num campo político, onde as relações de poder o alcançam de modo imediato. O sistema punitivo, mais do que um mecanismo “negativo” de correção, que permite a repressão e a exclusão, é recolocado em uma certa “economia política” do corpo. Foucault nos mostra como o corpo se constitui em força útil, força de trabalho, quando é ao mesmo tempo corpo produtivo e corpo submisso. Há todo um investimento político do corpo, que marca, dirige, suplicia, sujeita a trabalhos e obriga a cerimônias, e que está ligado, segundo relações complexas e recíprocas, à sua utilização econômica. Para que se constitua enquanto força de trabalho, imerso em relações de poder e de dominação, o corpo também precisa estar preso em um sistema de sujeição, em que a necessidade é um instrumento político organizado, calculado e utilizado.

Mas não se trata de uma sujeição que é obtida unicamente pela violência ou ideologia, ela pode ocorrer de um modo direto, físico, ser a força contra a força, agindo sobre elementos materiais sem ser necessariamente violenta. Pode ser calculada, tecnicamente pensada, organizada de uma forma sutil, não fazer uso das armas nem do terror e, ainda assim, ser de ordem física. Com isso, somos levados a considerar o próprio “saber” do corpo não como a ciência do seu funcionamento e o controle de suas forças, mas como uma tecnologia política do corpo, que é raramente formulada sistematicamente em um discurso contínuo. Ela não está localizada em uma instituição, nem num aparelho de Estado. Seus mecanismos e efeitos são difusos, encontram-se em outro nível. De alguma maneira, trata-se de uma microfísica do poder, que os aparelhos e instituições colocam em jogo, mas cujo campo de validade se encontra entre esses grandes funcionamentos.

Essa é a maneira com que Foucault nos leva a reconsiderar nossa concepção de poder. Ao analisar o investimento político do corpo e a microfísica do poder, devemos supor que esse poder não seja entendido como uma propriedade, em que seus efeitos de dominação são atribuídos a uma “apropriação”. Nele se desvenda uma rede de tensões, sempre em atividade, constituindo-se como uma estratégia, com suas manobras, táticas, técnicas e funcionamentos. É um poder que se exerce, mais do que se possui. Renunciamos a uma noção de poder como “privilégio” adquirido ou conservado da classe dominante, pois ele é antes um efeito de conjunto de suas posições estratégicas, que pode ser manifestado e reconduzido pela posição dos que são dominados. O poder investe os que não têm, passa por eles, atravessando-os. E, em sua luta contra esse mesmo poder, eles se apóiam nos pontos em que ele os alcança. Aos poucos entendemos que essas relações não estão no par Estado-sociedade civil, nem na fronteira das classes. No que se refere ao poder, abrimos mão da oposição violência-ideologia, à metáfora da propriedade, ao modelo do contrato ou da conquista.

A história do presente que Foucault se propõe a fazer, não seria o estudo de um Estado tomado por um corpo, nem de um corpo tomado como um pequeno Estado. Trata-se de estudar um “corpo político” como o conjunto dos elementos materiais e das técnicas que servem de armas, de reforço, de vias de comunicação e de pontos de apoio para as relações de poder e de saber que investem os corpos humanos e os submetem como objetos de saber.

O corpo individual e social simbolizam os loci de confluência das tensões dos jogos de poder que marcarão, para Foucault, a objetivação do indivíduo na modernidade. Tendo essa centralidade do corpo para Foucault em conta, temos o objetivo de, com esta pesquisa, introduzir a compreensão do autor francês no que concerne às relações entre poder e corpo e suas consequência mais manifesta: a produção de identidades. Para tanto, inicialmente verificaremos as hipóteses de desenvolvimento histórico daquilo que Foucault denominou “a Economia Política do Corpo”, para então apresentarmos sua expressão maior, o processo disciplinar, e sua correspondência com o domínio jurídico (a diferenciação entre norma e lei na sujeição dos corpos, tópico de grande polemização perante o pensamento liberal) e o domínio social, onde então tentaremos compreender de que maneiras esses jogos de poder organizaram a sociedade e foram responsáveis pela determinação de suas identidades. Ao término dessa seção, realizaremos uma breve reflexão sobre as respostas dadas pelos corpos a essas técnicas de dominação para finalmente vermos quais as saídas propostas por Foucault e quais as suas implicações.

