11 de Setembro de 2001

01jun08

11 de Setembro de 2001.

Caio M. Ribeiro Favaretto

Introdução

A expressão 11 de setembro designa uma série de eventos dramáticos que ocorreeram no nordeste dos Estados Unidos na terça-feira, 11 de setembro de 2001: Três aviões comerciais (Boeing 767 e 757) atingiram dois dos edificios mais simbólicos do planeta, as torres gêmeas do World Trade Center, em Nova Iorque e o Pentágono, sede do departamento de defesa dos Estados Unidos, em Washigton. Um quarto avião caiu em meio a um descampado na região de Shanksville, na Pensilvânia. O relatório da Comissão Nacional sobre os ataques terroristas contra os Estados Unidos, publicado em agosto de 2004, atribui à responsabilidade dos ataques à organização terrorista Al-Qaeda, afirmando que os desenove sequestradores envolvidos nos atentados suicidas eram membros liderados pelo saudita Osama bin Laden, que reclamou a autoria do ataque em diversos vídeos. Os atentados foram vivenciados em tempo real por centenas de milhares de telespectadores através do globo, as imagens dos aviões atingindo a segunda torre do World Trade Center foi transmitido ao vivo, assim como o colapso das duas torres em Manhattan. O choque psicológico foi considerável no plano internacional, e o impacto nos contextos político e econômico foi posto como profundo e de longa duração. O governo americano inicia a partir daí uma reforma na legislação de segurança nacional, deflagrando uma guerra contra o ”Eixo do Mal”: Afganistão, Irã, Iraque, Coréia do Norte e quais outros Estados que abrigassem ou fornecessem suporte à organizações terroristas. As vitimas diretas do ataque chegam a 2973 mortos, 24 desaparecidos, alguns milhares de pessoas feridas e diversas outras, em sua maioria envolvidas no resgate, desenvolveram doenças posteriormente em razão da inalação de poeira toxica.

Os atentados destacam-se claramente na História não só como primeiro ataque em solo americano, mas principalmente pela ostensiva cobertura mediática inédita, superando a tomada dos reféns nos Jogos Olímpicos de Munique de 1972. Nova Iorque, possivelmente a capital mundial do século XX, é sede de agências de imprensa e de televisão e contou com a presença de câmeras e jornalistas no local do choque do primeiro avião, experimentarando uma mediatização consideral. Durante o segundo choque, a maioria das televisões do mundo já transmitia ao vivo.

Os atentados e suas consequências ocuparam as manchetes dos jornais por semanas a fio e chocaram a população americana, que pela primeira vez se vê como vítima direta do terrorismo internacional. Em 12 de setembro de 2001, dia que segue os atentados, o Conselho de Segurança das Nação Unidas formula a resolução 1368, proposta pela França, condenando os atos ”dentro dos termos mais fortes os terríveis qtentatos ocorridos em 11 de setembro de 2001, em Nova Iorque, Washingtont (DC) e na Pensilvânia e considera tais atos, como todo ato de terrorismo internacional, como uma ameaça à paz e a segurança internacionais; Exprime suas profundas simpatias e condolências para com as vitimas e suas familias, assim como o povo e o governo dos Estados Unidos da América”. A manchete do dia seguinte do jornal francês Le Mondenous sommes tous américains’‘ simboliza um espírito geral de simpatia e solidariedade por parte do mainstream midiático.

Aproximadamente um mês após os ataques, os Estados Unidos invadem o Afganistão com o intuito de derrubar o regime Taliban, que daria abrigo à Al-Qaeda. Começam a circular reações do mundo acadêmico sobre um possível golpe definitivo ( iniciado pelos chamados movimentos anti-globalização) na ordem pós-Muro de Berlim. Os ataques de 11 de setembro jogaram por terra a análise de Fukuyama, anunciante do fim da História e das grandes meta-narrativas, a chegada a uma era pós-ideologica e do consenso da social-democracia liberal trazida pela queda do Muro. Mais ainda, teria trazido a evidência trágica da vitória americana na corrida pela hegemonia mundial no século XX, que tornou o pais vitima de seu próprio sucesso e consequentemente da inveja dos que foram incapazes de alcança-lo. Ficou claro que uma série de conflitos de grande magnitude ainda estava por ser resolvida. Embora a Al Qaeda seja uma organização terrorista e não propriamente um Estado, o conflito iniciado a partir do incidente desencadeava uma série de questões: O atentado, primeiro ataque de grande porte em solo americano, representaria uma represália à política externa agressiva dos EUA dos últimos anos? Seria um resposta ao ”Imperialismo Ianque” vinda do Terceiro Mundo, agora atualizada a realidade pós-moderna, descentralizada, fantasmagórica, utilizando-se da mídia de massa globalizada? Ou assinalava a presença de um contraponto poderoso e inesperado à cultura hegemônica ocidental?

