Os Distúrbios em Londres e a Resposta do Governo

04set11

Entrevista de Frederico Souza de Queiroz Assis ao Webjornal da UNESP (Agosto/2011).

Contato: frederico.assis@usp.br

Webjornal – As medidas adotadas para reprimir os envolvidos nas manifestações estão gerando polêmica por serem muito severas. Você acredita que o governo esteja tomando medidas muito drásticas no combate aos distúrbios? Qual é o objetivo de punir de forma tão rígida?

Frederico Assis  Desde o início, o primeiro-ministro David Cameron prometeu responder com mão firme às manifestações, a fim de preservar a ordem social. Em seus discursos tentava reduzir o problema à esfera criminal, ao mesmo tempo em que mobilizava um efetivo de 16 mil policiais para reprimir os distúrbios nos bairros onde eles irrompiam.

Boa parte da mídia britânica respaldou as afirmações de Cameron – houve jornalista que chegou até a evocar a imagem do “estado de natureza” hobbesiano, em um raciocínio que legitimasse uma atuação ainda mais forte do aparato coercitivo estatal frente ao caos daqueles dias.

Segundo algumas reportagens, a justiça britânica tendeu a endurecer contra os revoltosos, apresentando celeridade nos julgamentos, muitos deles decretando sentenças “draconianas”. Mais de 2700 pessoas foram detidas durante os tumultos.

Evidentemente, todo esse comportamento “linha-dura” por parte do governo acaba funcionando como tentativa de intimidação para que não ocorram episódios similares novamente.

Há uns meses, por exemplo, o filho de David Gilmour, guitarrista do Pink Floyd, foi condenado a 16 meses de prisão por ter feito desordem em protestos estudantis junto a uma comitiva do príncipe Charles e de sua esposa Camila Parker. É de se esperar que a repercussão do caso do filho do artista, de algum modo, sirva de lição a outros estudantes.

Pode-se até argumentar que a repressão policial seria compreensível para aplacar os conflitos em Tottenham, como recurso vinculado organicamente ao modus-operandi do próprio Estado. É um tipo de resposta previsível.

O que me parece importante perguntar é se não estaríamos vivendo em um momento na política contemporânea em que a exceção teria se cristalizado em padrão de atuação. Em que o ideal de segurança pública eclipsaria permanentemente a própria lei.

Conhecemos bem a história do caso Jean Charles de Menezes, morto na estação de Stockwell, em 2005, e o contexto dentro do qual o episódio se insere.

Nesse sentido que se protesta contra a face de violência do aparato coercitivo do Estado, em razão da morte não esclarecida de um homem negro, pois não a veem como fato isolado, excepcional.

Uma outra questão a ser problematizada nesse momento dos distúrbios iniciados em Tottenham é até que ponto a Inglaterra está sabendo lidar com a sociedade cosmopolita que, em boa medida, ela mesmo inventou. A morte de Mark Duggan pela Operação Trident da Scotland Yard, cujas circunstâncias ainda não foram totalmente esclarecidas, parece desvelar tensões étnicas no bojo da sociedade londrina e que, em certo sentido, faz a Inglaterra acertar as contas com seu próprio passado.

O antigo império onde o sol não se punha, pra me utilizar de uma expressão vitoriana, vê-se instado a resolver internamente os problemas das populações oriundas de suas ex-colônias, que agora também demandam por um lugar ao sol… E, a meu ver, políticas repressivas contribuem pouco para que se atinja um nível de coesão social suficientemente elevado para a construção de uma coexistência multicultural pacífica.

Webjornal – David Cameron afirmou que os distúrbios são episódios de pura violência e não de descontentamento com a política do país. Você concorda? Acha que os distúrbios passaram da conta e se transformaram em demonstrações de violência ou que a população não encontrou outra forma de manifestar seu descontentamento?

Frederico Assis Em um primeiro momento, David Cameron tratou de qualificar os distúrbios como puramente criminosos (com o transcorrer dos eventos, alargou um pouco a sua concepção, apontando questões de declínio moral, mas também admitindo um ou outro problema na condução da política social britânica). Obviamente que reduzir o problema à esfera da criminalidade ou a uma “má índole” acarreta em abrir mão da necessidade de se discutir a responsabilidade do governo para a eclosão das revoltas. O Daily Mail chegou a chamar os revoltosos de “bestas selvagens”, assim como foram chamados os insurgentes da Comuna de Paris, em 1871.

Não se pode fazer uma associação imediata que relacione o fato de não haver um objetivo político claramente explicitado e unificado a uma ação pura e simplemente criminosa.