Processo Histórico: A Economia Política do Corpo

Com a grande explosão demográfica do século XVIII, o desenvolvimento de um aparelho de produção cada vez mais extenso e complexo, o aumento das riquezas, e a valorização política e moral das relações de propriedade2, originou-se uma nova exigência aos imperativos da economia política do poder. Até então, a característica marcante do poder soberano – seja na Antiguidade, seja na baixa Idade Média – era o que se poderia denominar direito de vida e de morte, quer dizer, o direito de “causar a morte e de deixar viver”3. A transição para uma nova configuração social, econômica e política fez exigir essa nova configuração do poder. Era preciso anular os efeitos das repartições indecisas, o desaparecimento descontrolado dos indivíduos, sua circulação difusa, sua coagulação inutilizável e perigosa; tática de antideserção, de antivadiagem, de antiaglomeração4. Importava construir métodos de vigilância mais rigorosos, um policiamento mais estreito da população, estabelecer um poder que a cada instante fosse capaz de vigiar o comportamento de cada um, e com isso produzir simultaneamente conhecimento e domínio sobre os indivíduos, e conseqüentemente sua maior utilidade5.

[…] nasce uma arte do corpo humano, que visa não unicamente o aumento de suas habilidades, nem tampouco aprofundar sua sujeição, mas a formação de uma relação que no mesmo mecanismo o torna tanto mais obediente quanto é mais útil, e inversamente”6.

Perante o corpo, o poder deixou de apresentar a característica puramente negativa do confisco e da morte. Passou a ser produtor, incitador, reforçador, capaz de majorar e organizar as forças que lhe estavam submetidas; ele passa a produzir forças, fazendo-as crescer. O velho direito de causar a morte e deixar viver foi sendo gradativamente substituído por um poder capaz de de causar a vida ou devolver à morte.7 Ela significava, assim, uma outra política a respeito dessa multiplicidade de corpos e forças que uma população passou a representar conforme se estabelecia nas cidades. As interações nesses novos espaços Constituíram-se enquanto uma nova economia e uma nova tecnologia do poder, através da “descoberta do corpo como objeto e alvo do poder”8. Um corpo que se manipula, se modela, se treina, que obedece, responde, se torna hábil ou cujas forças se multiplicam9, por meio de um conjunto de métodos que permitem o controle minucioso das operações do corpo, que realizam a sujeição constante de suas forças e lhes impõem uma relação de docilidade-utilidade, através de uma codificação que esquadrinha ao máximo o tempo, o espaço e os movimentos.

Esse poder sobre a vida, para Foucault apresentou-se sob duas esferas – não-mutuamente excludentes – interligadas por feixes interligados de relações. A primeira centrou-se no corpo como máquina, objetivando seu adestramento, a ampliação de suas aptidões, o crescimento de sua utilidade e docilidade, integrando-o em sistemas de controle eficazes e econômicos. Os procedimentos de poder empreendidos para a efetivação desses objetivos são as disciplinas, as anátomo-políticas do corpo humano10 que aumentam as forças do corpo em termos econômicos de utilidade e diminuem-nas em termos políticos de obediência.

[…] ela dissocia o poder do corpo; faz dele por um lado uma “aptidão”, uma “capacidade” que ela procura aumentar; e inverte por outro lado a energia, a potência que poderia resultar disso, e faz dela uma relação de sujeição estrita. Se a exploração econômica separa a força e o produto do trabalho, digamos que a coerção disciplinar estabelece no corpo o elo coercitivo entre uma aptidão aumentada e uma dominação acentuada”11.

A segunda esfera de conformação corpórea centrou-se no que o pensador francês denomina corpo-espécie. Aí estão as preocupações com o ser vivo enquanto processo biológico: o opder coordena a proliferação, os nascimentos e a mortalidade, o nível de saúde, a duração da vida, a longevidade. Forma-se, aí, a bio-política da população12.