Fim da Historia.

As análises da política mundial no cenário pós-queda do Muro de Berlim foram profundamente marcadas pelas teses de Francis Fukuyama, um dos mais importantes teóricos da tradição conservadora americana. Em 1989, o pensador publica um artigo intitulado ”O Fim da História?” propondo, a partir de uma interpretação bastante particular da filosofia da história de Hegel, a idéia de que a queda do Muro representava o marco histórico do triunfo do Ocidente sobre o Oriente, a vitória do liberalismo econômico e político sobre todas as antigas formas de organização humana. O artigo de Francis Fukuyama busca de início reverter a tradição dialético-materialista operada por Marx que teria instaurado a realidade, ou mais precisamente, a organização dos modos de produção como definidor do campo das idéias, ou da superestrutura. Assim, o autor busca em Alexandre Kojève, historiador francês, uma possível interpretação original dos escritos do jovem Hegel a respeito dos acontecimentos de 1806. A vitória de Napoleão sobre os prussianos seria a realização do Espírito Absoluto da História e coroava o Estado democrático liberal que levaria a cabo os ideais da Revolução Francesa. Dessa maneira, não haveria mais a necessidade de grandes transformações na esfera política, apenas a inclusão de algumas minorias que à época ainda encontravam-se excluídas, como as mulheres, os negros, etc. ”Não há mais nem luta nem conflito acerca dos ??grandes?? problemas e, por conseqüência, não há mais necessidade de generais ou homens de Estado: e que permanece é essencialmente a atividade econômica.”1. Por meio desse resgate da tradição dialética não marxista, Fukuyama busca trazer a idéia de que uma economia liberal não trás necessariamente uma política liberal. Um ”estado de consciência anterior”2 teria possibilitado o crescimento e o fortalecimento do cultura liberal, confirmados pela abundância de uma economia de mercado moderna. Para o autor, pouco vale a análise das transformações pontuais de países periféricos, mas sim a presença de um movimento geral no cenário mundial, uma ”herança ideológica comum da humanidade”. A partir daí, Fukuyama vai elaborar um histórico de vitórias do liberalismo sobre o que considera ser as duas grandes forças do século XX, o comunismo e o fascismo. Primeiramente, o sucesso da sociedade liberal nos EUA, que teria eliminado a sociedade de classes e diminuído os índices gerais de pobreza, assim como Marx imaginava no Comunismo. A pobreza dos negros americanos seria uma herança da escravidão e do racismo, mas que desapareceria com o desenvolvimento do sistema eleitoral e dos direitos civis. Outra vitória confirmou-se na derrota no fascismo no Japão e na rápida construção de uma sociedade de consumo japonesa, que implementou rapidamente um sistema liberal político e econômico. Outro aspecto importante seria a inviabilidade de manutenção do sistema chinês. ”(…) a República Popular da China não pode mais fazer o papel de farol para as forças antiliberais no mundo (…). O maoísmo, longe e ser um modelo para o futuro da Asia, tornou-se um anacronismo.” São as mudanças na União Soviética, entretanto, o aspecto mais importante do cenário mundial ao final do século XX. ”A involução da União Soviética – pátria do proletariado mundial – deu o golpe de misericórdia no marxismo-leninismo considerado como a alternativa para substituir a democracia liberal”. As mudanças ocorridas durante a era Gorbachev, caracterizadas principalmente por reformas liberais no país, representaram o desaparecimento do marxismo-leninismo (já ausente na China) e equivaleriam à morte de sua ideologia enquanto dotada de importância histórica mundial. A partir daí, Fukuyama afirma que ”o Mercado Comum não deixará de se fortalecer nas relações internacionais, e que a probabilidade de um conflito de grande escala entre os Estados não deixará de diminuir”. O autor prevê que o fim da história será nostálgico e que cessará a disposição por ”arriscar a vida por uma causa puramente abstrata, o combate (…) tudo isso será substituído pelo cálculo econômico, a busca interminável de soluções técnicas, as preocupações com o meio ambiente e a satisfação de consumidores sofisticados.” Ironicamente, a História não poderia ser mais diferente.