Além disso, à caracterização simplista que, no início, o governo fazia do perfil dos revoltosos se sobrepôs uma pluralidade em termos étnicos e até mesmo profissionais, derrubando os estereótipos presumidos e complexificando o problema.

A cidade de Londres foi incendiada como não acontecia desde a Blitz na Segunda Guerra Mundial – em eventos que remeteram a composições clássicas do punk britânico.

Me parece que demonizar os revoltosos é tão equivocado quanto seria romantizá-los. Certamente apareceram ações de roubo meramente oportunista, bem como momentos de violência à la Grand Theft Auto, onde despontaram indivíduos sem grande consciência ético-crítica. Mas, ainda assim, esse fenômeno nos diz muita coisa.

A meu ver, os saques de tênis de marca, iPods e DVDs apontam para uma frustração coletiva, fruto de certo entorpecimento ideológico da sociedade de consumo, em não ter acesso aos mesmos padrões das outras classes sociais, senão porque esses padrões lhes são oferecidos enquanto miragem. É uma história em completo descompasso.

De fato, em larga medida, as revoltas de agosto de 2011 são reflexos de um cenário mais amplo de desagregação social no Reino Unido. A ministra do Interior, Theresa May, declarou que os tumultos eram sintomas de um “mal estar mais profundo”. O próprio vice-primeiro-ministro, o liberal-democrata Nick Clegg, antes de fazer parte da coalizão com os conservadores de David Cameron, tinha afirmado que, se o governo não tomasse cuidado com os drásticos cortes públicos, o país assistiria distúrbios parecidos com os que vêm ocorrendo na Grécia.

Martin Luther King disse que “um motim é, no fundo, a linguagem dos que não têm voz”. E, para os que não têm nenhuma perspectiva de futuro, qualquer revolta pode acabar extrapolando o aspecto estritamente político se reconfigurando e se exprimindo como espécie de catarse coletiva. Independentemente do julgamento que se faça a respeito da legitimidade das ações em Tottenham e nos outros bairros pobres, me parece que sem uma concepção governamental que busque reinventar a cidadania e sem medidas que elevem grandes parcelas da sociedade a patamares mínimos de dignidade, o efeito inescapável pode vir a ser exatamente a barbárie.

Webjornal – O que os moradores de Londres reivindicam com os protestos? Há um objetivo central?

Frederico Assis No início, o denominador comum do protesto era a crítica ao papel da polícia nos bairros pobres de Londres, denunciando a violência policial contra as populações negras, a partir do caso da morte de Mark Duggan.

Contudo, esse foi um rastilho para as comunidades pobres acabarem expondo a fratura social existente na sociedade britânica, levada a cabo por parte de “uma geração que se sente esquecida”, segundo as palavras da escritora e ativista canadense Naomi Klein.

Não houve um eixo político articulador, ações coordenadas ou demandas explícitas. Nesse sentido, não foi um movimento com objetivo central pré-definido, tal como o que ocorre entre os estudantes do Chile atualmente – ou mesmo o que ocorreu entre os estudantes britânicos na “March for the Alternative” em março deste ano. Tampouco se pareceu com os protestos travados contra as medidas do thatcherismo na década de 80, como a greve dos mineiros e a dos trabalhadores gráficos, nem como o prostesto contra o imposto regressivo de 1989-1990.

Os distúrbios se parecem muito mais com os que ocorreram em Los Angeles em 1992 ou nas banlieues de Paris em 2005. Tottenham é o bairro com maior nível de desemprego de Londres, com taxas acima dos 30%, para se ter uma ideia.

Muito embora não haja uma lista de demandas, os revoltosos acabam mandando uma série de recados ao governo britânico, em um exercício de tradução de suas ações. Mostram a sua insatisfação com a política de austeridade fiscal e o consequente corte de gastos públicos; a obstaculização do acesso às oportunidades reais; a sua recusa a estar à deriva na sociedade, enfim. No fundo, é uma crítica às prioridades do governo em tempos de crise e recessão.

Webjornal – O que a maioria dos veículos divulga é que, os distúrbios tiveram como estopim a morte de Mark Duggan, morador de Tottenham. Você acredita que esse tenha mesmo sido o único, ou o principal motivo?

Frederico Assis Sem dúvida, a morte de Mark Duggan foi a causa imediata para a eclosão dos protestos, mas deve ser colocada em um contexto mais amplo que leve em conta o histórico das relações entre a polícia e a comunidade negra nos bairros pobres de Londres. Nesse ponto, as circunstâncias causais dos eventos de Tottenham em 2011 são praticamente as mesmas dos distúrbios de Toxteth e Brixton em 1981 – o cotidiano neste último bairro teria inspirado a banda The Clash a compor a profética “The Guns of Brixton” quase dois anos antes.