A Relação Direitos-Disciplina no Controle Social

Se quisermos ter uma análise mais completa e abrangente do tema em questão, precisamos entender que o poder sobre os sujeitos e seus corpos se dá em três esferas diferentes de governo: o governo de si mesmo, que diz respeito à moral individual de cada indivíduo; a arte de governar adequadamente uma família, que diz respeito à economia (gestão dos recursos e da riqueza); e a ciência do bem governar um Estado, que diz respeito à política13. Ao contrário do que pode parecer, Foucault aponta para a continuidade entre essas artes de governar, que é tanto ascendente quanto descendente.

Neste sentido, se faz importante destacar, que a organização de um regime de tipo parlamentar e representativo historicamente constituído pelo processo de constituição da burguesia como classe politicamente dominante abrigou a instalação de um quadro jurídico explícito, codificado e formalmente igualitário. Mas, de acordo com Foucault, a forma jurídica geral que garantia um sistema de direitos em princípio igualitários era sustentada por mecanismos miúdos, cotidianos e físicos, por todos esses sistemas de micropoder essencialmente inigualitários e assimétricos que constituem as disciplinas. Assim sendo, o que se constata é que o desenvolvimento e a generalização dos dispositivos disciplinares constituíram a vertente obscura do processo possibilitou a formação das liberdades formais e jurídicas, pois os processos disciplinares organizaram a base que a garantiria a submissão das forças e dos corpos14.

Opõem-se o laço disciplinar e o laço contratual, e permitem sistematicamente falsear este último a partir do momento em que tem por conteúdo um mecanismo de disciplina. Os jurídicos qualificam os sujeitos de direito, segundo normas universais, as disciplinas caracterizam, classificam, especializam; distribuem ao longo de uma escala, repartem em tomo de uma norma, hierarquizam os indivíduos em relação uns aos outros, e, levando ao limite, desqualificam e invalidam”15.

Desta forma, deve-se antes ver nas disciplinas uma espécie de “contradireito”, que introduz assimetrias insuperáveis e com isso acaba por excluir reciprocidades. E se código jurídico da sociedade moderna parece fixar limites ao exercício dos poderes, seus poderes disciplinares difundido em toda parte faz funcionar, uma maquinaria ao mesmo tempo imensa e minúscula que sustenta, reforça, multiplica a assimetria dos poderes e torna inaplicáveis seus objetivos igualitários.

O Poder Disciplinar e a Determinação das Identidades

A materialização dos controles reguladores desses novos mecanismos de poder passa pelo desenvolvimento das instituições: escolas, hospitais, colégios, universidades casernas, ateliês, as fábricas, institutos de pesquisa e tabulação de dados. Nascem as estatísticas, que descrever as regularidades e características dos movimentos populacionais e de seus efeitos econômicos. O poder disciplinar aí transmutado implica num esforço que produzirá a vontade de saber sobre o indivíduo. Desenvolvem-se, nesse contexto, as ciências humanas, as disciplinas que terão papel fundamental, como veremos, na determinação comportamental dos indivíduos16.

Gerir a população significa geri-la em profundidade, minuciosamente, no detalhe. Impõe-se, aí, um princípio de visibilidade obrigatória, um olhar quase ininterrupto por meio de técnicas, processos e saberes consolidados por descrições e dados que esmiuçam o indivíduo e permitem a sua classificação como tal e como parte de uma multiplicidade que se quer organizar. O Estado, com esse mecanismo de poder, torna-se, então, totalizante e individualizador ao mesmo tempo. O poder pastoral, oriundo das instituições cristãs, é um mecanismo substancial na efetivação dessa nova economia política e na transformação de seus próprios propósitos17. Passou-se a se centrar em objetivos mundanos (saúde, bem-estar, proteção); houve um reforço na administração (força policial) a fim de garantir a saúde, a higiene, os padrões urbanos para o comércio e o artesanato; e, por fim, ocorreu uma multiplicação dos objetivos e agentes do poder, com enfoque para o desenvolvimento do saber sobre o homem tanto em termos globalizantes (quantitativos), quanto em termos analíticos (indivíduo).