O Choque de Civilizações, a História começou novamente?

Outro autor que adquiriu imenso destaque após os ataques foi Samuel Huntington. O artigo publicado no inverno de 1993 na revista Foreign Affairs, entitulado ‘The Clash of Civilizations’ teve imensa circulação nos meios acadêmicos e no debate público. Para o autor norte-americano, o século XX trouxe o acirramento das chamadas ”consciência civilizacionais”, que são definidas por critérios objetivos ”de língua, história, religião, costumas e instituições, e também pela auto-identificação subjetiva dos povos”3. Huntington afirma que existem seis grandes conjuntos argumentativos que levam a crer que os conflitos mundiais ainda existirão e que eles romperão entre as grandes civilizações. Primeiramente, é necessário colocar a importância das diferenças entre as civilizações, principalmente a religiosa. ”Diferenças não significam necessariamente conflito, e conflito não implica necessariamente violência. Ao longo dos séculos, contudo, as diferenças entre civilizações geraram os conflitos mais violentos e prolongados.”4. Em segundo lugar, a convivência entre os povos nunca foi tão intensa. Os fluxos de imigração e de capital trazem um acirramento da convivência entre diferentes culturas e dão energia a conflitos de identidade. São exatamente estes fluxos que trazem um terceiro aspecto do problema, que é a separação das pessoas pelo mundo com identidades locais formadas há muito tempo. O fortalecimento dos fundamentalismos religiosos, que trariam uma forte identidade transnacional, seria uma conseqüência dessa desagregação das comunidades. Em quarto lugar, temos ”o crescimento da consciência civilizacional acentuado pelo duplo papel do Ocidente”. Durante o século XX diversos países, entre eles a India, o Japão e países do Oriente Médio sofreram uma aproximação do Ocidente, talvez por um processo de educação das elites destes países em grandes universidades européias e americanas. Entretanto, este processo é interrompido no final do século, seguido de um processo de desocidentalização e nativização das elites locais, ao mesmo tempo em que as camadas populares destes países adotam hábitos cada vez mais ocidentais. Em quinto lugar, Huntington afirma que outro fator que acentua a possibilidade de conflito é a lentidão com que as mudanças culturais profundas acontecem dentro de uma população, muito mais lentas que as transformações de natureza política ou econômica. Em último lugar, vemos um fortalecimento dos regionalismos econômicos, com a formação de blocos regionais que só poderão ser bem-sucedidos se foram baseados em vínculos civilizacionais, como demonstra o exemplo da União Européia, fundamentalmente cristã.

Huntington busca dar especial destaque a clivagem civilizacional entre Ocidente e Islã, que seria o ponto de tensão mais forte dentro da lógica do ”Ocidente contra o resto”. Para ele, esta é a ”linha de cisão” mais importante no cenário mundial, em ebulição há 1.300 anos. Para o autor, os atentados em Nova Iorque e as Cruzadas fazem parte da mesma dinâmica de enfrentamento entre cristãos ocidentais e o Islã, e tende a de tornar mais violenta, uma vez que ambas as partes entendem o conflito como de natureza civilizacional. A partir do conceito de ”síndrome dos países parentes”, Huntington buscará mostrar como uma série de conflitos aparentemente periféricos e menores, no Golfo Pérsico, no Cáucaso e nas áreas da ex-União Soviética, demonstram uma escalada das tensões entre Ocidente e Islã, Ao final de ser artigo, Huntington fornece algumas diretrizes para a ”política externa” ocidental em relação à nação Islâmica: ”limitar a expansão do poder militar dos Estados islâmicos e confucianos (…) explorar a diferença entre os estados islâmicos e confucianos; apoiar, em outras civilizações, grupos que demonstram simpatia e interesse pelos valores ocidentais; fortalecer instituições internacionais que refletem e conferem legitimidade aos interesses e valores ocidentais”, etc.