A manifestação começa com dimensão racial que se desdobra em uma ação mais ampla de dimensão sócio-econômica e cultural. E é a partir dessa suposição que o fenômeno tem gerado um debate em torno de suas causas.

A meu ver, o contexto atual não pode ser descolado do processo histórico de desmantelamento do Estado de Bem-Estar Social iniciado por Margareth Thatcher e sua crença inabalável nas teses hayekianas. Nos anos do thatcherismo, a Inglaterra viu crescer os níveis de desigualdade social, expressos pelo aumento do Coeficiente de Gini, por exemplo.

Os reflexos na vida da social britânica foram se constituindo nessas últimas décadas a partir do imperativo da redução da interferência do Estado em termos de política econômica – traduzida, não raro, em termos de política social. Alguns analistas dizem que o próprio “New Labour” de Tony Blair – e sua pretensão de marcar posição como uma “terceira via” alternativa – não se propôs a modificar grandes linhas mestras, tendo apenas contornado alguns problemas e aparado algumas rebarbas inconvenientes (como foi o caso da reintrodução do salário mínimo, abolido nos anos da “Dama de Ferro”).

E as revoltas de agosto de 2011 irrompem sob o pano de fundo de cortes orçamentários dos conservadores (os maiores da União Europeia) que implicaram em redução em investimentos em projetos sociais no bairro de Tottenham, como o fechamento de centros de apoio a jovens, justamente a faixa etária que é mais afetada pelo desemprego. Também se pode mencionar, por exemplo, que o NHS (Serviço Nacional de Saúde) está claudicante e que a matrícula universitária será triplicada a partir de 2012, o que já gerou muitos protestos, inclusive.

Em resumo, em face a diminuição de serviços públicos, sobretudo as comunidades mais pobres teriam desenvolvido a percepção de ampla vulnerabilidade social. Fazendo essa leitura, os distúrbios dos jovens de Tottenham, Hackney, Clapham, Peckham etc. se caracterizariam como uma tentativa forçada de criar um momento disruptivo, pelos que se insurgem contra a sua própria condição.

Webjornal – De que forma esses episódios estão afetando o governo britânico? A imagem do primeiro-ministro está enfraquecida?

Frederico Assis Os episódios de agosto estabeleceram mais uma frente em que o governo de David Cameron vai ter que se desdobrar para manter bons níveis de popularidade. Antes de qualquer coisa, é bom ressaltar que há pessoas favoráveis ao modo como ele encaminhou o fim dos distúrbios em Londres. Mas, de qualquer forma, ele vai ter que esclarecer à opinião pública o que realmente ocorreu no episódio específico da morte de Mark Duggan.

David Cameron foi eleito a partir de uma plataforma que dava relevo à questão da moralidade na política e na sociedade. Sua imagem se construiu como a de alguém fortemente comprometido com essa questão. Na sua campanha, empenhou-se em ressaltar seu papel na tarefa de consertar a “Broken Britain”, expressão utilizada pelos conservadores desde 2007 e que faz alusão justamente a um Reino Unido em plena decadência social e moral. Não é a toa que coloca as revoltas de agosto nesses termos. Contudo, mesmo o discurso de bastião da moralidade acabou, em alguma medida, sendo posto em xeque mediante as acusações de envolvimento no escândalo das escutas telefônicas.

Somando-se a isso, vai depender muito de como Cameron vai conduzir a política econômica em tempos de crise. Seu partido ganhou as eleições de maio de 2010 atribuindo aos trabalhistas a culpa pela crise, em função do déficit fiscal. O Ministro das Finanças, George Osborne, já deixou claro que não irá recuar nos cortes orçamentários previstos para os próximos quatro anos.

De todo modo, segundo pesquisas do site Yougov, metade dos eleitores do Partido Conservador não apoia os cortes nos serviços públicos. E aí residiria o potencial a ser explorado pelo líder trabalhista Ed Miliband.

Deve-se lembrar que os conservadores foram eleitos sem maioria absoluta, tendo obtido 36% dos votos. Por isso, foi arquitetado um governo de coalizão com os liberais-democratas, de centro-esquerda; na prática, isso significa que Cameron vai ter que se esforçar para fortalecer as alianças e sustentar um nível satisfatório de governabilidade que permita, inclusive, efetivar medidas que podem ser consideradas impopulares, sobretudo para as comunidades que mais carecem de apoio governamental, se ainda quiser continuar morando na 10 Downing Street.

Frederico Souza de Queiroz Assis é professor de Relações Internacionais da Escola Superior de Administração, Marketing e Comunicação (ESAMC).



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