O poder pastoral se revela, então, como mecanismo fundamental de poder para a implantação do que Foucault denomina como governamentalidade, tanto sobre o corpo dos indivíduos como sobre o corpo social, na medida em que ele se faz presente no cotidiano dos sujeitos e permite a construção de um saber útil ao exercício do próprio poder. Assim, segundo Foucault, o nascimento das ciências do homem, a economia, a psicologia, a biologia, deve ser analisado pelo campo da disciplina, isto é, pelos mecanismos que penetram nos corpos, nos gestos, nos comportamentos, analisando-os e, principalmente, normalizando-os. É aí onde se manifesta mais pujantemente o poder disciplinar que, como vimos, remete exatamente aos procedimentos de poder que transformam o corpo em máquina.

Para Foucault, o poder disciplinar é com efeito um poder que, em vez de se apropriar e de retirar, tem como função maior adestrar; para com isso retirar e se apropriar ainda mais e melhor. Assim, a disciplina é a técnica específica de um poder que toma os indivíduos ao mesmo tempo como objetos e como instrumentos de seu exercício. É um poder modesto, que funciona numa economia calculada, porém permanente18, fazendo funcionar um poder que se auto-sustenta por seus próprios mecanismos e substitui as manifestações pelo “jogo ininterrupto dos olhares calculados”19.

Por outro lado, seria justamente devido a esse jogo de quantificação, dos cálculos permanentes, que os aparelhos disciplinares hierarquizam os “bons” e os “maus” indivíduos. Por sua vez, essa microeconomia, acaba por operar uma diferenciação dos próprios indivíduos, de sua natureza, de suas virtualidades, de seu nível ou valor20.

Neste sentido, a disciplina avaliaria os indivíduos e os classificaria, marcando seus desvios, hierarquizando as qualidades, as competências e as aptidões, distribuindo, assim, os indivíduos segundo suas aptidões e seu comportamento, segundo o uso que se poderia fazer deles; exercendo sobre eles uma pressão constante, “para que se submetam todos ao mesmo modelo, para que sejam obrigados todos juntos ‘à subordinação, à docilidade, à atenção nos estudos e nos exercícios, e à exata prática dos deveres e de todas as partes da disciplina. Para que, todos, se pareçam”21.

A divisão constante do normal e do anormal, a que todo indivíduo é submetido, leva a organização de todo um conjunto de técnicas e de instituições que assumem como tarefa medir, controlar e corrigir os anormais. Assim, os dispositivos disciplinares tornam homogênea a população, através de um processo de normalização imposto por estas práticas disciplinares.

Forma-se então uma política das coerções que são um trabalho sobre o corpo, na manipulação calculada de seus elementos, de seus gestos, de seus comportamentos. O corpo humano entra numa maquinaria de poder que o esquadrinha, o desarticula e o recompõe. Uma ‘anatomia política’, que é também igualmente uma ‘mecânica do poder’, está nascendo; ela define como se pode ter domínio sobre o corpo dos outros, não simplesmente para que façam o que se quer, mas para que operem como se quer, com as técnicas, segundo a rapidez e a eficácia que se determina”22.

Tal qual enunciado por Foucault23, as esferas do corpo máquina e do corpo esfera não se anulam. Pelo contrário, elas se potencializam e permitem a efetivação dos processos de determinação de individualidades domesticadas e úteis. Os processos de normalização comportamental não são contrapartes dos processos de organização institucional das populações; pelo contrário, ambas são vetores de normalização, assujeitamento e, notadamente, objetivação dos corpos, que simbioticamente são modelados enquanto especificidades e multiplicidades igualmente produtivas:

A Resposta do Corpo: Resistência e Contra-poder

É justamente por meio dessa normalização da população que a disciplina fixa ou regulamenta os movimentos; resolve as confusões, as aglomerações compactas sobre as circulações incertas, as repartições calculadas24, o que por sua vez, acaba por neutralizar os efeitos de contrapoder que formam resistência ao poder que quer dominar.