A Postura Saidiana.

As opiniões de Samuel Huntington serão alvo de grande debate. Talvez seu maior crítico tenha sido o intelectual palestino Edward Said, então professor da Columbia University. Em outubro de 2001, Said publica ”The Clash of Ignorance”, uma feroz crítica às concepções de Samuel Huntington a respeito de noções como ”identidade de civilização”, das ”interações entre as chamadas sete ou oito (sic) maiores civilizações” e seu destaque arbitrário aos embates entre o Islã e o Ocidente. Said atacará o modo como o autor americano lida com conceitos complexos de maneira ingênua. ”A personificação de enormes entidades chamadas ”O Ocidente” e”?O Islã?? é afirmada de maneira simplista, como se questões tão atribuladas como identidade e cultura existissem como no mundo dos desenhos infantis, onde Popeye e Brutos se atacam impiedosamente, à moda de pugilistas”. Said denuncia o fato destas categorias de pensamento absolutamente não levarem em conta a dinâmica interna e a pluralidade própria a cada civilização. O modo hermético como Huntington trata cada civilização apenas denunciaria alto grau de demagogia e ignorância, ao presumir que se pode falar livremente em nome de uma civilização inteira. Sua argumentação se assemelha a de um ideólogo, que busca construir um cenário de contínua agressão e ignora o fato de que o intercâmbio entre as civilizações não só impediu diversas guerras religiosas e de conquistas imperialistas, mas também abriu espaço para trocas culturais mútuas. Tal obtusidade apenas relevaria o autor atrapalhado e o intelectual deselegante que é Huntington. O paradigma do ”Ocidente contra o resto”, compartilhado por figuras como Silvio Berlusconi, atual presidente italiano eleito pela terceira vez, elabora um corte analítico que ignora a gama de variações intra-civilizacionais. Said afirma ”Aos invés, por que não ver paralelos, claramente menos espetaculares e destrutivos, em Osama Bin Laden e seus seguidos nos discípulos do Reverendo Jim Jones na Guiana ou no Aum Shinrikyo, responsável pelo ataque com gás sarin ao metrô japonês em 1995”5. Espantoso como diversos jornais respeitados e revistas como a ”The Economist” se apropriaram do vocabulário apocalíptico de Huntington, mas como pensar um Islã atrasado e irracional quando os próprios membros da Al Qaeda se valeram de uma espécie de razão instrumental, dominando diversos processos técnicos complexos para dar conta da elaboração do projeto de destruição das Torres Gêmeas dos ataques ao Pentágono? O uso político desta operação de extrema simplificação da dinâmica do cenário mundial nos aparece de maneira bastante clara nas declarações niilistas de Paul Wolfowitz, articulando noções maniqueista e pregando o extermínio completo de países. Said coloca: ”O quão mais fácil é fazer afirmações belicosas com o propósito de mobilizar paixões coletivas ao invés de refletir, examinar e perceber com o que estamos lidando na realidade, a interconectividade de muitas vidas, ”nossas” assim como ”deles”.” Said descreve ainda todo o processo de distorção que as grandes religiões monoteístas, o judaísmo, o islamismo e o cristianismo, tem sofrido por parte de grupos fundamentalistas. Paras ele, as três religiões encontram-se ”entre as profundas águas da tradição e a modernidade” e a tentativa de distinção clara entre os dois processos é fútil e desnecessária. Devemos, portanto, pensar em termos ”de comunidades fortes ou frágeis,. na política secular da razão e da ignorância e em princípios universais de justiça e injustiça.”. Nesse momento, é possivel que Said localize o cerne do problema. Seriamos ainda capazes de formular critérios universais de justiça e injustiça? E se pudéssimos seguir uma linha direta que se inicia com o processo de formaçao da racionaldiade capitalista, que é coroado os atentados de 11 de Setembro como o ato espetacular da anti-política por excelência?