Enfim, a disciplina tem que fazer funcionar as relações de poder não acima, mas na própria trama da multiplicidade, da maneira mais discreta possível […] como a vigilância hierárquica, o registro contínuo, o julgamento e a classificação perpétuos. Em suma, substituir um poder que se manifesta pelo brilho dos que o exercem, por um poder que objetiva insidiosamente aqueles aos quais é aplicado; formar um saber a respeito destes. Em uma palavra, as disciplinas são o conjunto das minúsculas invenções técnicas que permitiram fazer crescer a extensão útil das multiplicidades fazendo diminuir os inconvenientes do poder que, justamente para toma-las úteis, deve regê-las”25.

Foucault aponta, por diversas vezes, que o exercício do poder não se estabelece por meio de uma relação de consentimento, ou seja, ao contrário do que a doutrina contratualista liberal tenta fazer acreditar, o poder em nossas sociedades não está ligado ao consenso entre os indivíduos para constituição do corpo social, mas sim à “materialidade do poder se exercendo sobre o próprio corpo dos indivíduos”26 Desse modo, as relações de poder não são relações unilaterais, mas uma ação sobre a ação. Dessa forma, ela não gera passividade, mas reconhece o outro até o fim como sujeito da ação e abre todo um campo de respostas, reações, efeitos, etc.

O exercício do poder consiste, então, em conduzir a conduta dos outros e em ordenar a probabilidade das reações do outro. É mais da ordem do governo do que do afrontamento, ele estabelece vínculos mais do que destrói. Para que isso ocorra, para agir sobre a possibilidade de ação dos outros, para estruturar seu campo de ação, a liberdade surge como elemento fundamental da vida social moderna, uma vez que o poder só pode se exercer sobre sujeitos “livres”, enquanto “livres”. Não há, então, um confronto entre poder e liberdade, mas um jogo complexo em que liberdade aparece como condição de existência para o poder, ao mesmo tempo em que aparece como seu oposto na sua tentativa de determiná-la inteiramente.27

Nesse sentido, o poder investe contra o corpo como única forma de garantir seu completo domínio. Esse investimento do corpo pelo poder, por meio de mecanismos como a ginástica, os exercício, o desenvolvimento muscular, a nudez, etc., permite a autoconsciência do corpo e leva a uma reação do corpo contra o poder: a saúde é contraposta à economia, o prazer à moralidade sexual e ao pudor. Assim, o que tornava forte o poder passa a ser usado conta ele, seu ataque ao corpo o expõe.

A resposta do poder não tarda. A exploração econômica e, muitas vezes ideológica, da erotização do corpo que se torna comercializável ou que abre espaço para novos produtos voltados para o culto ao corpo surge como nova estratégia de ação. A contra-reação do poder é um novo investimento contra o corpo, não mais na forma controle reação, mas de controle-estimulação: “fique nu, mas seja magro, bonito, bronzeado!”28.

Como se vê, a relação poder-corpo ou sujeito-poder não é de forma alguma unilateral ou passiva por uma das partes; nem o poder se limita a dizer sim ou não, (ele estimula, provoca, produz), afinal ele precisa agir sobre a ação dos outros; nem o corpo recebe pacificamente a ação do poder, caso contrário estaríamos lidando com uma relação de dominação e não de poder. Desse modo, liberdade e resistência são pressupostos fundamentais para a ação do poder.