O espetáculo não deseja chegar a nada que não seja ele mesmo.

Durante os meses que seguiram os atentados, a mídia norte-ameriana e internacional não cessou de exibir as imagens do choque das torres, pessoas fugindo do desmoronamento pelas ruas do sul da ilha de Manhattan, corpos minúsculos que se atiravam pelas janelas do complexo em chamas para a morte certa e bombeiros nova-yorquinos em ação que agora encarnavam os novos hérois nacionais, numa surpreendente volta do arquétipo do macho-alfa. A comparação com os inumeros filmes-catástrofe feitos por mais de meio século por Hollywood parece quase inevitável, no entanto acredito que seja necessário radicalizar esta hipótese, ao afirmar que, ao contrário das teses do fim das ”férias americanas da Historia” ou da invasão do barbárie terceiromundista na esfera fastástica do American Dream, o ataque as torres gêmeas evidencia, ao contrário, exatamente a penetração da lógica imagética na esfera da política.

Dessa maneira, poderíamos seguir o filósofo esloveno Slavoj Zizek, que afirma: (…) teríamos portando de inverter a leitura padrão, segundo a qual as explosões do WTC seriam uma intrusao do Real que estilhaçou a nossa esfera ilusória: pelo contrario – antes do colapso do WTC, vivíamos nossa realidade vendo os horrores do Terceiro Mundo como algo que na verdade não fazia parte da nossa realidade social, como algo que (para nós) só existia como um fantasma espectral na tela do televisor -, o que aconteceu foi que, no dia 11 de setembro, esse fantasma da TV entrou na nossa realidade. Não foi a realidade que invadiu a nossa imagem: foi a imagem que invadiu nossa realidade. ”.6

Capitalismo e Crise da Razão.

Acredito que seria de grande valia reconstruir brevementea a análise weberiana dos processos de construção de racionalidade e irracionalidade próprios ao capitalismo e sua posterior recepção como base de reflexão pela chamada Escola de Frankfurt na análise do legado da razão ocidental no cenario pós-guerra. O diagnóstico histórico da modernidade de Marx Weber parte de sua teoria das autonomias das esferas de valores das esferas sociais de valores na modernidade. Weber afirma que o sentimento de desagregação e de indeterminação apareciam necessariamente como consequências dos processos de modernizaçao social e de desencantamento do mundo devido à perda do poder de unificação social produzido pelas explicações mítico-religiosas de mundo. A tensão entre a significação religiosa e a direção do mundo levara necessariamente àquilo que Weber chamava de ”autonomização das esferas social de valore”, ou seja, processo de autonomia cada vez maior entre os conteúdos normativos, as exigências de validade e desenvolvimento da arte, da ciência, da politica e da economia. Processo este cujo resultado era a necessaria fragmentação do campo da experiência. No entanto, não só as explicações mítico6religiosas de mundo haviam perdido sua força unificadora. Para Theodor Adorno, aquilo que décadas mais tarde a filosofia francesa contemporânea chamara de ‘metanarrativas’, ou seja, explicações globais de processos sociais através do recurso à filosofias emancipatórias da história, não podiam mais fornecer garantias para qualquer experiência filosofica autenticamente fiel ao seu conteudo de verdade. Pois bem, está dado o cenário para o desenvolvimento da utopia liberal pós-moderna do capitalismo de consumo, onde impera a sociabilização mediada pela indústria cultural-publicitária e pela propaganda política de massa, ambas fundamentalmente articuladadas pelo apelo incessante a imagens fetichizadas de formulas gerais de orientação de conduta.

Imagem de Si e Paixão pelo Real.