Temos, então, que o longo processo de disciplinação desenvolvido na modernidade incidiu radialmente sobre os corpos, moldando-os e determinando-os. Os processos de especificação e direcionamento que marcaram os jogos de poder, como afirma Foucault sobre a transformações nos mecanismos punitivos atingiram os corpos para modificar as almas, o coração, o intelecto, a vontade, as disposições29, produzindo-as, em cada esfera de ação, convenientemente. Formaram-se identidades, auto-percepções condicionadas; a saída defensiva destes mecanismos fez emergir a reafirmação dessas enumerações e, como vimos acima, a mutação das formas de dominação e assujeitamento. Essa resistência não é capaz de abandonar os pressupostos interativos hierárquicos vigentes. Dessa maneira, não se abandonam as historicamente estabelecidas estratégias de controle dos corpos. A liberação desse controle está, para Foucault, para além dessas determinações estaticizadas, já que, como vimos, o poder analisado não age de maneira unilateral; ele reconhece os corpos enquanto agentes, pois é dessa maneira que ele é capaz de torná-los produtivos de acordo com seus interesses. A auto-identificação implica no reconhecimento da validade dos mecanismos históricos de ordenação e classificação empreendidos nas teias relacionais. Aí estamos, ainda, presos às determinações dos jogos de poder. Os corpos se libertam do poder não quando afirmam sua generalidade ou sua especificidade, nem quando “tomam” para si esse poder. Interromper a continuidade da produção de significados hierarquizantes é abandonar esses dispositivos de controle e negar a naturalização de essências que eles, necessariamente, produzem para existir. A radicalidade do ato proposto pelo pensador francês está na negação das dicotomizações, que produzem assimetrias, e disputas por sentidos de verdade, que implicam na reprodução de toda a lógica de sujeição que constituiu a modernidade.

1 FOUCAULT, Michel. Vigiar e Punir: nascimento da prisão; tradução de Raquel Ramalhete. Petrópolis, Vozes, p.23

2FOUCAULT, 2007, p. 66.

3“O poder era, antes de tudo, nesse tipo de sociedade, direito de apreensão das coisas, do tempo, dos corpos e, finalmente, da vida; culminava com o privilégio de se apoderar da vida para suprimi-la.” FOUCAULT, Michel. História da Sexualidade I: A Vontade de Saber; tradução de Maria Theresa da Costa Albuquerque e J. A. Guilhon Albuquerque. Rio de Janeiro, Graal, 2003, 15ª Ed., p. 128.

4FOUCAULT, 2007, p.123.

5“Estabelecer uma nova ‘economia’ do poder, assegurar uma melhor distribuição dele, fazer com que não fique concentrado demais em alguns pontos privilegiados, nem partilhado demais entre instâncias que se opõem, que; que seja repartido em circuitos homogêneos que possam ser exercidos em toda parte, de maneira contínua e até o mais fino grão do corpo social. Estratégia para o remanejamento do poder de punir, de acordo com modalidades que o tornam mais regular, mais eficaz, mais constante e mais bem detalhado em seus efeitos; enfim, que aumentem os efeitos diminuindo o custo econômico e seu custo político”. IDEM, pp. 68-69.

6 IDEM, p.119.

7IDEM, 2003, pp. 128-130.

8 IDEM, 2007, p.117.

9 IDEM, p.117.

10IDEM, 2003, p. 131.

11IDEM, 2007, p.119.

12IDEM, 2003, p. 131.

13Idem. “Governamentalidade” IN Microfísica do Poder. Rio de Janeiro, Graal, 20ª Ed., p. 281.

14 FOUCAULT (2007), pp. 182-183.

15 FOUCAULT (2007), p. 183.

16

17 O poder pastoral tem como características a busca pela salvação individual, o auto-sacrifício em nome do rebanho, o cuidado pessoal com cada indivíduo e um profundo conhecimento da mente das pessoas.

18 IDEM, p. 143.

19 IDEM, p. 148.

20 IDEM, p. 151.

21 IDEM, p. 152.

22 IDEM, p. 119.

23IDEM, 2003, p. 131.

24 IDEM, 2007, p. 181.

25 IDEM, p. 181.

26 FOUCAULT, Michel. “Poder-corpo” In: Microfísica do Poder; organização e tradução de Roberto Machado. Rio de Janeiro Edições Graal, 1979.

27 FOUCAULT, Michel. “O Sujeito e o Poder”. In: DREYFUS, Hubert L. e RABINOW, Paul. Michel Foucalt. Uma trajetória filosófica – Para alem do estruturalismo e da hermenêutica; tradução: Vera Porto Carrero.

28 FOUCAULT, Michel. “Poder-corpo” In: Microfísica do Poder; organização e tradução de Roberto Machado. Rio de Janeiro Edições Graal, 1979.

29IDEM, 2007, p. 19.



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