Poderiamos entranto radicalizar esta crítica pelas das palavras do psicanalista francês Jacques Lacan: Uma imagem sempre bloqueia a verdade. Zizek opera com conceitos trazidos principalmente das tradições hegeliana e lacaniana, os quais tomarei a liberdade de reconstruir ao longo do texto quando necessario. Zizek parte da noção de ”Paixão pelo Real” elaborada pelo filosofo francês Alain Badiou em ”Le Siécle”, que pode ser entendida como o motor por trás dos empreendimentos políticos violentos que buscqrqç fundar uma nova ordem coletiva por meio de uma ciência do real (como o marxismo, por exemplo). Tais empreendimentos alcançaram a destruição, mas não a construção. Eles inventaram ações revolucionárias que fracassaram na construção de um novo Estado. Para que possamos melhor compreender esta idéia, é necessario adentrar na distinção operada pelo psicanalista francês Jacques Lacan entre o Imaginario, o Simbolico e o Real. Como esclarece Vladimir Safatle:

”O imaginario, o simbolico e o real são os três registros nos quais se desenvolve a experiência humana. O imaginário é aquilo que o homem tem em comum com o comportamento animal. Trata-se de um conjunto de imagens ideais que guiam tanto a relação do indivíduo com seu ambiente próprio quanto o desenvolvimento de sua personalidade. O Simbólico é o domínio da organização estrutural da vida social. Como Lacan subordina a sociedade e a cultura à linguagem, a ordem simbólica será um conjunto de significantes que determina os lugares que cada um pode ocupar na vida social. Já o Real não é, como poderia parecer, a dimensão da experiência imediata. Sua definição é negativa: ele é aquilo que não pode ser representado por um significante nem pode ser forma]izado por uma imagem. Essas três dimensões estão sempre presentes em uma relação de articulação conjunta.”7

Neste sentido, Lacan insiste na impossibilidade de submeter o comportamento humano que a lógica do cálculo utilitarista de maximização do prazer e de afastamento do desprazer. Para compreender determinados atos é necessaria a introdução de um outro campo conceitual com sua lógica própria, um campo que desarticula distinções estritas entre prazer e desprazer por colocar o Eu sempre diante de uma certa dissolução de si que produz, ao mesmo tempo, satisfação pulsional e terror. Esta indistinção entre satisfação e terror que Lacan chama de “gozo”. A contribuição de Badiou consistiu em mostrar como esta experiência disruptiva posta na essência da conduta do sujeito foi o motor da nossa história recente. História revolucionária na qual se imbricam violência, criação, destruição e procura. A partir dessa idéia Zizek afirma que “o paradoxo fundamental da paixão pelo Real é que ela culmina no seu oposto aparente, num espetáculo teatral – desde o espetáculo dos julgamentos de Stalin até os atos espetaculares de terrorismo. Se a paixão no puro semblante do espetacular efeito do Real então, em exata inversão, a paixão pós-moderna pelo semblante termina numa volta violenta a paixão pelo Real.8

O que estaria por trás da teoria Huntingtoniana se não uma invasão da lógica imagética na construção intelectual da imagem de si ”ocidental” como forma de alienação na figura de uma catastrofe global fruto de uma guerra civilizacional de violência sem precedentes? Lógica imagética incapaz de matizar não só as nuances internas a cada ”civilização’ mas também sua variação no tempo. Talvez pudéssemos inverter a proposição do choque de civilização na idéia de choque interno à cada civilização, que atravessar cada uma a sua maneira um processo violento de resistência a modernização. Seguindo o raciocínio de Zizek, devemos rejeitar a dupla chantagem proposta pela noção de McWorld versus Jihad, liberais versus fundamentalistas. Como sustentar tal postura diante da leniência americana com paises monarquicos profundamental conservadores como a Arábia Saudita ou o Kuwait, a qual evidencia a primazia dos interesses econômicos em detrimento dos pressupostos democráticos; ou ainda o episódio ocorrido durante a Guerra do Golfo em 1990, quando soldados judeus americanos alojados na Arabia Saudita tiveram de ser deslocados por helicoptores até os porta-aviões no Golfo para orar, uma vez que eram proibidos ritos não maometanos em solo saudita. Zizek propõe ainda um pequeno exercício mental, que envolve o episódio de 7 de Outubro de 2001, dia do anúncio da invasão do Afganistão, quando George W. Bush lê o seguinte depoimento em rede nacional:

I recently received a touching letter that says a lot about the state of America in these diffcult times – a letter from a fourth-grade girl, with a father in the military: ”As much as I don’t want my dad to fight”, she wrote, ”I’m willing to give him to you.’ This precious gift, the greatest she could give. This young girl know what America is all about”.9

Estas palavras foram lidas como simples demonstração de nacionalismo americano, mas o que poderiamos imaginar quais seriam as reações publicas à leitura da mesmíssima carta por uma menina, filha de um militante da Al Qaeda?

Na Edição Especial de Davos da revista Newsweek foram apresentados ” A era das guerras muçulmanas” de Huntington e ”O inimigo real” de Francis Fukuyama. Num primeiro momento, as noções de ”guerra de civilizações” e ”fim da historia” parecem absolutamente contraditórias. No entanto, ambas destacam o ”Islamofacismo” como a maior ameaça ao sistema mundial contemporâneo. Poderíamos tomar a expressão como verdadeira sentido de uma tentativa de construir ”capilistamo sem capitalismo”, ou seja, sem os excessos de individualismo, desistegração social e relativização de valores. Conflitos étnico-religiosos pseudonaturalizados são a forma de luta que se ajusta ao capitalismo global. ”Hoje, o crescimento da violência ”irracional” deve ser entendido como o correlato estrito da despolitização de nossas sociedades, ou seja, do desaparecimento da dimensão politica, sua tradução em diferentes niveis da ”administração” de negocios publicos.10 Esta colocada, portanto, a necessidade de ruptura com uma postura corrente de defesa do Islã como uma grande e nobre religião, que ainda não teria passado por um processo de ‘protestantização” adaptável ao capitalismo, mas sim expor esta mesma resistência à modernização como um processo em aberto, cuja via para um socialismo islâmico estaria ainda em aberto. Talvez pudéssemos rememorar a proposta do situacionista Guy Debord, que afirmava ”não queremos mais trabalhar pleo espetáculo do fim do mundo, mas pelo fim do mundo do espetáculo.”

Bibliografia:

Adorno /Horkheimer. Dialética do Esclarecimento. Trad. Guido A. de Almeida. Rio de Janeiro, Zahar, 1985.

BADIOU. A. L’étre et l’événement. Paris, 1988.

________. Le Siècle. Sueil, Paris, 2005

Debord, Guy; A sociedade do espetáculo, Rio de Janeiro, Contraponto, 1997

Faludi. S. The Terror Dream: Fear and Fantasy in Post-War America. Metropolitan Books New York, 2007

Huntington, Samuel. Choque de Civilizações?, Política Externa2(4), São Paulo: Paz e Terra 1994, pp.120-142.

Nobre, Marcos. A Teoria crítica. Rio de Janeiro, jorge Zahar Editor, 2004.

Fukuyma, Francis. Has History started again?, Foreign Policy 18(2) 2002, p.5-7.

Said, Edward. The clash of ignorance, The Nation, 22 de outubro 2001.

Zizek, S. Bem-vindo ao Deserto do Real! São Paulo, Boitempo Editoral 2003

1Fukuyma, Francis. Has History started again?, Foreign Policy 18(2) 2002

2Idem.

3Huntington, Samuel. Choque de Civilizações?, Política Externa2(4), São Paulo: Paz e Terra 1994, pp.120-142.

4.Idem.

5Said, Edward. The clash of ignorance, The Nation, 22 de outubro 2001.

6Zizek, S. Bem-vindo ao Deserto do Real! São Paulo, Boitempo Editoral 2003 pg 31.

7Safatle, V. Glossario de Lacanês. Folha de S. Paulo 8 de abril de 2001.

8Zizek, S. Bem-vindo ao Deserto do Real! São Paulo, Boitempo Editoral 2003 pg 24.

9Faludi. S. The Terror Dream: Fear and Fantasy in Post-War America. Metropolitan Books New York, 2007 pg 6.

10Zizek, S. Bem-vindo ao Deserto do Real! São Paulo, Boitempo Editoral 2003 pg 155



No Responses Yet to “11 de Setembro de 2001”

  1. Deixe um comentário

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s


%d blogueiros gostam disto: